quinta-feira, 12 de março de 2015

A QUEDA DA CASA DE USHER (ROGER CORMAN/EUA/1960): HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS: “A QUEDA DA CASA DE USHER”, DE EDGAR ALLAN POE.

A QUEDA DA CASA DE USHER (ROGER CORMAN/EUA/1960)

HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS: “A QUEDA DA CASA DE USHER”, DE EDGAR ALLAN POE.

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO FERREIRA DE LIMA)


·         INTRODUÇÃO:

Roger Corman (1926), produtor e diretor, com o enigmático ator Vincent Price (1911-1993), lideram esta livre adaptação fílmica do conto “A queda da Casa de Usher”, do escritor estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849) -, ensaísta, romancista, contista e crítico literário -, coligido nas Histórias Extraordinárias.

·         O ESCRITOR E A OBRA:

Poe só publicou um único romance, em 1838, A narrativa de Arthur Gordon Pym. O restante da sua obra foi publicado em periódicos. É o precursor da literatura policial e de terror.

(Mas, no Brasil, um pouco antes, vale lembrar que Machado de Assis publicou um conto denominado A causa secreta, que também tem um quê de horror, suspense e sadismo.).

Segundo o crítico Todorov (1939): Poe publicou contos de seis tipos, a saber -, “contos grotescos, filosóficos, de aventura, de terror, de alegoria e de raciocínio.”. Edgar Allan Poe escrevia “com a precisão de um problema matemático”, ainda segundo Todorov. O que ressalta o caráter apolíneo de reflexão e construção orgânica de seus contos, que seria reverenciada pelo pré-simbolista Baudelaire e pelo Simbolismo francês, principalmente na figura do poeta Mallarmé, em especial na obra-prima, Um lance de dados. No Brasil, encontraremos esse tipo de lírica apolínea, já moderna, ou antilírica, segundo Hugo Friedrich (1978), em, por exemplo, no poeta, João Cabral de Melo Neto, no poema “O engenheiro” ou no Tríptico da Negatividade, em especial na “Fábula de Anfíon”.

Mas, isso tudo Poe já demonstrava em seu poema “O Corvo” (1845), com métrica precisa e expressiva musicalidade. O próprio escritor explicou seu trabalho de tessitura daquele poema, num ensaio crítico-literário, intitulado “A filosofia da composição”, demonstrando total domínio das técnicas literárias em qualquer âmbito.

 A obra de Poe tem como “(...) sua peculiaridade marcante: a força da imaginação.” (...) “(...) Mas há uma peculiaridade na sua imaginação que não encontramos em ninguém mais: a força dos detalhes.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor, Apud, CARLOS, Cássio Starling et cetera, 2013, p. 13).

Essa característica transforma os contos do escritor americano em escritos ambíguos, numa dualidade dinâmica entre real e sobrenatural, nunca sintética, mas sempre analítica e reflexiva. Charles Baudelaire assevera em relação a tal característica estética e estilística:

(...) a alucinação, primeiro dando lugar à dúvida, em seguida convicta e impassível como um livro; o absurdo instalando-se na inteligência e governando-a com uma lógica assustadora (...). Analisa o que há de mais fugidio, pesa o imponderável e descreve nesse modo minucioso e científico, cujos efeitos são terríveis, todo esse imaginário que flutua em torno do homem nervoso e o conduz à desgraça. (BAUDELAIRE, Charles, Apud, CARLOS, Cássio Starling et cetera, 2013, p. 14).


  Edgar Allan Poe é um escritor marginal, romântico tardio, precursor do Simbolismo e da Lírica Moderna e da Prosa Moderna, e, também do conto policial e de terror, segundo o crítico literário e tradutor José Paulo Paes (2008). Nada do moralismo dos seus contemporâneos; nada em seus textos prevê o realismo crítico social de Mark Twain, que dominaria a literatura estadunidense. Rebelde, Poe é um escritor maldito tal qual serão os poetas simbolistas decadentes e malditos na França do fim do século XIX.

Os contos de Poe transitam numa linha sempre tênue entre a morte e o sobrenatural. “(...) a decadência familiar, a inadequação social, a criação artística e, principalmente, a loucura.” (CARLOS, Cássio Starling, 2013, p. 21). A própria mansão de Usher é melancólica, em termos alegóricos; o narrador-personagem é anônimo, em primeira pessoa, este é amigo de infância de Roderick Usher, que está com um distúrbio mental, e, o narrador se assusta ao ver pela primeira vez depois de anos sem rever o amigo, outrora vivaz, agora transformado em uma figura cadavérica, que não lembra em nada o seu amigo de infância.   

Usher é recluso, antissocial, apresentando sintomas de uma misteriosa doença; sua irmã Madeleine doente também e ainda mais fragilizada que o irmão. Roderick Usher tem dons artísticos para a pintura, poesia e música. Usher, em um momento da trama canta uma canção para o narrador (uma narrativa dentro da narrativa, cuja letra daquela canção resume o ambiente da história do conto). A canção e sua letra falam de seres malignos, de um belo palácio e da decadência moral da linhagem de uma família. Esta letra, na verdade, é um poema também de Poe denominado “O palácio assombrado”, publicado cinco meses antes da aparição do conto.

