quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

JUNQUEIRA FREIRE (1832-1855): ("MAIS DO QUE UM EU-BIOGRÁFICO, UM EU-POÉTICO CINDIDO ENTRE O SAGRADO E O PROFANO")


                                                                                 JUNQUEIRA FREIRE (1832-1855)
                                                                               
                       ("MAIS DO QUE UM EU-BIOGRÁFICO, UM EU-POÉTICO CINDIDO ENTRE O SAGRADO E O PROFANO"):

                                                                                  (CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO).




                                                                                                   



" Junqueira Freire é um poeta menor da Literatura Brasileira, mas um subestimado poeta ultrarromântico, do século XIX, não que alcance o Belo e o disforme, de Álvares de Azevedo, ou o bestialógico de Bernardo Guimarães, mas é tão melancólico, quanto Fagundes Varela, e, muito superior aos poemas ingênuos de Casimiro de Abreu.
  Pessimismo, gosto pela noite, solidão, dor, angústia, devaneio, tudo está presente na obra do poeta baiano. Não abordarei sua obra mais estudada, Inspirações do Claustro, mas a póstuma e inédita, Contradições Poéticas.
   Estas revelam um eu-poético melancólico, cindido entre o sagrado e o profano, a fé e a descrença, angelical e diabólico, entre outros pares de dualidades dinâmicas, conforme os estudos de F. Schlegel, opostos que se complementam e não se excluem, pois um necessita do outro para existirem: deus e diabo!?. O belo e  o disforme de Álvares de Azevedo, nos estudos de Cirlaine Alves, os poemas daquele era por ele mesmo teorizados como como a face caliban (profana e irônica) e a face ariel (divina e lírica-amorosa mais tradicional). Junqueira Freire em alguns poemas das contradições poéticas e dos inéditos flerta com o grotesco e o sublime, de Victor Hugo também, sempre com menor qualidade estética que todos os poetas citados, mas são poemas que merecem se lidos e estudados no meio acadêmico, os professores deveriam poder debatê-los com os alunos, no ensino médio e, o público leitor em geral, como hobby, enfim.
      O eu se perde em poemas delirantes e angustiantes, nevrálgicos, que às vezes se perde em qualidade pela extensão do poema, virando até em alguns momentos versos prosaicos. Outro fato pouco conhecido e aí entra o autor implícito em suas duas peças inacabadas, Freire era defensor da república, muito antes de muitos que ficaram com a fama de defensores da proclamação da república. Isso é mostrado por eu-poético e personagens que defendem a república.
     O poeta utiliza farta metaforização dos sentimentos do eu transpostos para a natureza, na qual os seus anseios e angústias são espelhados, o poema mostra simbolicamente e  de maneira polissêmica, as agruras do eu, em relação aos seus amores e amadas, e, suas frustrações amorosas."



"Em feias extorsões, - e sobre o leito,
sobre o tapete multicor bordado,
sobre os convivas em redor atônitos,
sobre si mesmo, - as (...) se lhe abriram
e fermentados o conduto e o vinho,
evaporando venenosas fezes,
pela garganta em vagas arrebentam:
mas entre os borbotões do podre vômito,
bradava ainda: - anátema aos rebeldes! -" (Junqueira Freire, "O padre roma", trecho, poesias inéditas)
Esses belíssimos versos e REALMENTE ultrarromânticos, a escola não mostra aos alunos.

                                                                                       








domingo, 14 de fevereiro de 2016

"ALMA NO LODO" (MERVYN LEROY/EUA/1931): ("PIONEIRISMO NO GANGSTERISMO".)

                                          "ALMA NO LODO" (MERVYN LEROY/EUA/1931)

                                                           ("PIONEIRISMO NO GANGSTERISMO".):

                                                         (CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO)



                                                           



"Filme-síntese, de certa forma, dos filmes de gangsteres, dos EUA, sobre a Lei Seca.  A máfia manda e desmanda em “Alma no lodo”, 1931. Edward G. Robison, que ficou muito marcado na história do cinema, pelos papéis de mafiosos, aqui vive com ímpeto e verossimilhança, Little Caesar. Dirigido por Mervyn LeRoy é importantíssimo, a obra até pela questão histórica/cronológica de ser, exatamente, um dos primeiros sobre o tema, Gangsterismo, à época da Grande Depressão e da Lei Seca." 





segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

(WHAT HAPPENED, MISS SIMONE?, LIZ DURBUS, EUA, 2015): ("MISS SIMONE: GÊNIO MUSICAL E POLITIZADA")

                                        (WHAT HAPPENED, MISS SIMONE?, LIZ DURBUS, EUA, 2015):

                                        ("MISS SIMONE: GÊNIO MUSICAL E POLITIZADA"):
                                     
                                        (CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO)

                                                     
                                                               


"Nina Simone, ela não é apenas uma pianista clássica "negra" ou uma cantora de soul, blues e jazz, 
Miss Simone é uma MULHER com conteúdo cultural e ativista política. 

