quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ELA, DE SPIKE JONZE: “(UM FUTURO DISTÓPICO, MAS TÃO PRESENTE, REAL E/OU VIRTUAL?!...).”.

ELA, DE SPIKE JONZE:

“(UM FUTURO DISTÓPICO, MAS TÃO REAL OU VIRTUAL?!...).”

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO).

“ELA”, escrito e dirigido pelo original cineasta Spike Jonze, de filmes memoráveis em termos de inventividade no roteiro e na direção, como “Quero ser John Malkovich” e “Adaptação”, ambos roteirizados pelo genial Charlie Kaufman, que dirigiu e roteirizou seu primeiro longa-metragem, com sucesso, em “Sinédoque, Nova York”, com Philip Seymour Hoffman, aquele filme subestimado equivocadamente.

“Ela”, Jonze roteiriza e dirige um projeto ousado, que ganhou vários prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Roteiro Original (em 2013), merecidamente, por sinal. Vale a pena afirmar de antemão que tanto Kaufman quanto Spike Jonze são cineastas e roteiristas que sempre empregam em seus filmes: a metalinguagem. E, em “Ela”, Jonze não faz por menos, além de usar vários interdiscurso e intertextualidades. Enfim, referências e conteúdos que ficam latentes na mente do espectador por horas, após a sessão, pois “Ela” é um filme para pensar e refletir até teses de doutorado.

O filme protagonizado por Joaquin Phoenix, em mais uma brilhante atuação, basta citar entre outros estupendos trabalhos como ator, “Johnny e June”, “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson, no qual trava um duelo de interpretações com outro talentoso ator, Hoffman, falecido recentemente; e, agora, em um mais belo desempenho, vivendo um sujeito antissocial, solitário, vazio, sem sentido existencial (em crise).

Sua personagem vive numa Los Angeles futurista (mas não tão distante de nossas realidades do século XXI, 2014), um futuro distópico – lembro logo de distopias literárias, tais como: A revolução dos bichos e 1984, ambas de George Orwell, que tratam de desmandos ditatoriais políticos sobre as massas populares; Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, um futuro sem emoções, asséptico; e, por fim, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, no qual os livros são proibidos e queimados pelos bombeiros censores, mas cumpridores apenas de ordens superiores -, o primeiro, o segundo e o quarto romances viraram grandes adaptações cinematográficas, em especial 1984 e Fahrenheit 451, adaptado, este último para as telonas por Truffaut, com excelente atuação de Oskar Werner. Vale lembrar que A revolução dos bichos tem, inclusive, uma adaptação excelente como desenho animado, fiel ao espírito do livro de Orwell.

“Ela” é uma distopia cinematográfica, mas bem verossímil em relação à realidade em que vivemos atualmente, só que no filme Spike Jonze leva aos limites extremos, de cada um vivendo em seu mundinho fechado (diferente de hoje?); as realidades super-individualizadas e individualizantes (uma pessoa morando, em um apartamento, sozinha, cheia de equipamentos e tecnologias de redes sociais?!); cada um com seu iphone, com sua tecnologia virtual, aplicativos e mais aplicativos tecnológicos substitutos das interações sociais reais; tudo passa a ser virtual (vida real versus vida virtual, esta ganhando a luta), tudo artificial, com máquinas programadas para interagir com seres humanos como se fossem humanas de fato. A interação real e socializante fica relegada a segundo plano, se tanto.

Fones-de-ouvido que as pessoas usam nas ruas escutando suas músicas e sistemas operacionais, isoladas no meio da multidão; uma Professora que me deu aulas de Análise de Discurso, na Graduação de Letras, falou que ela imaginava nos anos 70 do século XX, junto com vários intelectuais da época que propagavam, que brevemente, começaríamos a falar sozinhos nas ruas, parece que se tornou real/virtual (telefones celulares e cabos de celular com fone ouvido e microfone, certo?).

O futuro distópico de “Ela” é gritante e é HOJE. Pós-Moderno e líquido e fluido como defende o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, em seu famoso livro, Modernidade Líquida, uma citação deste livro é bastante pertinente para esta crítica: “‘Não fale com estranhos’” – outrora uma advertência de pais zelosos a seus pobres filhos – tornou-se o preceito estratégico da normalidade adulta” (BAUMAN, 2001, p. 127), Pós-Moderna, ou modernidade líquida, segundo Bauman.