A casa de Usher está em ruínas, o que é observado pelo narrador antes de adentrar a mansão, na forma de uma enorme fissura que se alastra pelas paredes da mansão. Tal fato é uma alegoria da melancolia que o narrador sentirá ao voltar a conviver com Roderick, além da ambientação dentro da casa ser marcada pela morte e decadência familiar de uma linhagem secular: para o crítico J. Gerald Kennedy, o conto é uma alegoria da loucura e a própria casa dos Usher é simbolicamente a imagem da perda da razão.

A casa engloba o narrador, e, os Usher, Roderick e sua irmã, Madeleine. Esta seria a “inconsciência” e o irmão seria por sua vez “a consciência”, constituindo assim a já citada dualidade dinâmica da vida, no caso da mente humana, esta seria alegoricamente representada pela própria casa, que por sua vez englobaria os dois irmãos. Já que Roderick teria a “consciência” da decadência moral de sua família amaldiçoada durante séculos de amoralismo de seus antepassados, Usher passa a enlouquecer paulatinamente, mas com a consciência (ambíguo, mas assim é que se caracteriza o conto de Poe), que a mansão deve ser destruída e a linhagem Usher se encerrar nele e em Madeleine, pois sua família é maldita e não merece mais produzir descendentes, por toda decadência moral daquela já abordada. Para isso cria-se o suspense: Madeleine morreu realmente por causa de sua doença? Ou foi morta pelo próprio irmão? Ou ainda ela sofreria de catalepsia e o irmão se aproveitando disso enterrou-a viva propositalmente?

  Dessa forma, seria o começo do fim da família Usher de maneira definitiva, faltando Roderick morrer das causas naturais de sua debilidade física e mental. Pondo fim a linhagem Usher amaldiçoada, a casa seria também destruída pela fissura, transformada em ruínas que seriam engolidas pelo lago que existe ao lado da mansão.

Edgar Allan Poe é considerado pelos mais célebres críticos literários, como por exemplo, Walter Benjamin, o começo da modernidade. Baudelaire, poeta francês, cuja obra, As flores do mal, é o marco inicial do Simbolismo, foi o primeiro a divulgar internacionalmente o nome de Poe.



·        O FILME:

O cineasta Roger Corman para enfatizar o ambiente melancólico, decadente, em ruínas, sempre os lugares da casa envolto em sombras e do lado de fora envolvida a mansão em brumas, também ressaltou tal ambientação lúgubre no figurino de Roderick (Vincent Price), que é marcado pelo rubro (“Rubro”, também é nome de um poema decadente do poeta maldito brasileiro, Maranhão Sobrinho). Tudo no filme, portanto, “[se passa] pelo sangue, desde a maldição que condena há séculos a linhagem dos Usher até as marcas que Madeleine deixa em seu rastro na apoteose de horror do final.” (Ibdem, p. 35).

Corman utiliza para tanto uma fotografia em Technicolor e faz uso também do Cinemascope, projeção em que a proporção da imagem na tela fica mais de duas vezes de largura que de altura. Isso aumenta a claustrofobia dos quartos, dos corredores e das criptas por onde transitam as personagens do filme, na casa dos Usher.

Quando lançado no Brasil, à época foi chamado de “O Solar Maldito”, e, também era assim conhecido pelos brasileiros quando começou a ser exibido na TV. Corman a partir desse filme iniciou uma fase experimental, o cineasta realizou um tipo de cinema que:


transitou dos filmes B e ganhou visibilidade com produções que chamaram a atenção do público e se tornaram referência para a geração de jovens que queriam fazer filmes criativos sem contar com os gastos monumentais da indústria hollywoodiana. (Ibdem, , p. 36).


Seus primeiros filmes que datam de 1955 contavam com orçamentos de US$ 50 mil (em valores da época). Já para os primeiros títulos da série de adaptações de Poe, ele chega a contar com quatro a cinco vezes mais. A queda da casa de Usher rendeu nas bilheterias estimados US$ 2 milhões, em valores da época, provocando a continuidade da sequência idealizada por Corman num ciclo de oito títulos baseados nas situações lúgubres imaginadas pelo escritor americano. Eis eles:

Até meados dos anos 1960, Roger Corman realiza versões cultuadíssimas de ‘O Poço e o Pêndulo” (no Brasil, ‘A Mansão do Terror’, de 1961), ‘Enterrado Vivo’ (no Brasil, ‘Obsessão Macabra’, 1962), reúne ‘Morella’, ‘O Gato Preto’ e ‘O Caso de M. Valdemar’ no filme em episódios ‘Muralhas do Pavor’, de 1962, ‘O Corvo’ (1963), ‘O Castelo Assombrado’ (1963), ‘A Máscara da Morte Rubra’ (que aqui se chamou ‘A Orgia da Morte’, de 1964) e ‘Ligeia’ (exibido na país como ‘O Túmulo Sinistro’, [também de 1964]). Quase todos terão a presença ameaçadora de Vincent Price à frente do elenco. (Ibdem, p. 39).


Corman modifica significamente a trama do conto de Edgar A. Poe, como a reformulação dos significados das personagens e dos seus lugares no enredo. No roteiro concebido por Richard Matheson (1926-2013), que oferece ao diretor as possibilidades para o que este mais sabe: “criar efeitos por meio de atmosferas que equivalem, em termos visuais, às preferências de Poe por descrições mórbidas.” (Ibdem, p. 39).

