terça-feira, 14 de setembro de 2021

Os Documentos da Yakuza-Kinji Fukasaku-Japão-1973/1974: épica série de cinema sobre a máfia japonesa.

 









Os Documentos da Yakuza é uma série de cinema policial japonesa dividida em cinco filmes idealizada pelo cineasta Kinji Fukasaku, que também dirigiu os ótimos Portal do Inferno (1981), A Conspiração do Clã Yagyu (1978) e Guerra de Gangues em Okinawa (1971), além de ter dirigido as cenas japonesas do épico de guerra Tora! Tora! Tora! (1970). Os filmes da série Documentos da Yakuza chegaram aos cinemas entre os anos de 1973-1974 e retratam de forma nua, crua e dura a violência promovida pelas gangues e os diversos clãs da máfia japonesa da Yakuza desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ex-soldados japoneses da Guerra desamparados, frustrados e pobres são tragados pela máfia, para fazer parte de seus diversos clãs, atuando na jogatina, no comércio ilegal de bebidas e até no tráfico de outras drogas com o passar e a sofisticação da Yakuza, no mercado ilegal, etc. Shozo Irono é um deles. Shozo é interpretado pelo astro japonês desse gênero de filmes, Bunta Sugawara. No Japão de 1947, ele entra para um clã e até chegar aos anos 1970, em sua trajetória no crime, ele percebe que muitos jovens desiludidos saíram de uma Guerra Mundial para entrar em uma espécie de guerra civil, em que sempre que ganha são os mais poderosos e os mais fortes e os mais fracos (jovens) são apenas usados (mortos) para manter uma mínima parcela no comando da máfia Yakuza. A guerra fraticida dentro da Yakuza é deflagrada em quatro momentos de extrema violência e sanguinolência ao longo da série de filmes, até que a sociedade civil japonesa, em especial com a chegada da Tocha Olímpica em Tóquio, 1964, clama para a intervenção da polícia até então conivente e, principalmente, subornável e corrupta. Sem contar os políticos corruptos, que tinham acordos inescrupulosos e ganhavam muito com a Yakuza. Shozo testemunha um movimento nos anos 1970 em que Yakuza tenta mostra uma faceta nova para o Japão, uma faceta de partido e organização política, a Tensei, mas que não difere muita da velha Yakuza, pois Yasukas sempre serão Yakuzas e, a guerra e a violência continuam iguais, somente variando em suas facetas e roupagens. Os filmes são excelentemente regulares, de extrema violência visual, com ótimos e originais ângulos de câmera. Cenas caóticas no bom sentido. Atuações bastante forçadas, mas que é uma característica dos filmes desse gênero, com uma ampla e diversificada galeria de personagens. Kinji Fukasaku de fato é um mestre do gênero Yakuza e realizou uma monumental obra, por muitos considerados O Poderoso Chefão japonês, que influenciou diretores como Quentin Tarantino e Takashi Miike.  Os filmes são: Luta Sem Código de Honra (1973), Duelo em Hiroshima (1973), Guerra Por Procuração (1973), Estratégias Policiais (1974) e Episódio Final (1974).    

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A Voz da Lua - Federico Fellini - Itália/França - 1990: Ode à Loucura.

 




A Voz da Lua” é o último filme de Federico Fellini, lançado em 1990. Fellini, um dos mestres do cinema onírico e fantasioso, oferece ao espectador uma ode não só à Lua, mas, concomitantemente, à Loucura. Roberto Benigni interpreta Salvini, um sujeito lunático, louco, que vê (ou prefere ver) apenas o lado poético, lírico do mundo. Em suas razões e des-razões percebe, aos poucos que, talvez seja somente na e pela Loucura que seja possível entender as questões metafísicas do ser humano em relação às outras pessoas e, dessa forma, em relação ao próprio universo. Um roteiro que mostra momentos e situações que parecem apenas delírios, que de tão absurdas são por isso mesmo tão verossímeis. E isto é a própria essência da vida em sua dualidade, em seus opostos complementares: Razão e Loucura. Fellini é, de fato, um maestro em conduzir este louco concerto de situações inusitadas, elenco e extras em um caos (veja-se a cena da discoteca como exemplo disso), porém muito bem ordenado racionalmente e tendo um porquê: o caos da existência humana é a razão desarrazoada do prosseguir humano.     

terça-feira, 7 de setembro de 2021

"O Bandido da Luz Vermelha" - Rogério Sganzerla - Brasil - 1968: a western about the third world.