Suas músicas de protesto, a mídia branca dos EUA fazia questão de boicotar, obviamente. Como o professor Amauri Rodrigues afirma, mudando as referências, das personagens negras dos livros de Literatura Brasileira, para personalidades reais e negras, a classe dominante, brancocênctrica silencia a voz discursiva de um artista negro, a classe dominante oprime e até mata, basta citar o assassinato  de Dr. Martin Luther King (que pregava a não-violência!?), Malcolm X, et coetera.

Simone é um gênio. Buscou a identidade e a negritude do afro-americano e, procurou mostrar em seus concertos e músicas a identidade do seu povo, dos seus irmãos, para estes se tornarem visíveis e com poder de voz e discurso..

Mandou Mississípi -, estado estadunidense, sulista e extremamente racista -; a cantora compôs uma canção-hino de resistência dos negros americanos, no ano de 1968, "Mississipi Goddam", e afirmous Mississippi vai para puta que pariu. Nós sabemos o que fazes. Numa música das mais clássicas 

Ah, apanhou muito do marido. E isso é uma coisa que continua inquietante na sociedade tal como o racismo, vamos respeitar as mulheres! E esse conceito de raça como o professor Amauri Rodrigues propõe é papo eurocêntrico e de antropologia defasada; nós somos humanos e ponto. A etnia, neste tópico poderíamos discutir o conceito, pois é mais amplo. A questão de cor de pele também não quer dizer nada, é um mero detalhe físico e da anatomia, fisiologia humana. Filme concorre ao Oscar de documentário em longa metragem, em 2016. Deveria ganhar de melhor filme e ponto."

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

"Ettore Scola (1931-2016, 84 anos, italiano): mestre do cinema político italiano": ("Um legado fílmico para a Humanidade sempre re(pensar) os seus atos")

"Ettore Scola (1931-2016, 84 anos, italiano): mestre do cinema político italiano":




         ("Um legado fílmico para a Humanidade sempre re(pensar) os seus atos"):

                   (CRÍTICAS POR RAFAEL VESPASIANO)





“A Família” (1987):

"Ettore Scola, mostra a união de uma família, que tem seus problemas cotidianos, mas nos momentos difíceis se unem, demonstrando unidade, solidariedade e cumplicidade, como uma verdadeira família deve ser. A passagem de tempo é sempre marcada por um passeio da câmara pelo corredor da casa da família; sempre são mostrados os almoços da família (típico almoço italiano!); o filme começa e termina com a batida de uma fotografia da família. Interpretações impecáveis de um elenco maravilhoso: Gassman (que faz o chefe da família, personagem central da trama, pois o filme acompanha desde o seu nascimento até um encontro onde se reúne toda a família dele), Stefania Sandrelli, Fanny Ardant e Phillipe Noiret. Maravilhoso."





"Nós que nos amávamos tanto" (1974):

"Um clássico do cinema italiano, uma obra-prima de Ettore Scola e atuações magníficas de Nino Manfredi, Vittorio Gassman (que fez vários filmes com Scola) e Stefannia Sandrelli. Mostra o cotidiano de três rapazes, amigos entre si, apaixonados pela mesma mulher, Luciana, no decorrer de trinta anos, de 1945 a 1975, perpassado por todos os acontecimentos políticos da Itália, nesses anos narrados no filme. Os quatro são da classe trabalhadora da Itália e o que provoca a desunião e afastamento deles entre si, não é o amor pela mesma mulher, mas sim os acontecimentos que vão ocorrendo, cada um tomando um rumo diferente em sua vida, porém, um deles acaba se casando com Luciana, o reencontro dos quatro ao final do filme, mostra a diferença drástica que aconteceu entre o casal. A personagem de Gassman, que se transformou num rico capitalista, enquanto os outros continuaram fazendo parte da classe trabalhadora. Provando que mesmo se amando tanto, as diferenças acabam por distanciar um do outro. Detalhe: para a homenagem de Scola aos grandes diretores italianos da época, citações a Rossellini, De Sica (este aparece num discurso/palestra, a qual está assistindo, o professor), Visconti e Fellini (que participou efetivamente do filme, como se fosse realmente um ator) numa homenagem de Scola a ele, numa cena em que Federico está filmando a cena "da fonte" do filme "A Doce Vida", o próprio Marcelo Mastroianni aparece em "Nós que nos Amávamos Tanto". Um filme maravilhoso!"