Inter-relações fluidas e líquidas, pois todos nós somos estranhos aos outros e a si mesmos. Outro filme interessante para ver e refletir sobre as relações pós-modernas é The Bling Ring, de Sofia Copolla, só que sob outro viés e, já abordado neste blog, em crítica publicada na data de 08/11/2014, ver também a crítica sobre a Tetralogia da Incomunicabilidade, conjunto de filmes realizados pelo cineasta italiano Antonioni, artigo também neste blog, postado no dia 21/10/2014.

Abordemos agora o “par romântico” da personagem de Joaquin Phoenix, o sistema operacional e virtual, Samantha (voz de Scarlett Johansson, excelente atuação pós-moderna, só pela voz, são os tempos do cinema do século XXI - basta lembrar Andy Serkis, na Trilogia de Peter Jackson, O Senhor dos Anéis, baseado nos livros de Tolkien -, à época foi ventilada uma indicação ao Oscar para Serkis pela captura de desempenho da personagem Gollum realizada por ele e milhares de efeitos especiais e computadores). 

A personagem solitária e divagadora vivida por Phoenix apaixona-se, tão e somente, pela voz de Samantha, uma máquina “inteligente” e “com sentimentos”, esquecendo-se de um possível affair com a “mulher real”, Cathy, interpretada pela atriz Amy Adams. Enfim, tempos de Amor Líquido, título de outro livro do sociólogo Zygmunt Bauman, lançado em primeira edição no ano de 2003.

Um livro que com o seu subtítulo diz tudo em relação ao hoje e/ou futuro distópico de “Ela”: “Sobre a fragilidade dos laços humanos”.  No prefácio, Bauman afirma:

Talvez a própria ideia de ‘relacionamento’ contribua para essa confusão [a questão de pôr fim a uma relação]. Apesar da firmeza que caracteriza as tentativas dos infelizes caçadores de relacionamentos e seus especialistas, essa noção resiste a ser plena e verdadeiramente purgada de suas conotações perturbadoras e preocupantes. Permanece cheia de ameaças vagas e premonições sombrias; fala ao mesmo tempo dos prazeres do convívio e dos horrores da clausura. Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como ‘relacionar-se’ e ‘relacionamentos’, as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos doutos especialistas) em conexões, ou ‘conectar-se’ e ‘ser conectado’. Em vez de parceiros, preferem falar em ‘redes’. Quais são os méritos da linguagem da ‘conectividade’ que estariam ausentes da linguagem dos ‘relacionamentos’? [grifos meus] (BAUMAN, 2004, p. 11-12).


As “premonições sombrias” tornaram-se realidade real e/ou virtual no futuro distópico de “Ela”, ou foi no nosso dia-a-dia?!...

Essas são os mal-estares da Pós-Modernidade, que Bauman analisa e reflete em O mal-estar da pós-modernidade (1998) e Modernidade e ambivalência (1999). “Ambivalência”, este vocábulo define bem o futuro distópico de Spike Jonze, pois: humanos e não humanos (máquinas); real e virtual; convívio e isolamento, etc., essa é a dialética, a dualidade dinâmica, mas “sombria” de um futuro-presente melancólico, solitário, evasivo, escapista, sem prospecção de um porvir esperançoso ou redentor, ou “meramente” de deviniência, apenas o filme de Jonze nos mostra (e alerta!) para o início do fim das relações sociais, amorosas e interpessoais “humanas”, strictu sensu, e, para o fim da Sociedade e da Humanidade. Pesadelo, o que era Sonho, mas não apenas virtual, mas possível e REAL.

Alguns artistas da música popular brasileira, em especial do pop/rock já veem nos alertando também para esse conjunto de questões analisadas por Spike Jonze em seu filme de 2013, “Ela”. Pois vejamos algumas letras de músicas como as da cantora Pitty: no CD, de 2003, Admirável chip novo, na música que dá título ao álbum, a compositora Pitty é taxativa (lembre-se que esse disco e essa música tem um interdiscurso com o livro Admirável mundo novo, de Huxley):

Admirável Chip Novo

“Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluido em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado...
Mas lá vem eles novamente, eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema
Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste, viva
Não sinhô, sim sinhô, não sinhô, sim sinhô...”

(lembra bastante a relação das personagens interpretadas por Phoenix e Scarlett (voz)).