 


“O Bandido da Luz Vermelha'' is an amazing movie, released in 1968, captivating from the initial credits. So, this movie catches the viewer's attention from the beginning to end. The director is Rogério Sganzerla and the main actors are - Paulo Villaça as the outlaw and Helena Ignez as Janete Jane, a prostitute that the bandit develops a relationship. All have outstanding performances in their roles. This drama/thriller uses radio speakers as movie narrators through the plot. The movie is a criticism of a sensationalist media that has created false rumors and stories - even a very current film - from flying saucers invading the country to false police information, such as the discovery of the identity of the red light bandit. The director and screenwriter Rogério Sganzerla created a visually and aurally striking; a mix of references and metalanguages. The movie narrates typical events of urban life in which transits the thief interpreted by Paulo Villaça (freely inspired by the crimes of famous bandit João Acácio Pereira da Costa, nicknamed “red light bandit”). This movie is amazing, incredible, creative and innovative. Chaotic in the good sense of the word. Watch, review and understand why it is a true “western about the third world. ” The movie deserves a five stars rating.

O Bandido da Luz Vermelha - Rogério Sganzerla - Brasil - 1968: Um faroeste sobre o 3º Mundo.

 



O Bandido da Luz Vermelha” é um filme espetacular, de 1968, que cativa desde o começo, desde os créditos que na maioria das vezes são enfadonhos. Então, prende a atenção do espectador até o final. O diretor é Rogério Sganzerla e o filme tem como atores principais Paulo Villaça como o “Bandido” e Helena Ignez interpreta a personagem “Jante Jane”, uma prostituta com a qual o bandido se relaciona. Ambos são sólidos em suas atuações. Utilizando locutores de rádio como narradores do filme durante toda a história, esta obra é um drama/thriller que critica a mídia sensacionalista, que criava boatos e histórias falsas -, um filme, inclusive, muito atual -, desde discos voadores invadindo o país a falsas informações policiais, como a da descoberta da identidade do bandido da luz vermelha. O diretor e roteirista Rogério Sganzerla cria um cinema impactante visualmente e auditivamente; uma miscelânea de referências e metalinguagens; narra acontecimentos típicos da vida urbana em que transita o ladrão, vivido por Paulo Villaça (livremente inspirado nos crimes do famoso assaltante João Acácio Pereira da Costa, apelidado de “Bandido da Luz Vermelha”). Uma obra de cinema espetacular, incrível, criativa e inovadora. Caótica na boa acepção da palavra. Vejam e revejam e entendam porque se trata de um verdadeiro “faroeste sobre o terceiro mundo”.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

(Convite ao Prazer, BRA, 1980, Walter Hugo Khouri): (“Liberdade Vigiada e-ou Prisão Livre”):


(Convite ao Prazer, BRA, 1980, Walter Hugo Khouri):
(“Liberdade Vigiada e-ou Prisão Livre”):