"Feios, sujos e malvados" (1976):

"Este é uma comédia dramática: cômico, por causa das situações hilárias que Giacinto e sua família vivem e proporcionam, mas um drama, pois estas ocorrem em meio a maior pobreza da periferia italiana do pós-guerra, onde a família dele vive. Eles tentam levar uma vida "normal" e enfrentam os problemas da maneira mais natural e alegre possível, porém, as brigas são constantes, pois Giacinto tem uma amante e não quer gastar dinheiro com sua esposa verdadeira e seus dez filhos. Ele é pão-duro assumido, provocando o conflito, porque gasta com a amante, mas não com a família "oficial". "Feios, Sujos e Malvados" é um filme divertido, porém, mostra o lado feio, sujo e malvado do ser humano, que tenta sobreviver, em meio às dificuldades, da melhor maneira possível, mas, como mostra o filme, visando a melhoria de suas condições de sobrevivência, se tornam gananciosos, ambiciosos e individualistas (o lado sujo do homem, tão bem mostrado por Scola!). Uma sátira e crítica à sociedade italiana daqueles idos, mas que permanece atual para a Itália e para todas as outras nações e povos, pois continuamos vivendo na maior pobreza e miséria, seja física, econômica, cultural ou psicológica, até os dias de hoje, somos, portanto, também, Feios, Sujos e Malvados."





"Os novos monstros" (1977):

     "Filme coletivo e especial, pois reúne nove episódios humorísticos, dirigidos por três mestres do cinema italiano: Risi, Scola e Monicelli, porém, não se sabe, pois, os créditos não mostram, quem dirigiu qual, só podemos imaginar, que cada um deles dirigiu três episódios, dando os nove da soma total, o restante devemos tentar adivinhar, de acordo com as características de cada cineasta, em seus filmes anteriores. O filme se caracteriza por humor negro, mas de primeira qualidade e finíssimo. Atuações impecáveis de Gassman e Sordi!"




“O Terraço” (1980):

 “Com Marcelo Mastroianni e Vittorio Gassman, grupo de adultos que se encontram, diariamente, para conversar e jantar num terraço da casa de um casal do grupo de amigos; surgem várias relações interpessoais e muitos desabafam de forma crítica sobre os outros, por causa do desgaste natural das relações de convívio diário. O filme explora também, o fato das personagens estarem frustradas com seu trabalho (temos o exemplo de um escritor e de um produtor de cinema, ambos decepcionados com suas carreiras profissionais), o que levam elas a descontarem suas decepções em cima dos amigos e de seus familiares, em especial, ou no seu marido, ou na sua esposa. Surgem questões também de traição e adultério entre as personagens do filme. As aparências caem e o verdadeiro "eu" de cada pessoa se revela. Scola explora bem a reflexão sobre as relações humanas.”




“Casanova e a revolução” (1982):

“Ettore Scola em um filme, inteiramente fictício, tirando a espinha dorsal do mesmo, que é o cenário político da França vivendo sua Revolução, que acabou por botar a burguesia no poder e tirando o clero e a aristocracia daquele, "A Noite de Varennes" mostra, em síntese, todas as principais categorias da sociedade francesa de então, em simulacro das personagens, que se encontram, numa viagem de carruagem pelas terras francesas, iniciada em Varennes; as situações que se passam são maravilhosamente exploradas por Scola, em especial, as vividas pelo conquistador e mulherengo italiano, Casanova (vivido por Mastroianni, de forma impecável, como sempre!), talvez por isso o outro título, para mim mais apropriado, "Casanova e a Revolução", pois ele é a personagem que mais se destaca, entre todas aquelas que estão envolvidas na Revolução Francesa.”