Outro rocker baiano, Marcelo Nova, já alertava na música, Eu vi o futuro, do CD Quem é você?, ainda liderando o Camisa de Vênus, em 1996: “Me mostre o seu CD -Rom, a sua alma, o seu batom/E beijos que arrebentem as vidraças/Devolva a minha confiança, o meu escudo, a minha lança/E todas as promessas não cumpridas/E como está tudo acabado, deite aqui do meu lado/Eu vi o futuro, baby, ele é passado”.

Título, inclusive de um álbum-solo de Nova, lançado em 1998, Eu vi o futuro, baby, ele é passado. Veja-se também a letra da música Ninguém vai sair vivo daqui (outra alusão ao livro de Aldous Huxley, citação direta do autor na letra da canção), do álbum, de 2005, O galope do tempo:

“Já faz tanto tempo, eu tinha dezesseis
Ele caiu na minha mão eu li pela primeira vez
Um livro tão estranho me chamou atenção
Mr. Huxley me abriu as portas da percepção

Surgiram novos horizontes, tantas possibilidades
Encontrar o meu caminho, a busca da verdade
E talvez a mais simples que eu logo aprendi
É que ninguém vai sair vivo daqui

O tempo passou mais depressa que eu pensei
O que era uma exceção agora parece ser lei
Tem gente bebendo chuva, pessoas comendo lixo
Dormindo nas calçadas, crianças virando bicho

No rádio uma canção feita pra anestesiar
Enquanto a voz lá do Planalto parece comemorar
Então fica confirmado tudo aquilo que eu ouvi
Que ninguém vai sair vivo daqui

Alô vocês poetas, loucos e visionários
Astros da TV, políticos, milionários
Você que mente e rouba, você que dá no pé
Você é tão esperto, mas nunca sabe qual é

Tem gente que compra dor pra vender felicidade
Jesus disse que ela existe, mas só na eternidade
Restou apenas uma certeza em tudo que eu vi
É que ninguém vai sair vivo daqui
Ninguém vai sair vivo daqui”
 
(conferir também no mesmo álbum antológico e universal de Marceleza, a canção Poeira no chão, com interdiscurso em relação à poesia de Augusto dos Anjos.). Ver também o prefácio do encarte, no qual, o cantor e compositor, Marcelo Nova afirma: “Este é um disco que diz respeito ao tempo e a minha passagem através dele. Custou-me 13 anos desse tempo precioso para concluí-lo em meio a essa jornada mortal do útero ao caixão.”). Bauman em seus quatro livros citados afirma várias vezes que o homem já conquistou o espaço, não há mais fronteiras espaciais que impeçam, por exemplo, de alguém por Skype, se comunicar estando no Brasil, com alguém em Taiwan, e ainda se vendo mutuamente, na webcam, não é? Sem falar no dinheiro viajando pelo mundo a crédito virtualmente. Mas o tempo, esse é inoxidável, o homem ainda não conquistou e/ou dominou. Nasce-se é para morrer. O filme de Jonze mostra isso de maneira tangencial.

A banda de rock Autoramas, lançou, em 2007, o CD Teletransporte, com a música Mundo moderno, ou seria pós-moderno!..., distópico de Spike Jonze, “Ela”?, veja-se a letra da canção, para pensarmos na questão:

“Era pra eu estar deslumbrado
Com tantas opções que pintam na minha frente
Não consigo ficar acostumado
São tantas novidades que aparecem de repente
Chega de tanta liberdade
Tem gente que nasceu pra ser obediente
Mundo moderno
Me tirem desse inferno
São tantas coisas novas pra experimentar
Alguém me ponha no meu devido lugar
Mundo moderno


Convivo com o medo enorme
que alguma ideia diferente apareça
então eu preciso de ordens
Antes que algo de ruim me aconteça
Pra tantos lados pode ir minha ambição
Mas eu vou jogar pro alto o que eu tenho nas minhas mãos
Mundo moderno
Me tirem desse inferno
são tantas coisas novas pra experimentar
Alguém me ponha no meu devido lugar
Mundo moderno”

É o contexto melancólico do filme de Jonze.