“O filme começa com uma epígrafe de Spinoza que reflete a questão da Liberdade e seus aspectos vantajosos e-ou desvantajosos quando é manifestada (usufruída) em demasia, ou quando se manifesta e é usufruída em graus mínimos, precários. A frase não é bem esta, mas segue a que compilei e que expressa melhor o tom reflexivo do roteiro de Khouri: “A liberdade é uma virtude e, portanto, tudo que em alguém é sinal de impotência não pode ser atribuído à sua liberdade. (…). Quanto mais livre alguém é, menos podemos dizer que esse alguém pode não usar da razão e escolher o mal em vez do bem. ” Os casamentos do filme são vistos, sob a ótica dos protagonistas masculinos, ora pela perspectiva da ‘liberdade vigiada’ para Luciano, ora pela perspectiva da ‘prisão livre’ para Marcelo.
Dessa forma, a partir da epígrafe e por um acaso, o filme começa no momento em que Marcelo (Roberto Maya) –, por causa de um repentino problema dentário -, vai ao consultório do dentista Luciano (Serafim Gonzalez), amigos de longa data, mas que não se veem a alguns anos. A inveja sempre marcou a relação dos dois: Marcelo herdou a empresa e as propriedades do pai, rico desde sempre, já Luciano é um típico profissional liberal de classe média, que luta muito para manter tal condição social.  Porém, o grande investimento estético do filme dirigido e escrito por Walter Hugo Khouri não é a questão social, mas sim a carga dramática existencialista, em especial, dos dois protagonistas masculinos.
Khouri inicia sua obra fílmica demonstrando sinais de que algumas de suas personagens possuem conceitos artísticos e formação intelectual diferenciada, é o caso da esposa de Marcelo, Ana (Sandra Bréa). Ela é conformada em sua situação de esposa traída, que vive sua solidão conjugal e sua crise existencial, estudando obras das Artes Plásticas, gosto pelas Artes que aprendeu com o esposo, Ana sobretudo gosta das pinturas surrealistas, com apreço especial para o quadro, que é apresentado no início e ao fim do filme,  e representa duas figuras -, uma masculina, outra feminina -, abraçadas, entrelaçadas e encapuzadas, simbolizando um beijo de solidão entre-e-do par, um beijo que re-vela sugestivamente uma relação marcada por máscaras , ou sugere um relacionar-se em que o beijo entre os amantes é um entrelaçar-se e um beijar-se fragmentado e frio, corrompido, incomunicável na falta de contato dos lábios e por extensão metaforiza a falta de estima que marca aquele gesto que era para ser de afeição, mas se torna um beijar-se sem compreensão, solitário.
Essa metáfora sugere o que é de fato o casamento não só de Marcelo e Ana, mas também o de Luciano e Anita (Helena Ramos). Casamentos frustrados, marcados pelas infidelidades dos esposos -, ora estas traições se dão por mera diversão e prazer sexuais -, ora por uma espécie de desafio silenciado em palavras, mas manifesto em atos, de Marcelo e de Luciano, um para com outro de quem é o ‘mais forte’, ou de quem é o ‘mais garanhão’, dada a já citada inveja que nutrem um em relação ao outro.
Muitas vezes fica evidente a aniquilação que Marcelo quer propiciar a Luciano, não somente no âmbito sexual, mas moral e conjugal também. Isso vale, inclusive, de certa forma, de maneira inversa. Uma verdadeira relação de amizade marcada pela toxicidade, que é repassada para as esposas e para as amantes deles, de fato uma masculinidade tóxica muitas vezes, com cenas de assédio e abusos a algumas mulheres que são apresentadas no filme. Contudo, aqui trata-se de um ‘drama erótico’ e não de uma ‘pornochanchada’ pura e simples, nada em “Convite ao Prazer” é gratuito e banalizado, tudo tem um porquê nas questões existenciais levantadas pelo cineasta Walter Hugo Khouri não somente neste filme, mas em sua filmografia como um todo.
Em um determinado momento do filme é dito por uma personagem que “amor é amor e casamento é casamento”, refletindo sobre conceitos e sentimentos de liberdade ou a privação desta, amor ou des-amor, carinho ou não, entre outras questões relativas aos matrimônios e as relações amorosas em geral, mas que cai como uma luva para os casais do filme e vai ao encontro da epígrafe da obra de Khouri retirada dos escritos do pensador Spinoza.
A produção de “Convite ao Prazer”, lançada em 1980, foi realizada por Antonio Polo Galante, grande produtor de filmes dos anos 1970-1980 do Cinema Brasileiro, um verdadeiro ícone do nosso cinema, para o bem e para o mal, diga-se de passagem. No elenco tem-se ainda: Kate Lyra, Aldine Muller, Nicole Puzzi, Rossana Ghessa e Patrícia Scalvi, as atrizes-modelos que compõem a parte sensual e mais erótica deste drama de Walter Hugo Khouri, que tem uma fotografia condizente com a ambiência do filme, realizada por Antonio Meliande, outro grande nome do cinema brasileiro da época. E trilha sonora de Rogerio Duprat -, que dispensa maiores apresentações, pois se trata de um grande músico não somente de trilhas musicais para filmes, mas também compositor e realizador de diversos discos clássicos da história da nossa música -, em que o jazz se sobressai em grandes melodias para acompanhar algumas cenas sexuais, conferindo sensualidade a muitas delas, e às vezes até sentimento de dor.
Já que, amor e-ou ódio (inveja), erotismo, prazer e-ou dor, sofrimento (aniquilação) são expressos simbolicamente, em grau maior ou menor, até no título do livro de Artes Plásticas lido por Marcelo, ‘Erotismo e Morte na(s) Arte(s)...’, que é (mais) uma forma de ler o filme, até por tudo que foi dito nesta crítica ora realizada. ”