“O jantar” (1998):

  “Obra-prima do cinema italiano e mundial, com direção soberba de Scola, atuações magníficas de Vittorio Gassman e Fanny Ardant. Num mesmo restaurante, numa mesma noite, se reúnem, casais, amigos, famílias, namorados, etc., em cada mesa do restaurante, eles não têm nada em comum, apenas o que une, esses diversos grupos são as dificuldades, alegrias e tristezas de uma vida "normal": cada grupo, enquanto bebe e janta, discutem seus acontecimentos e problemas do dia-a-dia, entre seus companheiros de mesa, porém, a personagem solitária de Gassman se transforma em nossos olhos e ouvidos das conversas de cada grupo de pessoas (espécie de narrador onisciente que encontramos nos livros, ele é, para nós, o mediador das “histórias” e os espectadores." 





“O Baile” (1983):


“Filme ímpar de Scola, sem diálogos, só com fundo musical, que narra histórias, até mesmo verídicas, como o bombardeio alemão em Paris, durante a 2ª Grande Guerra; as relações entre as pessoas se passam como... música! Tudo isso acontecendo num baile, que passa por trinta anos da história da humanidade durante o século XX, dos anos 30 a 60; as diferentes personagens, das diferentes épocas, são interpretadas pelos mesmos atores. Brilhante e genial ideia de Scola!”






“Concorrência Desleal” (2001):

 “É um drama sensível sobre a instalação do nazi-fascismo na Itália e, como esse regime ditatorial de Mussolini e seu comparsa fascista, Hitler da Alemanha, influi no dia-a-dia de dois comerciantes rivais, um judeu e outro cristão. A amizade surge como forma de luta contra qualquer tipo de discriminação e perseguição, de forma inusitada e bem-humorada. Depardieu é o contraponto intelectual da história e antifascista. Mais uma obra-prima de Scola.”






terça-feira, 29 de dezembro de 2015

“RELATOS SELVAGENS; TANGERINAS; IDA; TIMBUKTU E LEVIATÔ: (“OSCAR DE MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO INGLESA (2014-2015): FILMES EXCELENTES, MAS QUEM LEVOU SEGUNDO A ACADEMIA, É O MEU PREDILETO?”)

“RELATOS SELVAGENS; TANGERINAS; IDA; TIMBUKTU E LEVIATÔ


(“OSCAR DE MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO INGLESA (2014-2015): FILMES EXCELENTES, MAS QUEM LEVOU SEGUNDO A ACADEMIA, É O MEU PREDILETO?”):


(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO)


     “Prometi lá no final do ano de 2014, para os amigos mais íntimos ver e estudar, para escrever críticas sobre todos os filmes indicados ao Oscar em 2015. Fiz críticas de alguns, mas muitos só vim ver agora, e, ainda falta ver outros, mas cumprirei a promessa.

No início de 2015, já assistira ao contemplativo filme polonês, Ida, ganhador do Oscar 2015 de melhor de língua não inglesa, também vira o russo extraordinário sobre relações humanas e corrupção, Leviatã e também o argentino, Relatos Selvagens, que conta com seis episódios bons, sempre regular e, histórias cômicas de humor negro. Tangerinas é um filme estoniano surpreendente e que discute temas políticos e de guerra civil, e hoje vi o último dos cinco indicados à supracitada categoria do Oscar passado, Timbuktu, o representante da Mauritânia ao prêmio, uma reflexão sobre qualquer extremismo, no caso religioso.

Os cinco são ótimos. Mas, comecemos analisando dos que me agradaram menos para o meu predileto. No caso, trata-se de Relatos Selvagens, brilhantemente dirigido por Damián Szifron, com episódicos cômico que surpreendem por serem extremamente regulares: o primeiro serve como gancho para puxar uma primeira história, aquele serve como prólogo, que será explicado no decorrer do filme, a segunda história é violência pura, lembra Tarantino e suas sandices, o terceiro é o mais irregular, o quarto com a estrela latino-americana Ricardo Darín, é um dos melhores, de crítica social, o quinto mantém o filme interessante e o sexto conto é excepcional. Um filme que merece, sim ser visto! O diretor usou bem a trilha sonora e a montagem que colocou uma primeira história forte no início, no meio um conto excelente e, no fim, a chave de ouro, equilibrando bem as várias partes. Cinema da melhor qualidade.