A banda pernambucana de Manguebeat, Nação Zumbi. Em seu último e mais recente disco, excelente por sinal, lançado em 2014, com o título Nação Zumbi, propõe várias reflexões. Uma nos interessa, para refletir sobre “Ela”, em vários aspectos, em especial, sobre a ânsia de tanto querer o “amanhã”, mas quando conquista o que se almejava, a personagem fica frustrada, se trata da canção Novas auroras, segue a letra, de Jorge Du Peixe/Dengue/Pupillo/Lucio Maia:

“Feliz pelo o que ainda não veio
saudades do que nem foi
Esperando o melhor dos agoras
Nem termos o antes e já queremos o depois

E do lado de fora dos olhos
Os ponteiros disfarçam até o anoitecer
O tempo já sorrindo pro fim
Relógios não esperam por ninguém
Ontem você quis o amanhã
Hoje você quer o depois

Vou andando nas horas
Atravessando os agoras
Dançando as novas auroras

Vou andando nas horas
Atravessando os agoras
Dançando as novas auroras

Ainda nem chegou
e pensa que já foi
Ainda nem chegou
e pensa que já foi

Eis o feitiço do tempo
A corrida, faminta, incessante das horas
Lembrando quem adianta os instantes mutantes
A história e suas intenções
Sem ponteiro nem norte
ao redor dos eternos agora
Sempre correndo atrás do que nunca demora
Foi-se embora sem satisfação

Um roteiro certeiro
Panorama no espelho
Janela de onde tudo vejo
Já vi esse filme inteiro

Ainda nem chegou
e pensa que já foi
Ainda nem chegou
e pensa que já foi

Ontem você quis o amanhã
Hoje você quer o depois”


A eterna insatisfação, frustração do homem pós-moderno consumista, que também é reflexo das personagens do filme de Spike Jonze.


A banda gaúcha, Os Replicantes, que tenta se mantém no cenário punk do país, após a saída do líder Wander Wildner, que seguiu carreira solo e criou um estilo próprio, o punk-brega. A banda, então, passou por várias atribulações e passou pelo vocal, três cantoras, até chegar à atual, Julia Barth. A banda gravou o CD, Os replicantes 2010, lançado no ano de 2009, com uma música, denominada Second life, de autoria de Mauren Veras/Heron Heinz, que é o próprio filme “Ela”, em música punk-lenta-balada, eis a letra completa:

“Vou
assumir
segunda vida
Abrir puteiro no Second Life
Ganhar dinheiro com
cybercafetinagem
O grande avatar
da sacanagem

Vou assumir uma terceira
vida
Vou Montar uma banda no
Second Life
O estúdio é o meu
computador

Não vou nem precisar de
amplificador
A vida de verdade agora é
virtual
Minha inteligência agora é
artificial
Meu sentimento é superficial
Somos cyber punks num
mundo irreal

Vou assumir uma outra vida
Ganhar dinheiro em linden
dólar
Imposto de renda não existe
lá

Não vou pagar IPTU ou IPVA
Nós somos cyborgs
Nós somos cyborgs”


Não é a conexão e a “vida” das personagens vividas por Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson?!...


Lembrei-me, ainda da música pouco conhecida interpretada por Zé Ramalho e Pitty, no CD, Parceria dos Viajantes, de Zé Ramalho, lançado no ano de 2007, canção que se chama A nave interior, composição de Zé Ramalho/Chico César, que a partir da terceira estrofe diz:

“(...) A nave que é mãe, Que é filho e é pai
É tudo e é nada, O povo e ninguém
Não é de fora que a nave vem
É de dentro do peito que a nave sai
Não é de fora que a nave vem
É de dentro do peito que a nave sai
Respirar, navegar é coisíssima igual
O ar que ri é o fogo da nau
No vale profundo que geme em nós
Reside o casulo do cavalo alado
Na rainha-mãe ou no pobre coitado
Ali se espelha a centelha do gás
Se é moça ou rapaz, ancião ou criança
A chama não cansa de dançar a dança.”

É a contradição musical do mundo virtual, distópico, “second life” do filme “Ela”.

Para finalizar a apocalíptica música hardcore dos Ratos de Porão, Viciado digital, do seu mais recente e excelente álbum, um dos melhores em anos, só de inéditas, Século Sinistro, lançado neste ano de 2014, diga-se de passagem, são atualíssimas todas as 13 (treze) faixas do disco:
  

VICIADO DIGITAL
(LETRA: JOÃO GORDO/MÚSICA: JÃO, JOÃO GORDO & JUNINHO)

“A alienação em massa
não para
Estar online
sempre é demais
Agora você
está monitorado
Todos sabem
o que você faz...
Você postou,
 ninguém curtiu
Você curtiu,
ninguém comentou
Ficou puto quando viu
No youtube escancarou
Viciado digital
Conectado
em tempo integral
Intimidade escancarada
Numa rede social
Roupa suja mal  lavada
No facebook é de doer
Twittando suicídio
No instagram foto vai ter
Vejam só como sou íntegro
Vejam só como sou legal
Vejam só como sou lindo
Vejam só como sou do mal”