segunda-feira, 8 de junho de 2020

(Imagens, Reino Unido, 1972, Robert Altman): (O Perigoso Terror: A Mente):


(Imagens, Reino Unido, 1972, Robert Altman):
(O Perigoso Terror: A Mente):   

Images (1972)

“Imagens é mais um ótimo filme do mestre da Sétima Arte, Robert Altman. Produzido no Reino Unido e lançado em 1972, com roteiro original do próprio cineasta, é mais uma obra ímpar da década de 1970 deste realizador, uma década mágica contemplada com diversos grandes filmes dirigidos por ele, por exemplo basta citar: M.A.S.H. (1970); Voar é Com os Pássaros (1970); Um Perigoso Adeus (1973); Nashville (1975); Oeste Selvagem (1976); Três Mulheres (1977), entre outros.    
Robert Altman teve uma carreira prolífica como cineasta, com um total de 90 créditos como diretor (segundo fontes do site IMDb), nem sempre de bons filmes, alguns muito contestados pelo público e pela crítica especializada, na maioria das vezes suas obras não foram sucessos de bilheteria, porém seus filmes estão resistindo muito bem a passagem do tempo, alguns bastante atuais e relevantes ainda, como mostrou a retrospectiva outrora feita pelos Centros Culturais do  Banco do Brasil, no ano de 2008, gerando intenso debate entre os frequentadores das sessões à época, um ano e meio após seu falecimento.
 Altman iniciou no ano de 1951 com a produção de um documentário em curta-metragem, seguindo por diversos outros curtas, entre filmes de ficção e documentário, além de dirigir episódios de séries de TV, entre segmentos do seriado de Alfred Hitchcock Apresenta e do Bonanza, também dirigindo filme televisivos. Seu primeiro longa-metragem é de 1957, Os Delinquentes. Dirigiu mais dois longas-metragens nos anos 1960, No Assombroso Mundo da Lua (1967) e Uma Mulher Diferente (1969). Sua consagração, enfim, veio em 1970 com o filme de guerra amalucado e politizado, antibelicista M.A.S.H., que inclusive originou um seriado de TV.
 Os anos 1980 foram muito irregulares para o cineasta estadunidense nascido em Kansas City, no ano de 1925, e falecido aos 81 anos de idade em 20 de novembro de 2006. Mesmo assim produziu filmes interessantes como James Dean, o Mito Sobrevive (1982), A Honra Secreta (1984) e Louco de Amor (1985). Seu grande retorno, porém, se deu na década seguinte com os filmes O Jogador e Short Cuts – Cenas da Vida, respectivamente lançados em 1992 e 1993. Seu último grande filme foi Assassinato em Gosford Park, de 2001, em que se inspira no filme de 1939, A Regra do Jogo, de Jean Renoir, para criticar as convenções e hipocrisias sociais das classes abastardas, mas também das desprovidas de riquezas, na eterna luta de classes. Seu último suspiro se deu no seu derradeiro ano de vida, em 2006, com o nostálgico, A Última Noite.
Depois deste sucinto panorama da magnífica obra de Robert Altman, voltemos a nos referir ao filme Imagens. Este é protagonizado por Susannah York que interpreta uma escritora de livros infantis, Cathryn -, a própria York escrevia à época das filmagens um livro voltado para aquele público, À Procura de Unicórnios -, que teve trechos lidos pela personagem no filme, como forma de sustentar o roteiro de Altman. E, por sinal, dando muito sentido as questões desenvolvidas no filme. Outra questão extra filmagem é que a atriz estava grávida à época e no início recusou o convite para realizar o filme, mas Altman incorporou este fato também ao roteiro.
