terça-feira, 18 de novembro de 2014

.HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA - MÁRIO DE ANDRADE: “(PACIFISTA E CHEIO DE BOAS INTENÇÕES, MAS AINDA IMATURO).”.

.HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA - MÁRIO DE ANDRADE:

“(PACIFISTA E CHEIO DE BOAS INTENÇÕES, MAS AINDA IMATURO).”

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).



“Livro de poemas de Mário de Andrade, Há uma gota de sangue em cada poema, publicado em 1917, sua obra de estreia, no qual o poeta dá seus primeiros passos na poesia, tanto que seus poemas ainda são "imaturos" e muito aquém do que ele viria a produzir, posteriormente.

Essa obra, o próprio Mário a retirou das suas Poesias Completas e a “colocou” em um volume à parte, conhecido e intitulado pelo próprio escritor como "Obra Imatura", pelo reconhecimento do próprio poeta de que sua poesia ainda era “imatura” naquele livro; nesse volume reuniu ainda os contos de Primeiro andar e o livro de crítica A escrava que não era Isaura.

 Mário de Andrade escreve Há uma gota de sangue em cada poema, como um manifesto pacifista, criticando, atacando e refletindo os horrores da Primeira Guerra Mundial, que se arrastava na Europa, desde 1914, só terminando um ano depois à publicação do livro do poeta, 1918.

Nos poemas, o eu-lírico demonstra um anseio coletivo, no qual todos queriam paz, harmonia, união, amor para o mundo e para o homem, parecia que quem não queria essa Cosmogonia era, justamente, os governantes, militares e líderes mundiais da época.

O título é muito sugestivo, pois, expressa e sugere a guerra, o horror, a destruição e a desarmonia através da palavra "sangue", que invade e mancha a vida, a humanidade, a sociedade, a harmonia e a paz, que são representadas pela palavra "poema", já que para os modernistas a literatura devia servir como reflexo da sociedade contemporânea, daí o "poema", ou seja, a vida do homem, suja e manchada pela guerra e destruição do "sangue" derramado pelos jovens soldados (inocentes nesse combate de generais sentados, em suas mesas, traçando os destinos da Humanidade, à custa de vidas inocentes dos jovens retirados do lar à força, que perdiam suas vidas que se esvaíam nas trincheiras da Guerra).

A poesia e o “Poema” eram as “armas” artísticas que gritavam e pediam paz e harmonia - a consciência da sociedade e da humanidade, que era captada e transmitida pelo poeta e pelo eu-lírico nos poemas, que eram gritos de revolta, mas de revolta antibelicista e à favor da Cosmogonia, da união dos povos e das nações.

Mário de Andrade escreve uma obra de forte ativismo político (este ativismo seria marca modernista nos primeiros anos de movimento), antibelicista e de luta pela paz mundial. Embora os poemas, esteticamente e estilisticamente, ainda sejam marcados pela imaturidade, presos ao convencionalismo das tradições literárias do século anterior, pré-modernistas, portanto, já prenunciavam um dos maiores vanguardistas modernistas da Literatura Brasileira.

Um dos maiores poetas combativos do Primeiro Modernismo nacional, participante ativo da Semana de Arte Moderna, realizada em 1922. E, que junto com Oswald de Andrade, foram os líderes de um movimento que reunia vários escritores e artistas de outras áreas, que lutaram pela renovação modernista das Artes e Letras nacionais. E que se consolidaria na Geração Modernista seguinte, que se inicia no ano de 1930 ( essa classificação é estanque e reducionista, mas serve de parâmetro, para a análise aqui pretendida).

 A Geração Modernista que se inicia nos anos 30 do século XX, ficou conhecida pela alcunha de “romance de 30”, ou, denominado por alguns críticos literários, de forma reducionista, de “romances regionalistas” - já prenunciados em, 1928, pelo romance-marco do movimento (mas débil literariamente) A bagaceira, de José Américo de Almeida; e, pelo Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre, lançado a essa época. Mas aqui é assunto, para outro post.

Mário lançaria livros por toda década de 1920, que demonstram a modernidade almejada por todos os artistas de 22. Seu estilo já modernista foi adquirido pelas leituras dos clássicos europeus e pela leitura dos manifestos e obras das vanguardas artísticas europeias do início do século XX, que se fazem presentes, nos poemas de Mário de Andrade, de forma “deglutida” como sugerira Oswald de Andrade na Poesia Pau-Brasil e no Manifesto da Antropofagia.