Esta pedrada resume tragicamente, apocalipticamente, tristemente, mas verdadeiramente nossa realidade do século XXI (“século sinistro”), entrando em conformidade com o mundo futurista e distópico, mas não tão distante de nossa realidade, mostrado no filme genial, “Ela”, que é uma verdadeira obra-prima do cinema do século atual, dirigido e roteirizado pelo inteligente e perspicaz Spike Jonze, que com sua sagacidade conseguiu captar tudo pelo qual estamos passado, real ou virtualmente, ou os dois ao mesmo tempo.”.

REFERÊNCIAS:

FILME-BASE:

ELA, SPIKE JONZE, 2013, EUA, SONY PICTURES.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
---------------------------. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

BIBLIOGRAFIA PASSIVA:

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
--------------------------. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

CDS:

AUTORAMAS, TELETRANSPORTE, 2007.
CAMISA DE VÊNUS, QUEM É VOCÊ?, 1996.
MARCELO NOVA, EU VI O FUTURO, BABY, ELE É PASSADO, 1998.
MARCELO NOVA, O GALOPE DO TEMPO, 2005, NOVA PRODUÇÕES ARTÍSTICAS.
NAÇÃO ZUMBI, NAÇÃO ZUMBI, 2014, SLAP.
PITTY, ADMIRÁVEL CHIP NOVO, 2003, DECKDISC.
RATOS DE PORÃO, SÉCULO SINISTRO, 2014, BRUAK! RECORDS.
OS REPLICANTES, 2010, 2009, MARQUISE RECORDS 51.

ZÉ RAMALHO, PARCERIA DOS VIAJANTES, 2007, SONY MUSIC.

O AMOR NÃO TEM BONS SENTIMENTOS - RAIMUNDO CARRERO: “(SANIDADE E LOUCURA: DIALÉTICA DINÂMICA DA EXISTÊNCIA HUMANA).”

O AMOR NÃO TEM BONS  SENTIMENTOS - RAIMUNDO CARRERO:

“(SANIDADE E LOUCURA: DIALÉTICA DINÂMICA DA EXISTÊNCIA HUMANA).”

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).


“Raimundo Carrero é um escritor que debate em seus livros o tema da loucura. No caso do romance, O Amor não em bons sentimentos é mais um exemplar dessa busca incessante de Carrero em compreender, racionalizar e des-(racionalizar) o tema da loucura.

O protagonista vai-e-vem no tempo para tentar justificar sua loucura e ao mesmo tempo elucidar quem matou sua irmã. Será que ele próprio é o assassino? Em meio a devaneios, flashbacks e rememorações vão, revelando ou não, a mente perturbada do narrador-protagonista, que não é nomeado (característica da narrativa Pós-Moderna).


Uma narrativa fragmentada (mais uma característica da Literatura Pós-Moderna), assim como a mente da personagem principal, revela-nos que a alma humana não tem tão bons sentimentos assim. O romance é genial, um novo sopro na Literatura Brasileira, que estava carente de livros reflexivos e geniais como este do romancista Raimundo Carrero.”

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A CASA DA PAIXÃO - NÉLIDA PIÑON: “(A VOZ FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA COMEÇA A SE FAZER PERCEBER: A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE POR UMA JOVEM REPRIMIDA).”.

A CASA DA PAIXÃO - NÉLIDA PIÑON:

“(A VOZ FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA COMEÇA A SE FAZER PERCEBER: A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE POR UMA JOVEM REPRIMIDA).”

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).

“Nélida Piñon, escritora brasileira contemporânea”. Escreveu a novela, A casa da paixão, publicada em 1972, uma obra que faz uma sondagem psicológica da personagem Marta, seus pensamentos, que resultam em determinadas ações.

O seu pai nutre um amor incestuoso por ela (que é órfã de mãe, desde criança), mas, que não chegam as vias de fato, não se concretiza. Por falta de uma presença feminina em sua vida, a única, é a da sua ama, Antônia, com quem Marta tem relações de lesbianismo, esta não tem orientação sexual, então, de certa forma, desenvolve um comportamento estranho: o de se masturbar ao ar livre, durante o dia, tendo o sol como se fosse um “pênis”, objeto fálico, mas ao mesmo tempo, como elemento da natureza, o sol também é o próprio Deus, com o poder de Criação e de Fecundação.