  O filme de Corman foi

realizado rapidamente, o filme transcreve com um simbolismo um pouco inocente mas fascinante o admirável conto de Poe, do qual Corman tentou recuperar o angustiante clima de inquietude moral. Se a história roda no vazio durante as cenas psicológicas, existem incríveis momentos, como a sequência onírica, que é antológica. (BOISSET, Yann, Apud, CARLOS, Cássio Starling et cetera, 2013, p. 37).

 A película pode perder o simbolismo psicológico do conto de Poe, mas ganha em termos de claustrofobia e no aumento do quesito “lúgubre” em relação à ambientação da casa dos Usher. O Roderick do filme de Roger Corman tem:

o poder de sugestão de Vincent Price [que] funciona maravilhosamente bem, e trememos com Philip diante da fascinação de Roderick por seus odiosos ancestrais, e diante da nossa própria fascinação por essa linhagem impiedosa, somos seduzidos por essa atmosfera de corrupção secular, a saga finita dessa decadência familiar, a força de um mito que não podemos entender. É preciso aceitar a grandiloquência do assunto e o lado teatral desse encontro entre quatro paredes. Mas para aqueles que jogam o jogo e abandonam, ao sair da casa de Usher, todo preconceito e cinismo, somente podemos prever deliciosos arrepios. (GONORD, Olivier, Apud, CARLOS, Cássio Starling et cetera, 2013, p. 38).


A constante presença de brumas e a utilização de transparências para simulacro dos cenários permitem ao cineasta manter-se fiel ao seu estilo e modelo de cinema, conhecido pela criatividade com o uso de mínimos recursos financeiros. Se há um cineasta que pode ser facilmente associado ao nome de Poe nas adaptações para as telonas é o de Roger Corman. Isso ocorreu num tempo em que o cinema fantástico conhece um ótimo momento, de 1958 a 1968, esse período é considerado pelos críticos de cinema um momento importante. Corman pode e é considerado por muitos o mestre do horror em muito devido às adaptações dos textos de Poe. O cineasta não hesita a empregar uma equipe de estrelas caídas no esquecimentlo, os velhos monstros do cinema como Boris Karloff, Lon Chaney Jr. e até Peter Lorre, todos em torno da presença imutável “de Vincent Price, que encarna os múltiplos avatares dos heróis fantásticos de Poe.” (JARDEZ, Dominique, Apud, CARLOS, Cássio Starling, 2013, p. 41).

  O filme é um verdadeiro pesadelo simbolista e onírico expressionista, já que na adaptação de Corman se está longe dos delírios surrealistas da versão silenciosa do cineasta francês Jean Epstein realizada em 1928. Porém, os dois diretores dividem uma proximidade ao Expressionismo Alemão, isso é perceptível, inclusive, em todos os filmes de Roger Corman adaptados de Poe.

·         O DIRETOR ROGER CORMAN:

O cineasta estadunidense é conhecido como o grande mestre do cinema independente e profundo admirador do escritor também americano Edgar Allan Poe, o diretor e produtor Corman tornou-se cultuado por realizar e produzir filmes de estética barata, filmes B, rodados rapidamente e que flertavam com os gêneros mais populares da Sétima Arte (terror, ação, fantástico e os “filmes de motocicletas”). O fantástico, mesclado ao onírico e aos efeitos de terror e suspense deu a seus filmes a tradução mais fiel possível do universo de Poe nas telas de cinema.

Durante os anos 1950-1960, Roger Corman foi o rei dos “drive-in” americanos, produzindo e dirigindo películas que formaram o imaginário de violência e sexo desses espaços públicos de exibição de filmes. Ele deu também possibilidades a nomes como Francis Ford Copolla (1939), Peter Bogdanovich (1939) e Monte Hellman (1932) para fazerem cinema. E é admirado por cineastas que surgiram para o grande público a partir dos anos 1990, como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Além de ser cultuado pelo mestre do horror brasileiro, José Mojica Marins, e, pelo inventor do subgênero “terrir”, também brasileiro, Ivan Cardoso.

Sua carreira de diretor deteve-se em 1990, mas Corman continua produzindo filmes até hoje de cineastas pouco conhecidos, sendo que a maioria desses filmes são, logicamente, de terror e aventuras B.

·         POE NO CINEMA:

Poe está nos cinemas do mundo desde os primórdios da Sétima Arte, em especial do cinema americano. Com 276 registros de produções audiovisuais de suas histórias, segundo o site IMDb (Internet Movie Database), Edgar Allan Poe só perde para o escritor inglês William Shakespeare. Poe também é conhecido como o criador dos contos, das novelas e dos romances policiais, portanto, pode ser interpretado como a fonte original de um gênero cinematográfico que é utilizado até hoje e os cineastas não se cansam de reproduzir.

As primeiras adaptações da obra de Poe começaram:

de fato, (...) no momento de fundação do cinema americano. Em 1909, o diretor David Wark Griffith (1875-1948), considerado o pioneiro da linguagem cinematográfica clássica, fez o curta ‘Edgar Allan Poe’, no qual se misturam temas da obra como uma livre recriação de sua biografia. Também em 1909, o mesmo diretor transformou a trama do conto ‘O Barril de ‘Amontillado’ (1846) no curta ‘The Sealed Room’ (O Quarto Cerrado). Em 1914, Griffith retoma três textos de Poe (os contos ‘O Poço e o Pêndulo’ e ‘O Coração de Delator’, mais o poema ‘Annabel Lee’) no filme ‘Consciência Vingadora’. (CARLOS, Cássio Starling, 2013, p. 51-52).