O filme da Estônia, dirigido por Zaza Urushadze, Tangerinas, é um filme humano, sensível e antibelicista, pró Humanidade pacifista e harmônica. Um filme de teor histórico, remete à Guerra Fria, com a queda já decretada e dissolução consequente da União Soviética, em 1990, ocorreu a Guerra da Abecásia, pois o recente proclamado estado independente da Geórgia, brigava com separatistas locais, que recebiam apoio dos russos e chechenos. As personagens de Ivo e Margus são produtores de tangerinas, abundantes na região, que preferiram tocar à vida, de forma humilde, e fiel às suas culturas campesinas de colheita de tangerinas, em meio à guerra, enquanto seus familiares e amigos, com medo, resolveram voltar para a terra natal, a Estônia.

O filme é um filme de guerra sem mostrar a guerra ou batalhas e mortes, como os filmes hollywoodianos fazem, aqui vale mais a simplicidade para denunciar o horror de qualquer violência, ainda mais uma guerra. Filme humanista. E, quem vê-lo perceberá que ocorre uma segunda guerra fria dentro da Guerra Fria, em seu apagar das luzes, nos anos 1990. Por isso, o roteiro é brilhante neste ponto.



Chegamos ao terceiro filme que adoro, mas não é o meu predileto (dos cinco supracitados), mas que ganhou o Oscar 2015 de melhor filme de língua não inglesa, o polonês, Ida, dirigido e roteirizado por Pawel Pawlikowski, a película é belíssima. Sensível ao retratar as cicatrizes que persistem a não cicatrizar do pós-Segunda Grande Guerra.

Investes na relação entre Ida e Wanda, sobrinha e tia, respectivamente, aquela vivia no claustro do convento e não sabia que tinha parentes vivos, e antes de se tornar freira, fazendo os votos, a madre superior, revela a existência da parente e faz ela viajar para conhece-la, para assim decidir se realmente quer aceitar os votos. Ida, então, vê o MUNDO pela primeira vez, e, se depara com o cigarro, o sexo e a bebida alcóolica, que sua Tia Wanda usa e faz questão de mostrar que aqueles tópicos fazem parte da vida mundana. O que choca a sobrinha Ida, não poderia ser diferente. A discussão entre as relações entre as duas é abordada sutilmente, mas às vezes, mais drasticamente.

As duas, enfim, partem num road-movie, para se descobrirem e enterrarem de fez fantasmas do passado. A ida de Ida à realidade mundana é definitiva? Ou tem volta ao claustro? Perguntas que serão respondidas a quem a assistir a esta belíssima película contemplativa e de fotografia preto-e-branco também indicada ao Oscar 2015. O filme, sim, é uma IDA ao Paraíso e ao Inferno da cada um de nós, e, principalmente da protagonista-título, Ida.



O filme da Mauritânia, Timbuktu, dirigido por Abderrahmane Sissako, que consegue realizar uma direção de atores coesa, fazendo o espectador criar empatia por várias personagens e ódio por outras. Mas, o filme é contra o referido Ódio, pois trata do extremismo religioso numa cidade histórica do Mali, Timbuktu, que é tomada por extremistas que impõem toque de recolher, proibição de esportes, de cantar e dançar, de ouvir música, ou seja, proíbe as pessoas de VIVEREM A VIDA, em nome, segundo os extremistas, de Deus -, (Alá, ou qualquer um que seja, pois qualquer deus, de qualquer religião, não quer TERROR, VIOLÊNCIA, pelo contrário quer: PAZ, HARMONIA e pregaram o AMOR ENTRE TOD@S AS PESSOAS).

O filme chegou aos cinemas brasileiros à época dos atentados em Paris, à sede do jornal de cartuns, Charlie Hebdo, portanto atualíssimo, e já estamos no final de 2015, e continua cada vez mais atual, infelizmente. A fotografia e a trilha sonora do filme são brilhantes. E temos duas cenas de rara poesia no Cinema do século XXI: a cena da partida de futebol?, e, a cena da sala em que se canta e toca uma canção que emociona.



Chegamos ao filme predileto do resenhista que vos escreve, Leviatã, representante da Rússia, dirigido por Andrei Zviaquintsev, a película é uma obra-prima, pois trata das relações humanas de maneira universal, ao partir do particular caso da Rússia, pós dissolução da URSS e do enredo de um prefeito corrupto (lembra nosso país, podes crer!), que quer desapropriar, à qualquer maneira, diga-se de passagem, de forma suja, as terras de um pai de família, no litoral russo, região do Mar de Barents, e chega à universalidade pois trata de relações humanas complexas que são atemporais: política, corrupção, amizade, adultério, religião e muito mais.