O pai desesperado devido a esse fato e também devido ao fato da filha “brincar” com os sentimentos incestuosos dele por ela, num verdadeiro jogo de gato-e-rato, resolve arranjar um noivo para ela, Jerônimo, os dois no começo se estranham, mas Marta acaba se entregando e perdendo a virgindade para Jerônimo, numa das passagens mais bonitas do livro, senão a mais bonita, uma cena de sexo, erótica, mas sem cair no pornográfico ou obsceno (o livro todo é marcado pelo erotismo, mas sem apelações).

O final fica em aberto, mas dá a entender, que Marta e Jerônimo se casam, com o consentimento do pai daquela e o casal constitui família.  Ou seja, num relacionamento que tinha tudo pra dar errado, Marta e Jerônimo acabam se apaixonando um pelo outro e se amando mutuamente.

O livro analisa a psiquê feminina, tentando desvendar os mistérios da alma feminina (da personagem Marta, no caso), dando voz às personagens femininas, já que no século XXI, é que estas começaram a se expressar, por meio de mulheres escritoras, já que até o começo do século XX, era o homem escritor (principalmente Machado de Assis), que tentava entendê-las. Já com Nélida Piñon temos uma escritora dando voz às mulheres, por meio de suas personagens, além de Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, que fizeram o mesmo, para ficar só com essas e só no âmbito da Literatura Brasileira.

Marta usa e manipula o pai e o Jerônimo, fazendo o que quer na casa onde moram. Marta, realmente, domina todo o livro. O livro é todo poético, lírico, metafórico e simbólico - por exemplo, “a casa da paixão” pode ser entendida como a “casa” onde se desenvolve a trama, como também pode ser interpretada como a “vagina” de Marta, em termos de poder de fecundação/criação.

Ou seja, o livro tem múltiplas leituras e interpretações. “A Casa da Paixão”, enfim, é uma curta novela sobre a alma feminina e os seus anseios, desejos, vontades e sentimentos mais profundos, e ainda tem um cunho religioso que é o seguinte: o poder da criação representado pelo elemento da natureza chamado “sol”, que, para Marta era uma espécie de “pênis” em suas masturbações, então, era como se o próprio Deus, em forma de “sol”, penetrasse o corpo de Marta, fecundando-o, originando um novo ser (poder da criação), e isso acontece realmente, e não mais apenas simbolicamente, quando Marta e Jerônimo transam, com aquela perdendo a virgindade e sendo fecundada por Jerônimo.


O Poder de Eterna Criação e Renovação talvez seja o tema principal do livro, talvez, pois, como já foi dito, a novela tem múltiplas leituras, a maioria delas muito pessoais. O que demonstra o poder simbólico da obra de Nélida Piñon e seu poder de sugestão, o que constitui A casa da paixão numa “obra aberta” (Umberto Eco), que propõe uma reflexão sobre as relações familiares, sentimentais e amorosas e sobre a sexualidade feminina. Daí o pioneirismo de Nélida Piñon é tratar do tem nos anos 1970, em plena Ditadura Militar no Brasil. A novela daquela autora é uma pequena obra-prima.”

terça-feira, 18 de novembro de 2014

.HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA - MÁRIO DE ANDRADE: “(PACIFISTA E CHEIO DE BOAS INTENÇÕES, MAS AINDA IMATURO).”.

.HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA - MÁRIO DE ANDRADE:

“(PACIFISTA E CHEIO DE BOAS INTENÇÕES, MAS AINDA IMATURO).”

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).



“Livro de poemas de Mário de Andrade, Há uma gota de sangue em cada poema, publicado em 1917, sua obra de estreia, no qual o poeta dá seus primeiros passos na poesia, tanto que seus poemas ainda são "imaturos" e muito aquém do que ele viria a produzir, posteriormente.

Essa obra, o próprio Mário a retirou das suas Poesias Completas e a “colocou” em um volume à parte, conhecido e intitulado pelo próprio escritor como "Obra Imatura", pelo reconhecimento do próprio poeta de que sua poesia ainda era “imatura” naquele livro; nesse volume reuniu ainda os contos de Primeiro andar e o livro de crítica A escrava que não era Isaura.

 Mário de Andrade escreve Há uma gota de sangue em cada poema, como um manifesto pacifista, criticando, atacando e refletindo os horrores da Primeira Guerra Mundial, que se arrastava na Europa, desde 1914, só terminando um ano depois à publicação do livro do poeta, 1918.