Porém, a influência do escritor estadunidense, não se restringe às origens do cinema americano. Veja-se:

em 1913, o conto  ‘William Wilson’ serviu de base para o filme alemão ‘O Estudante de Praga’, título precursor do movimento expressionista, que na década seguinte endemoninhou as telas com histórias de monstros, fantasmas e possessões malignas.
No início dos anos 1930, o estúdio Universal tira proveito do prazer do medo, retoma Poe para produzir novas versões de ‘Os assassinatos da Rua Morgue’ (1932), ‘O Gato Preto’ (1934) e ‘O Corvo’ (1935). (Ibdem, p. 52).


O sucesso do ciclo de adaptações de Edgar Allan Poe feito por Roger Corman no início dos anos 1960, levou os europeus a produzirem na forma de filme de episódios, então bastante recorrente, o filme ‘Histórias Extraordinárias’, em que os diretores Louis Malle (1932-1995), Roger Vadim (1928-2000) e Federico Fellini (1920-1993) realizaram, com resultados desiguais, três contos do escritor: ‘Nunca aposte sua cabeça com o diabo’, transformado por Fellini no segmento ‘Toby Dammitt’, “é uma pequena obra-prima, um filme saturado em que a estética delirante do cineasta italiano encontra no material de Poe um veículo para extravasar seu medo da morte.” (Ibdem, p. 53).




·         CONCLUSÃO:

As alterações realizadas pelo diretor Roger Corman, junto às modificações que seu roteirista realizou para a adaptação cinematográfica do conto de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, mudando alguns aspectos do conto, foram necessárias, em termos dramáticos e de suspense, para prender a atenção do espectador de filmes de terror, mas o conto de Poe como literatura também se sustenta, pois, a película tem todos os ingredientes típicos da obra de Poe: sobrenatural, maldição, sugestão, mistério, dualidade entre céu e inferno, vida e morte, terreno/mundano e divino, etc., tudo que o poeta europeu Charles Baudelaire reverenciaria anos depois na França e que influenciaria no surgimento do Simbolismo Literário naquele país, com os chamados poetas malditos / decadentes: Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, etc.

No filme de Corman, o cineasta retira a narração em primeira pessoa e torná-la ciente para todos os espectadores, pela visão da personagem Philip, mas alguns acontecimentos da película são obra do roteiro fílmico e alterações livres do conto original, para, como já dito, dar dinamicidade ao longa-metragem.

·         REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

FILME-DVD-FASÍCULO:

CARLOS, Cássio Starling, GUIMARÃES, Pedro Maciel, ANTÔNIO, Daniel. A queda da casa de Usher: um filme baseado na obra de Edgar Allan Poe. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2013. (Coleção Folha Grandes Livros no Cinema; v. 13).

LIVRO:


POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

GUARDIÕES DA GALÁXIA: (O FILME-SURPRESA DO ANO DE 2014, EM TERMOS DE FILMES DE SUPER-HEROIS.):

GUARDIÕES DA GALÁXIA:

(O FILME-SURPRESA DO ANO DE 2014, EM TERMOS DE FILMES DE SUPER-HEROIS.):

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO).


“A aposta para o blog do Kaio no cinema era: “Para fugir um pouco dos Vingadores e suas franquias paralelas, resolveram investir pesado em uma aventura dos ‘patinhos feios’ do universo das HQs. Os ‘heróis’ da vez são uma equipe de ex-condenados formada por um aspirante à Han Solo, uma assassina verde, um fortão sem camisa, um guaxinim atirador e uma árvore humanóide. Talvez a palavra ‘desajustados’ caia bem aqui. O vilão é o excêntrico Colecionador, vivido por Benicio Del Toro. Apostando no humor do elenco principal e em efeitos digitais de última geração, a ideia é iniciar uma nova franquia com os patrulheiros que tentam impedir crises galácticas antes que elas aconteçam - e, futuramente, ligá-los aos vingadores. E aí, será que o público aprova?!?”. Gostou.

Pois, considero o melhor filme da Marvel em 2014, sucesso de público e de crítica, uma surpresa mais que agradável. Ação mais humor de ótima qualidade. Concorre a dois Oscars técnicos em 2015, melhor maquiagem e penteado, difícil de ganhar, mesmo eu não tendo assistido a Foxcatcher, mas assisti ao filme de Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste, que nesse aspecto técnico é muito superior conceitualmente. Quanto ao de melhores efeitos visuais corre muito por fora contra o impecável Interestelar. Além de ter outros indicados também da Marvel Studios: X-Men: Dias de um futuro esquecido e Capitão América 2 - O Soldado Invernal, mas que são inferiores nesse quesito técnico e, por fim o outro indicado é Planeta dos Macacos: O Confronto, que não vi.

 Bradley Cooper concorre ao seu terceiro Oscar de atuação seguido por Sniper americano, de Clint Eastwood, que estreia hoje no Brasil, quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015. Mas, já adianto, mesmo sem ver sua atuação em Sniper Americano: se fosse para ser indicado tinha que ser indicado pelo Rocky do filme da Marvel Studios. Até para o quinto candidato de 2015 fosse mais justo ainda o Jake Gyllenhall, de O Abutre, o grande injustiçado, pelo que vi até agora do ano. E sairia o Steve Carell por Foxcatcher - Uma História Que Chocou o Mundo, mesmo não tendo visto o filme, mas Carell nunca me convenceu. Tomara que quando eu veja estes filmes que citei que não vi, eu venha aqui no blog e reconheça o meu erro e confirme ou discorde dos resultados do Oscar 2015, sendo que sua cerimônia se realizará no próximo domingo. Como não vi muitos filmes do Oscar desse ano, ficarão suas críticas para depois do Oscar, que os verei com calma e, aí, pelo menos poderei falar em concordâncias ou discordâncias de vencedores, pois de justiça e injustiça, não acredito muito nesse tipo de premiação, pois aqui o marketing e o dinheiro valem mais.