Cathryn é uma personagem desconfiada da fidelidade do marido Hugh (Rene Auberjonois), ela possui distúrbios psiquiátricos esquizofrênicos; sua mente fragmenta-se em delírios e ela não distingue em muitos momentos o que é realidade e o que é fantasia. Cada vez mais vai se se emaranhando em ficções criadas por ela, o seu eu se divide em uma Cathryn do ‘passado’, ‘má’, ‘obscura’ e a Cathryn do ‘presente’, ‘boa’, ‘verdadeira’. Porém, esta maneira dicotômica de apresentar sua personagem é apenas uma tentativa momentânea de explicar sua personalidade dividida, pois esta divisão, tal qual o espelho do quarto, em um determinado momento, do filme reflete até três Cathyrns.
Cathryn é assombrada por si mesma, pelo fantasma de um amante Rene (Marcel Bozzuffi) e um amigo do marido que a assedia continuamente Marcel (Hugh Millais) e até pela suposta infidelidade do marido. Assim como a personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski, a personagem de Susannah York é aparentemente perturbada por traumas mnemônicos, que não são revelados ao espectador, mas são talvez uma das explicações para sua repulsão às três personagens masculinas do filme. Porém o maior medo de Cathryn, seu grande pesadelo e sua maior sombra a pairar sobre ela é ela mesma; os seus recônditos da mente e da alma a perturbá-la de uma maneira quase que perpétua.
A trilha sonora assustadora de John Williams, acentuada pelos ruídos produzidos por Stomu Yamashta, com a adição da paleta sombria do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond conferem à obra status de um verdadeiro pesadelo que se passa pela mente caótica de Cathryn. Já que não é necessário nenhum filme de terror com cenas explícitas de violência ou monstros tenebrosos para nos meter medo; nós somos nossos maiores fantasmas, o nosso maior pesadelo somos nós mesmos. Cathryn e Imagens nos sugere muito bem tal aspecto da psicologia humana. 
Uma questão interessante nesta fragmentação da protagonista é que todas as personagens têm o primeiro nome que se refere ao nome de um ator do filme: Hugh é o marido interpretado por Rene Auberjonois, Rene é o falecido amante interpretado por Marcel Bozzuffi, Marcel é o vizinho e amigo do casal vivido pelo ator Hugh Millais. O que reflete a fragmentação da realidade e da mente esquizofrênica de Cathryn. E, ainda tem a jovem Sussanah vivida por Cathryn Harrison, o que acentua ainda mais a questão e a circularidade do roteiro de Altman, a mostrar que a deterioração, as sombras que envolvem a mente da protagonista se perpetuam no conflito desequilibrado entre realidade e imaginação.     
Algumas cenas são inesquecíveis neste filme de Robert Altman, por exemplo: os telefones, quatro ao todo, em um apartamento, o que também é sintomático para mostrar a fragmentação da personalidade da personagem de York, além de início já revelar suas dúvidas quanto às traições do esposo.
E outra cena que será devolvida durante por parte do filme é a do quebra-cabeça, que é a própria mente se revelando e se esfacelando de Cathryn, que está à procura de escrever seu livro para crianças, com o título já por si só bastante imaginativo, À Procura de Unicórnios, e, principalmente, Cathryn está à procura de si mesma, como todos nós.”