Nos poemas, o eu-lírico demonstra um anseio coletivo, no qual todos queriam paz, harmonia, união, amor para o mundo e para o homem, parecia que quem não queria essa Cosmogonia era, justamente, os governantes, militares e líderes mundiais da época.

O título é muito sugestivo, pois, expressa e sugere a guerra, o horror, a destruição e a desarmonia através da palavra "sangue", que invade e mancha a vida, a humanidade, a sociedade, a harmonia e a paz, que são representadas pela palavra "poema", já que para os modernistas a literatura devia servir como reflexo da sociedade contemporânea, daí o "poema", ou seja, a vida do homem, suja e manchada pela guerra e destruição do "sangue" derramado pelos jovens soldados (inocentes nesse combate de generais sentados, em suas mesas, traçando os destinos da Humanidade, à custa de vidas inocentes dos jovens retirados do lar à força, que perdiam suas vidas que se esvaíam nas trincheiras da Guerra).

A poesia e o “Poema” eram as “armas” artísticas que gritavam e pediam paz e harmonia - a consciência da sociedade e da humanidade, que era captada e transmitida pelo poeta e pelo eu-lírico nos poemas, que eram gritos de revolta, mas de revolta antibelicista e à favor da Cosmogonia, da união dos povos e das nações.

Mário de Andrade escreve uma obra de forte ativismo político (este ativismo seria marca modernista nos primeiros anos de movimento), antibelicista e de luta pela paz mundial. Embora os poemas, esteticamente e estilisticamente, ainda sejam marcados pela imaturidade, presos ao convencionalismo das tradições literárias do século anterior, pré-modernistas, portanto, já prenunciavam um dos maiores vanguardistas modernistas da Literatura Brasileira.

Um dos maiores poetas combativos do Primeiro Modernismo nacional, participante ativo da Semana de Arte Moderna, realizada em 1922. E, que junto com Oswald de Andrade, foram os líderes de um movimento que reunia vários escritores e artistas de outras áreas, que lutaram pela renovação modernista das Artes e Letras nacionais. E que se consolidaria na Geração Modernista seguinte, que se inicia no ano de 1930 ( essa classificação é estanque e reducionista, mas serve de parâmetro, para a análise aqui pretendida).

 A Geração Modernista que se inicia nos anos 30 do século XX, ficou conhecida pela alcunha de “romance de 30”, ou, denominado por alguns críticos literários, de forma reducionista, de “romances regionalistas” - já prenunciados em, 1928, pelo romance-marco do movimento (mas débil literariamente) A bagaceira, de José Américo de Almeida; e, pelo Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre, lançado a essa época. Mas aqui é assunto, para outro post.

Mário lançaria livros por toda década de 1920, que demonstram a modernidade almejada por todos os artistas de 22. Seu estilo já modernista foi adquirido pelas leituras dos clássicos europeus e pela leitura dos manifestos e obras das vanguardas artísticas europeias do início do século XX, que se fazem presentes, nos poemas de Mário de Andrade, de forma “deglutida” como sugerira Oswald de Andrade na Poesia Pau-Brasil e no Manifesto da Antropofagia.

Em suma, basta citar os livros de Mário, Pauliceia desvairada, Clã do Jabuti, Losango cáqui, etc., estes livros de poemas modernistas; as críticas revisionistas da Literatura Brasileira e sua história (e de outras artes também, Mário conhecia muito bem, por exemplo, artes plásticas e música), suas críticas, lógico, sempre pautadas pela marca modernista que o definia.

Os livros de contos e crônicas também são fontes inesgotáveis de modernidade. E os romances Amar, verbo intransitivo e, em especial, o romance-síntese do primeiro modernismo brasileiro, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

“O romance antropofágico”, por excelência, segundo, Oswald de Andrade - não sei se afirmado com as palavras que usei entre aspas, mas que Oswald decretou criticamente algo nesse sentido à publicação daquele romance, o que até Mário tentou recusar, essa tal afirmação do amigo-poeta, ora vejam, em sua conhecida humildade.

Enfim, Mário de Andrade começou titubeando, “imaturo”, mas, logo se transformou em um dos nossos maiores e mais conscientes modernistas da Literatura Brasileira e, um dos maiores escritores em Língua Portuguesa do século XX.”.