A Trilha sonora também é algo de se notar. E vale ressaltar desde que a Marvel começou a fazer filmes para o cinema de seu universo dos quadrinhos, Guardiões da Galáxia é para mim o seu melhor trabalho em todos os tempos.

A proposta de Guardiões da Galáxia, em termos de sinopse, é a ligação entre a Terra e o espaço que acontece com a personagem Peter Quill (interpretada por Chris Pratt), que, ainda quando criança é abduzida para o espaço após a morte da mãe. Já crescido, Peter torna-se um caçador de recompensas e está atrás de um artefato valiosíssimo. Contudo, ele não é o único, o líder kree Ronan (Lee Pace), está no encalço do objeto para entregá-lo a Thanos (Josh Brolin). Thanos manda sua filha Gamora (Zoe Saldana) atrás do rapaz, pelo qual também está sendo oferecida uma quantia considerável pela captura. É atrás desse dinheiro que o guaxinim Rocket e seu inseparável companheiro vegetal Groot (vozes de Bradley Cooper e Vin Diesel, respectivamente) entram na história. Após uma enorme confusão galáctica, todos vão parar na prisão e lá conhecem Drax, o Destruidor (Dave Bautista). Os cinco começam, aos atropelos, mas acertando sem querer, a formar um grupo para descobrir que mistério cerca o tal objeto de valor.

Guardiões da Galáxia ainda traz em seu elenco nomes de peso como Glenn Close, Djimon Hounson, Benício Del Toro e John C. Reilly em pequenas, mas notáveis aparições. Guardiões da Galáxia é o último filme do estúdio antes da conclusão da chamada “Fase 2” da Marvel nos cinemas, que se encerra neste ano de 2015 com a estreia de Os Vingadores: A Era de Ultron. Um filme de entretenimento e de qualidade que traz novos personagens para o imaginário do espectador. O filme foi tão bem aceito que já tem continuação prevista para estrear em 2017.

Segundo o crítico Chico Fireman, do blog “filmes do chico”: http://filmesdochico.uol.com.br/, link: http://filmesdochico.uol.com.br/guardioes-da-galaxia/ . Último acesso: 20 de fevereiro de 2015, às 9h21. O resenhista escreve: “A surpresa de toda a crítica tem sido em como Guardiões da Galáxia funciona exemplarmente nas telas, misturando ação e humor numa dosagem certa, e ainda servindo de ponte para a próxima aventura da editora/estúdio, mas o improvável longa dirigido por James Gunn, um cineasta surgido nos porões do cinema trash, é mais do que um produto eficiente, é um dos melhores filmes adaptados dos quadrinhos da Marvel. Um dos principais motivos para isto é justamente o que provavelmente deixará este longa fora das listas de melhores filmes baseados em quadrinhos nos próximos anos: a invisibilidade de seus personagens. Com protagonistas praticamente desconhecidos, com um grupo sem tradição, Gunn foi capaz de fazer um trabalho despretensioso, em que pode tomar liberdades sem se preocupar com fãs xiitas ou grandes obrigações mercadológicas.”



PREMIAÇÕES: ANEXO:

·         SINDICATO DOS ROTEIRISTAS DOS EUA – 2015 – INDICADOS:

Entre os adaptados, a surpresa foi "Guardiões da Galáxia" entrou na lista, derrubando "Vício Inerente", "Invencível" e "Para Sempre Alice".

-  ADAPTED SCREENPLAY:

American Sniper, (Sniper Americano): Written by Jason Hall; Based on the book by Chris Kyle with Scott McEwen and Jim DeFelice; Warner Bros;
Gone Girl, (Garota Exemplar): Screenplay by Gillian Flynn; Based on her novel; 20th Century Fox;
Guardians of the Galaxy, (Guardiões da Galáxia): Written by James Gunn and Nicole Perlman; Based on the Marvel comic by Dan Abnett and Andy Lanning; Walt Disney Studios Motion Pictures;
The Imitation Game, (O Jogo da Imitação): Written by Graham Moore; Based on the book Alan Turing: The Enigma by Andrew Hodges; The Weinstein Company;
Wild, (Livre): Screenplay by Nick Hornby; Based on the book by Cheryl Strayed; Fox Searchlight.



·         INDICADOS – BAFTA – 2015:


-          MAKE UP & HAIR (MAQUIAGEM E PENTEADO):

THE GRAND BUDAPEST HOTEL, Frances Hannon (O GRANDE HOTEL BUDAPESTE);
GUARDIANS OF THE GALAXY, Elizabeth Yianni-Georgiou, David White (GUARDIÕES DA GALÁXIA);
INTO THE WOODS, Peter Swords King, J. Roy Helland (CAMINHOS PARA A FLORESTA);
MR. TURNER, Christine Blundell, Lesa Warrener (IDEM.);
THE THEORY OF EVERYTHING, Jan Sewell (A TEORIA DE TUDO).