Prêmios:
Nomeado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Dramática: John Williams (1973);
Nomeado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro – 1973;  
Melhor Atriz no Festival de Cannes – 1972 – Susannah York;
Concorreu à Palma de Ouro – 1972 – Festival de Cannes;
Indicado ao BAFTA de Melhor Fotografia – Vilmos Zsigmond – 1973;
Entre outras indicações.

domingo, 3 de maio de 2020

O Bebê Santo de Mâcon (Peter Greenaway, HOL, FRA, GBR, ALE, 1993):


                                                            The Baby of Mâcon (1993)



“O Bebê Santo de Mâcon é mais uma extravagância fílmica de Peter Greenaway. Mas como sempre o cineasta britânico nos tem muito a mostrar, seja no âmbito estético, seja no âmbito temático.
No que tange ao primeiro quesito, o filme é deslumbrante em suas cores berrantes, em especial, o uso do vermelho, que na paleta do diretor de fotografia Sacha Vierny, significa justamente a aberração que é a sociedade retratada na obra. Além de uma direção primorosa a conduzir o espectador pelos suntuosos cenários (assinados por Bavo Defurne), que são aproveitados com maestria por Greenaway, para nos apresentar a história, de maneira teatral: até parece que estamos dentro de um teatro, aparentemente apenas, pois algumas cenas foram filmadas na Igreja Velha de Amsterdã e outras em estúdio; e tem-se até direito a uma “plateia” a presenciar as ações das personagens principais, aquela plateia devidamente caracterizada por um figurino rico e deslumbrante, assim como o de todas as personagens, figurino assinado por Ellen Lens e Dien van Straalen .
Algumas personagens possuem falas que expressam a consciência de ‘ilusão de realidade’ e, portanto, de ‘ilusão ficcional’, assim sendo tem-se uma espécie de ‘metafilme’, ou ‘meta-teatro-cinema’. O que é ressaltado pelas vidas humanas (personagens) vividas como que em uma espécie de ‘teatro de ilusões’, e também pelas ‘máscaras sociais’, que marcam toda a sociedade e, portanto, toda a humanidade, no desenrolar infinito dos tempos. Ainda no aspecto técnico, o filme conta com uma excelente edição assinada por Chris Wyatt, que nos ajuda a compreender melhor as questões suscitadas pelo roteiro.
No que se refere ao segundo aspecto, que é justamente a questão temática, tem-se o roteiro assinado pelo próprio cineasta, que parte de uma premissa básica e que em outras mãos se tornaria um lugar-comum: a corrupção de toda uma sociedade. Tem-se de partida, um prólogo ditado pela ‘Fome’, que já nos alerta para o que filme mostrará em 2h de duração e em três atos, e mais um epílogo-circular, que se liga ao já narrado no prólogo pela mesma ‘Fome’: uma sociedade corrompida em todos os seus segmentos, nobreza, clero e plebe.
Uma sociedade marcada pela miséria, aberrações, enfermidades e iniquidades de todos os tipos. Uma terra marcada pela esterilidade e pela infertilidade não em produzir novos seres\rebentos, mas em gerar seres não corruptos e\ou corrompidos. Parte de supostos milagres perpetrados por um bebê santo, filho de uma virgem, porém tudo logo é percebido e verificado como uma grande farsa, que leva a mais e mais tragédias, demonstrando a corrupção do homem e da sociedade, que não é evidenciada pelo ‘é’, contudo, pelo ‘sendo’, ou melhor seria pelo ‘é’ e pelo ‘sendo’ ao mesmo tempo, a eterna dualidade dinâmica em devir. ”