E de fato, como Hobbes disse, “o lobo é o lobo do homem”, Leviatã é uma película marcadamente decadente, que reflete a Humanidade decadente do século XXI, moralmente a sociedade refletida no filme é uma decadência ética e moral, e, os Homens são monstros (leviatã se refere também às baleias) amorais e decantes. O filme, enfim, é uma ruína alegórica da Humanidade atual, não só russa.

A fotografia também merece destaque e a banda sonora só reforça a amoralidade do homem pós-moderno. A montagem é especial também, pois as duas horas e 20 minutos de filme não cansam o espectador, ao contrário o instiga a reflexões, pós sessão no cinema, e, pela vida toda, portanto, o filme é uma OBRA-PRIMA!.




Quem leu estas críticas, percebeu, que para o crítico que as escreve, os cinco filmes são ótimos, premiar e escolher é questão individual e relativa, mas o que importa é a qualidade da película e o fato, de neste caso, em 2015, os cinco concorrentes ao prêmio de melhor filme de língua não inglesa, da Academia de Cinema dos Estados Unidos da América, serem convincentes e verdadeiras obras de arte, que têm o que dizer e fazer a reflexão dos espectadores sobre uma Humanidade mais HARMÔNICA!”

domingo, 13 de dezembro de 2015

PASSOS NA NOITE (OTTO PREMINGER/EUA/1950): (“NENHUM NOIR É DICOTÔMICO: BOM OU MAU?! – O MEIO-TERMO É A ESSÊNCIA HUMANA”)

PASSOS NA NOITE (OTTO PREMINGER/EUA/1950)


(“NENHUM NOIR É DICOTÔMICO: BOM OU MAU?! – O MEIO-TERMO É A ESSÊNCIA HUMANA”):





(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO)


“Os filmes “enquadrados” no gênero “noir”, clássico, são brutais para os espectadores, pois estes se afeiçoam a vilões, mocinhos, femme fatales, anti-heróis, não tem como é da natureza humana: a empatia. Mas, neste filme, em específico a personagem vivida por Dana Andrews é um policial linha dura, erra algumas vezes, pega pesado, mas é vilão?

Sua personagem também faz boas ações, mas tem que corrigir um erro, um vacilo, um deslize, que é um crime cometido por ele, mesmo que sem querer. E agora? O roteiro é genial é lidar com essas questões. Preminger em nenhum momento fecha questão sobre a personagem, isto fica à cargo do espectador e dos críticos.


A cidade de New York é retratada com seus silêncios e “sons” murmurantes e os passos sorrateiros da noite; a ambiência de crime e corrupção permeia o filme todo. A dualidade aqui não é sintética entre o bem e o mal, ou um, ou outro, mas parabática, os opostos se complementam. E a redenção, mero detalhe, talvez...”.

O REI E O CIDADÃO (JOSEPH LOSEY/EUA/1964): (“O CIDADÃO (DES)UMANIZADO”)

O REI E O CIDADÃO (JOSEPH LOSEY/EUA/1964)


(“O CIDADÃO (DES)UMANIZADO”):


(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO)





O cineasta Joseph Losey analisa com fina ironia, permeada pela crueldade e pela angústia, típicas de um front de batalha, o filme se passa na Primeira Guerra Mundial, onde a ambiência era marcada por total desespero e pavor, na chamada “guerra de trincheiras”. Um soldado vivo estava em determinado local, ao lado amontoados vários cadáveres de companheiros (e inimigo), e àquele tem que agir com indiferença, pois a guerra faz isso.

Os generais e políticos ficam numa posição confortável após criarem e inventarem estapafúrdias guerras, não pegam em armas, mas matam de qualquer forma vários jovens em guerras sem propósito. Losey acaba, por realizar, uma obra-prima pacifista e anti-bélica.
Os chefões da guerra ficam atrás de suas mesas transformando vidas humanas desperdiçadas em meros números de estáticas de baixas, como se aquele jovem fosse um mero número que precisa ser reposto por um outro soldado/número, para poder assim, sua nação, qualquer que seja, com seus aliados, ganhem a guerra.


O cidadão aqui, um suposto desertor, é des-(umanizado) até as últimas consequências. A relação entre ele e seu defensor (Dick Bogarde) é intensa, mesmo sendo breve e constantemente interrompida pelos julgamentos e pelas ordens superiores de afastamento e distância entre os dois. O defensor mesmo de mãos atadas quanto à fortuna do rapaz, o capta em sua essência (ainda) humana, mas que começa a escapar até o final, que tem um tom esperançoso, mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser trágico.”.