-          SPECIAL VISUAL EFFECTS (EFEITOS VISUAIS):

DAWN OF THE PLANET OF THE APES, Joe Letteri, Dan Lemmon, Erik Winquist, Daniel Barrett (PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO);
GUARDIANS OF THE GALAXY, Stephane Ceretti, Paul Corbould, Jonathan Fawkner, Nicolas Aithadi (GUARDIÕES DA GALÁXIA);
THE HOBBIT: THE BATTLE OF THE FIVE ARMIES, Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton, R. Christopher White (O HOBBIT: A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS);
INTERSTELLAR, Paul Franklin, Scott Fisher, Andrew Lockley (INTERESTELAR);
X-MEN: DAYS OF FUTURE PAST, Richard Stammers, Anders Langlands, Tim Crosbie, Cameron Waldbauer (X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO).



·         INDICADOS – CRITICS CHOICE MOVIE AWARDS – 2015:

-          Best Hair & Makeup (MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO):

"Foxcatcher"
"Guardians of the Galaxy" (VENCEDOR) (ALÉM DO PRÊMIO DE MELHOR FILME DE AÇÃO);
"The Hobbit: The Battle of the Five Armies"
"Into the Woods"
"Maleficent" (MALÉVOLA);


-          Best Visual Effects (MELHORES EFEITOS VISUAIS):

"Dawn of the Planet of the Apes"
"Edge of Tomorrow"
"Guardians of the Galaxy"
"The Hobbit: The Battle of the Five Armies"
"Interstellar"


·         INDICADOS – OSCAR – 2015:

- Melhor maquiagem e penteado:
Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo;
O Grande Hotel Budapeste;
Guardiões da Galáxia.

- Melhores efeitos visuais:

Capitão América 2 - O Soldado Invernal;
Planeta dos Macacos: O Confronto;
Guardiões da Galáxia;
Interestelar;
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido;

·         INDICADOS – SINDICATO DOS DIRETORES DE ARTE DOS EUA – 2015:

-          Fantasy Film:

"Captain America: The Winter Soldier" (Peter Wenham);
"Dawn of the Planet of the Apes" (James Chinlund);
"Guardians of the Galaxy" (Charles Wood);
"Interstellar" (Nathan Crowley);
"Into the Woods" (Dennis Gassner).

·         INDICADOS – SINDICATO DOS EDITORES DOS EUA – 2015:

-          BEST EDITED FEATURE FILM (COMEDY OR MUSICAL):
Birdman:
Douglas Crise & Stephen Mirrione, ACE;

Guardians of the Galaxy:
Fred Raskin, Hughes Winborne, ACE & Craig Wood, ACE;

Into the Woods:
Wyatt Smith;

Inherent Vice (VÍCIO INERENTE):
Leslie Jones, ACE;

Grand Budapest Hotel:
Barney Pilling.


·         INDICADOS – SINDICATO DOS FIGURINISTAS DOS EUA – 2015:

- Excellence in Fantasy Film:

"Guardians of the Galaxy" (Alexandra Byrne);

"The Hobbit: The Battle of the Five Armies" (Bob Buck, Lesley Burkes-Harding, Ann Maskrey);

"The Hunger Games: Mockingjay - Part 1" (Kurt and Bart), (JOGOS VORAZES: EM CHAMAS – PARTE 1);

"Into the Woods" (Colleen Atwood);

"Maleficent" (Anna B. Sheppard, Jane Clive).

·         INDICADOS – SINDICATO DOS MAQUIADORES E PENTEADORES DOS EUA – 2015:

-          Best Contemporary Makeup:
"Captain America: The Winter Soldier"
Make-Up Artists: Allan Apone, Nicole Sortillon and Lisa Rocco (Petition)
"Gone Girl"
Make-Up Artists: Kate Biscoe and Gigi Williams
"Guardians of the Galaxy"
Make-Up Artist: Elizabeth Yianni-Georgiou
"Interstellar"
Make-Up Artists: Luisa Abel and Jay Wejebe
"Nightcrawler"  (O ABUTRE)
Make-Up Artists: Donald Mowat and Malanie Romero


-          Best Special Effects Makeup:
"Foxcatcher"
Make-Up Artists: Bill Corso and Dennis Liddiard
"Guardians of the Galaxy"
Make-Up Artist: David White
"Into the Woods" (Meryl Streep Witch Prosthetics)
Make-Up Artists: J. Roy Helland (Personal) and Matthew Smith (Prosthetics)
"Maleficent"
Make-Up Artists: Rick Baker, Toni G. and Arjen Tuiten (Petition)
"The Hobbit: The Battle of the Five Armies"
Make-Up Artist: Gino Acevedos

-          Best Contemporary Hairstyling:
"Birdman"
Hair Stylists: Jerry Popolis and Kat Drazen
"Guardians of the Galaxy"
Hair Stylist: Elizabeth Yianni-Georgiou
"Interstellar"
Hair Stylists: Patricia Dehaney and Jose L. Zamora
"St. Vincent"
Hair Stylist: Suzy Mazzarese-Allison
"Winter's Tale"

Hair Stylists: Alan D'Angerio and Jasen Sica

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

INTERESTELAR, GAROTA EXEMPLAR E O ABUTRE: (TRÊS FILMES ESTADUNIDENSES TÃO DÍSPARES ENTRE SI, MAS QUE SÃO OBRAS COM ASPECTOS POSITIVOS MAIS DO QUE ASPECTOS NEGATIVOS – PARTE III):

INTERESTELAR, GAROTA EXEMPLAR E O ABUTRE:

(TRÊS FILMES ESTADUNIDENSES TÃO DÍSPARES ENTRE SI, MAS QUE SÃO OBRAS COM ASPECTOS POSITIVOS MAIS DO QUE ASPECTOS NEGATIVOS – PARTE III):

(CRÍTICAS POR RAFAEL VESPASIANO).