P.s.: conferir post publicado nesse mesmo blog, em 04/11/2014, em que se fala mais de Modernismo, Mário de Andrade, Semana de Arte Moderna de 1922 e é abordado mais detalhadamente o romance Macunaíma, de Mário. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

ALICE NAS CIDADES, DE WIM WENDERS. “(TRAVESSIA EXISTENCIAL.)”

ALICE NAS CIDADES, DE WIM WENDERS.

“(TRAVESSIA EXISTENCIAL.)”

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO). (CONTÉM SPOILLERS.).

“Alice nas cidades”, de 1974, é um filme magistral de Wim Wenders. Trata-se de uma obra que define as principais características estéticas que marcariam e marcam a filmografia do diretor desde então, já que o diretor alemão continua, em plena atividade, sem perder o vigor de seu estilo cinematográfico.

A obra em tela faz parte de uma trilogia, a “Trilogia de road-movies”, formada por “Movimento em falso”, “Alice nas cidades” e “No decurso do tempo”.

“Road-movie” é um tipo de filme marcado por deslocamentos constantes das personagens, passando de cidade em cidade, seja de carro, motocicleta, barco, navio, bicicleta, etc., mas também as personagens estão, geralmente, passando por uma crise existencial.

Essa trilogia sempre foi protagonizada pelo mesmo ator, que fez vários outros filmes sob a direção de Wenders. A personagem desse ator, em “Alice nas cidades”, é um escritor que vive um bloqueio criativo e não consegue escrever o artigo que o jornal lhe encomendou.

Ele que está residindo nos EUA, decide voltar para a Alemanha, seu país natal. Começa sua viagem (física e psicológica). Física, pois pega o carro rumo a New York para ir ao aeroporto e de lá voltar para Berlim. Mas a viagem existencial inicia justamente a partir do momento que passa a ter que cuidar de Alice que surge em sua vida, de uma forma fortuita.

Alice é apenas uma garota de seus oito anos, abandonada pela mãe. Começa o road-movie envolvendo os dois, uma viagem de descobertas existenciais para os dois, sendo que o protagonista aprende muito com a inocência e a perspicácia da garotinha.

Na verdade, a personagem principal vive um vazio interior e falta-lhe um sentido em sua existência. O seu vazio reflete uma crise existencial, uma alteridade e uma identidade fragmentadas. “Ele tem medo de sentir medo.” Suas memórias são representadas por ele, quando o mesmo fotografa tudo que ver, mas seus “instantâneos”, para ele, não representam a realidade que ele vira, pois o próprio justifica “a realidade muda da hora que tirou a foto para o segundo seguinte que a foto é revelada”. Naturalmente, o tempo passou e é inexorável, ficam apenas vestígios de um tempo, mesmo paralisado, quando se compara o espaço fotografado/revelado com o mesmo espaço só que agora no “presente”, algo se esvaiu.

E, isso, deixa o protagonista agoniado e com um sentimento de vazio e de que algo se perdeu em sua existência, já fragmentada. Assim, a encruzilhada de sua existência e de sua travessia, exige um tour de force por várias cidades, junto à Alice, que surge como um ser que lhe dará um norte para sua existência.

São de Alice reflexões profundas, saídas da boca de uma menina de oito anos, que demonstra, mais uma vez, a sabedoria das crianças. Para ela, os sonhos não deveriam existir, pois são ilusões, já que nunca se tornam realidade.

Porém, logo em seguida, “ela afirma que num sonho que teve na noite anterior, fora obrigada nele a ver um filme de terror, mesmo sem o querer vê-lo.” Essa frase mostrou ao protagonista e também nos mostra, aos telespectadores, que mesmo em nossas existências, por mais difíceis e complicadas que sejam, e às vezes vazias que estejam momentaneamente, ou talvez nós estejamos passando por crises existenciais passageiras, mas é possível enfrentá-las.

É um terror, é angustiante, é um pesadelo, o filme mesmo do qual estamos falando, mostra muito bem essa agonia da personagem, contudo tem que ser enfrentado, mesmo que a derrota se imponha, mas você realizou a travessia, e isso é o que importa.

O filme é tão rico que tem um caráter interdiscursivo com as histórias de “Alice”, Alice no país das maravilhas e Alice no país dos espelhos. Escritas por Lewis Caroll.

Tem também um caráter metalinguístico, pois a própria história narrada pelo filme vira o artigo do jornalista, que passava por um bloqueio criativo.


Enfim, um filme genial. Que merece ser visto e revisto por todos.”