3.      INTERESTELAR (EUA/CHRISTOPHER NOLAN/2014):


“As Horas cismam no ar parado:
  — Passado.
As Horas bailam no ar fremente:
            — Presente.
As Horas sonham no ar obscuro:
            — Futuro.”.
(“As Horas”, Da Costa e Silva).

-------------------------------------------------------

Dedicado à Nat.
--------------------------------------------------------------


A terceira parte desta série de críticas dos filmes indicados ao Oscar 2015 trata da ficção-científica, Interestelar, que é tão boa quanto ao filme “Gravidade”, de 2013, dirigido por Alfonso Cuarón. O filme do diretor mexicano concorreu ao Oscar 2014 de melhor filme. Percebe-se certa saturação por parte da Academia em relação aos filmes de “viagens espaciais” -, no ano passado, “Gravidade”, foi indicado, mas não ganhou; em 2015, Interestelar, concorre mais aos prêmios técnicos -, seu maior trunfo, e, não concorre ao prêmio máximo. Talvez uma injustiça da Academia.

O roteiro de Interestelar, escrito por Nolan e seu irmão Jonathan, é criativo, espetaculoso (reforçado pelos efeitos visuais), engenhoso -, o filme não é cansativo, apesar de ter 2h 49min de duração. O enredo pode confundir o espectador, não ao ponto deste não entendê-lo, porém ao ponto de fazê-lo ficar procurando destrinchar todos os meandros da teoria científico-espacial no enredo apresentada durante a projeção e não chegar ao fio da meada. Mas só durante certo tempo de reflexão, pós-sessão (e gera um bom debate), e, isso não demérito à película. Contudo, entendida a teoria que permeia o roteiro ficam as perguntas: aquela é crível? é verossímil? os cientistas, realmente, trabalham com ela? Questões como adentrar em um “buraco negro”; quarta dimensão; desafio do tempo e do espaço; teorias gravitacionais, etc. São questões que não domino, portanto não vou além, mas o roteiro é uma viagem, nesse sentido, e, pode ser visto, por alguns, como mero espetáculo.

Porém, vale lembrar, que hoje a ciência é vista, por exemplo, segundo o hermeneuta Gaston Bachelard, a partir do surgimento da Física Quântica, como uma área do saber (qualquer ciência) e suas inter-relações com quaisquer áreas científicas como algo que é marcado por uma dualidade dinâmica em eterno devir, no qual o racional e o irracional são contrários que se complementam e não existe um sem o outro. Mas não são, pois sintéticos como Hegel imaginou em sua dialética, mas parabáticos, irônicos e reflexivos como pensou o filósofo-poeta do Romantismo alemão, F. Schlegel. Bachelard vai à linha deste e Nolan dos dois, pelo jeito.

A história se passa num futuro não muito distante, em que os exércitos e guerras não existem mais e a grande preocupação da humanidade é produzir comida suficiente para alimentar os sobreviventes. O ensino superior é uma realidade cada vez mais restrita, e fazendeiros é a mão de obra mais valiosa – afinal, são eles que seguem plantando e gerando o alimento cada vez mais valioso. Essa é a atividade profissional de Cooper (Matthew McConaughey, apenas uma atuação formal), um ex-piloto que abraçou a vida no campo após ter ficado viúvo, preocupado com o futuro dos dois filhos.

Christopher Nolan declarou em mais de uma ocasião que sempre sonhou fazer um filme no espaço. Após reverter a ordem das narrativas cronológicas e convencionais em “Amnésia”, 2000, revelar os segredos dos mágicos/ilusionistas em “O Grande Truque”, 2006, invadir o mundo onírico humano em “A Origem”, 2010, e, apresentar o herói pós-moderno da trilogia “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, ele finalmente conseguiu realizar este antigo desejo, em Interestelar.

Nolan conseguiu desenvolver uma trama a respeito da busca de um sentido para a nossa presença no universo, ao mesmo tempo em que realizou um trabalho tipicamente seu, com todo o esmero técnico já esperado, mas também dotado de uma profundidade filosófica (e esta é o maior mérito do filme – o sentido da vida humana no planeta Terra).  Ainda que a inspiração óbvia seja “2001: Uma Odisseia no Espaço”, 1968, de Stanley Kubrick, o hermetismo deste passa longe, uma vez que essa nova jornada é menos truncada e mais acessível.

Com a quantidade de pragas agrícolas se espalhando cada vez com mais força, primeiro foi o trigo, agora é o quiabo, logo será o milho, e, a poeira que resulta de incêndios e da aridez pela escassez de água tomando conta de todo o mundo, são poucos os que seguem acreditando num mundo melhor. Cooper acredita e tem fé. Até -, que de uma maneira que não vou revelar para não estragar a surpresa -, é convocado pelo que restou da NASA, para uma missão ao espaço em busca de planetas habitáveis para serem povoados pelo que resta da humanidade.

Apesar de tanta reflexão científica, a maior reflexão é a filosófica que Nolan busca: o Amor, os elos afetivos, carinho, solidariedade, relações interpessoais e sociais. Não basta queremos ir à lua, a Marte, às mais variadas galáxias, se o problema está aqui mesmo na Terra: somos nós; os homens inimigos do próprio homem, para repetir parafraseando, imaginem!, um título do CD da banda punk paulista, Ratos de Porão, de 2006. Outro que já falava sobre isso era o eterno guru, Raul Seixas: pra quê ir à lua, se não há galinha em meu quintal, parafraseio aqui também sua canção. O sociólogo mais atuante no século XXI, nesses estudos mostra que nossa modernidade é líquida e fluida. Nossos sentimentos, como amor, amizade, elos pessoais são frágeis, líquidos e fluidos, efêmeros e transitórios. Como, em 2013, Spike Jonze mostrou no filme que dirigiu e roteirizou, “Ela”, que concorreu em algumas categorias ao Oscar 2014, incluindo na de melhor filme, mas perdeu para o apenas mediano “12 anos de escravidão”. (Conferir a crítica do filme “Ela”, neste blog, em post datado de 20 de novembro de 2014). Inclusive, o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema (o mesmo do filme de Jonze) faz um trabalho espetacular e grandioso em Interestelar.

Uma questão interessantíssima de se notar em Interestelar é a questão sonora primorosa, desde a grandiosa trilha sonora composta por Hans Zimmer, até o trabalho da equipe de som comandada por Richard King (que ganhou o Oscar por outro filme de Nolan, “A Origem”). O filme é recheado de silêncios e ruídos, que permitem a reflexão e a contemplação do espectador.

Amparado por um elenco de grandes talentos, mas que são sobrepujados pela epicidade e tecnicidade do filme – McConaughey está mais contido e no domínio pleno de suas capacidades (mas não é aquele de “O Lobo de Wall Street”, nem de “Killer Joe” e nem chega perto da sua atuação em “Clube de Compras Dallas”), mesmo assim chama todas as atenções para si, ele é o protagonista destemido e heroico, mas permitindo que Jessica Chastain, ainda que com tempo limitado em cena, consiga se destacar, dentro de um elenco que tem ainda nomes de grandes atores como Anne Hathaway, Michael Caine e John Lithgow. Destaco também a excelente atuação da atriz mirim Mackenzie Foy (Murphy Cooper).

“Qual nosso lugar, para onde vamos, de onde viemos?” (Perguntas do Crítico do site www.papodecinema.com.br, Robledo Milani, feitas em sua crítica para aquele site, datada de 04 de novembro de 2014. Link: http://www.papodecinema.com.br/filmes/interestelar, último acesso 11 de fevereiro de 2015, às 06h23. Completo:  Qual a finalidade de nossas existências?”
-----------------------------------------------
·       
             PREMIAÇÕES:

·         Top 11 filmes do American Film Institute:

"O Abutre"
"Boyhood"
"Caminhos da Floresta"
"Foxcatcher"
"Birdman"
"Invencível"
"O Jogo da Imitação"
"Interestelar"
"Selma"
"Sniper Americano"
"Whiplash"

·         INDICADOS – BAFTA (OSCAR BRITÂNICO) – 2015:

-          MELHOR TRILHA SONORA:  

INTERESTELAR, Hans Zimmer.

-          MELHOR FOTOGRAFIA:

INTERESTELAR, Hoyte van Hoytema.

-          MELHOR DIREÇÃO DE ARTE:

INTERESTELAR, Nathan Crowley, Gary Fettis.

-          MELHORES EFEITOS VISUAIS:

INTERESTELAR, Paul Franklin, Scott Fisher, Andrew Lockley.


·         INDICADOS – GLOBO DE OURO - 2015:

*MELHOR TRILHA SONORA:

-          Interestelar, por Hans Zimmer.


·         INDICADO – SINDICATO DOS DIRETORES DE ARTE DOS EUA – 2015:

* FILME DE FANTASIA:

-     INTERESTELAR, (Nathan Crowley).

·         INDICADO - SINDICATO DOS FIGURINISTAS DOS EUA – 2015:

* FILME CONTEMPORÂNEO:

      -     INTERESTELAR, (Mary Zophres).

·         INDICADOS – SINDICATO DOS MAQUIADORES E PENTEADORES DOS EUA – 2015:

*FILME CONTEMPORÂNEO:
               
-          Make-Up Artists: Luisa Abel and Jay Wejebe, INTERESTELAR.
-          Hair Stylists: Patricia Dehaney and Jose L. Zamora, INTERESTELAR.


·         INDICADOS – OSCAR – 2015:

-          MELHOR DIREÇÃO DE ARTE;
-          MELHOR EDIÇÃO DE SOM;
-          MELHOR MIXAGEM DE SOM;
-          MELHORES EFEITOS VISUAIS;
-          MELHOR TRILHA SONORA;

----------------------------------------------------------

“Pena a não indicação para melhor fotografia. Porém, Interestelar é favorito em melhor trilha sonora, edição de som e mixagem de som. E talvez ganhe o de efeitos visuais, mais à frente do que os outros indicados; diferente é na disputa por direção de arte, onde o páreo é muitíssimo duro.”

---------------------------
“Próxima crítica, ainda hoje: Guardiões da Galáxia.
         E depois uma série sobre: Ida, Leviatã e Relatos Selvagens.”
---------------------------------------------------------