Em suma, basta citar os livros de Mário, Pauliceia desvairada, Clã do Jabuti, Losango cáqui, etc., estes livros de poemas modernistas; as críticas revisionistas da Literatura Brasileira e sua história (e de outras artes também, Mário conhecia muito bem, por exemplo, artes plásticas e música), suas críticas, lógico, sempre pautadas pela marca modernista que o definia.

Os livros de contos e crônicas também são fontes inesgotáveis de modernidade. E os romances Amar, verbo intransitivo e, em especial, o romance-síntese do primeiro modernismo brasileiro, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

“O romance antropofágico”, por excelência, segundo, Oswald de Andrade - não sei se afirmado com as palavras que usei entre aspas, mas que Oswald decretou criticamente algo nesse sentido à publicação daquele romance, o que até Mário tentou recusar, essa tal afirmação do amigo-poeta, ora vejam, em sua conhecida humildade.

Enfim, Mário de Andrade começou titubeando, “imaturo”, mas, logo se transformou em um dos nossos maiores e mais conscientes modernistas da Literatura Brasileira e, um dos maiores escritores em Língua Portuguesa do século XX.”.


P.s.: conferir post publicado nesse mesmo blog, em 04/11/2014, em que se fala mais de Modernismo, Mário de Andrade, Semana de Arte Moderna de 1922 e é abordado mais detalhadamente o romance Macunaíma, de Mário. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

ALICE NAS CIDADES, DE WIM WENDERS. “(TRAVESSIA EXISTENCIAL.)”

ALICE NAS CIDADES, DE WIM WENDERS.

“(TRAVESSIA EXISTENCIAL.)”

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO). (CONTÉM SPOILLERS.).

“Alice nas cidades”, de 1974, é um filme magistral de Wim Wenders. Trata-se de uma obra que define as principais características estéticas que marcariam e marcam a filmografia do diretor desde então, já que o diretor alemão continua, em plena atividade, sem perder o vigor de seu estilo cinematográfico.

A obra em tela faz parte de uma trilogia, a “Trilogia de road-movies”, formada por “Movimento em falso”, “Alice nas cidades” e “No decurso do tempo”.

“Road-movie” é um tipo de filme marcado por deslocamentos constantes das personagens, passando de cidade em cidade, seja de carro, motocicleta, barco, navio, bicicleta, etc., mas também as personagens estão, geralmente, passando por uma crise existencial.

Essa trilogia sempre foi protagonizada pelo mesmo ator, que fez vários outros filmes sob a direção de Wenders. A personagem desse ator, em “Alice nas cidades”, é um escritor que vive um bloqueio criativo e não consegue escrever o artigo que o jornal lhe encomendou.

Ele que está residindo nos EUA, decide voltar para a Alemanha, seu país natal. Começa sua viagem (física e psicológica). Física, pois pega o carro rumo a New York para ir ao aeroporto e de lá voltar para Berlim. Mas a viagem existencial inicia justamente a partir do momento que passa a ter que cuidar de Alice que surge em sua vida, de uma forma fortuita.

Alice é apenas uma garota de seus oito anos, abandonada pela mãe. Começa o road-movie envolvendo os dois, uma viagem de descobertas existenciais para os dois, sendo que o protagonista aprende muito com a inocência e a perspicácia da garotinha.

Na verdade, a personagem principal vive um vazio interior e falta-lhe um sentido em sua existência. O seu vazio reflete uma crise existencial, uma alteridade e uma identidade fragmentadas. “Ele tem medo de sentir medo.” Suas memórias são representadas por ele, quando o mesmo fotografa tudo que ver, mas seus “instantâneos”, para ele, não representam a realidade que ele vira, pois o próprio justifica “a realidade muda da hora que tirou a foto para o segundo seguinte que a foto é revelada”. Naturalmente, o tempo passou e é inexorável, ficam apenas vestígios de um tempo, mesmo paralisado, quando se compara o espaço fotografado/revelado com o mesmo espaço só que agora no “presente”, algo se esvaiu.

E, isso, deixa o protagonista agoniado e com um sentimento de vazio e de que algo se perdeu em sua existência, já fragmentada. Assim, a encruzilhada de sua existência e de sua travessia, exige um tour de force por várias cidades, junto à Alice, que surge como um ser que lhe dará um norte para sua existência.

São de Alice reflexões profundas, saídas da boca de uma menina de oito anos, que demonstra, mais uma vez, a sabedoria das crianças. Para ela, os sonhos não deveriam existir, pois são ilusões, já que nunca se tornam realidade.

Porém, logo em seguida, “ela afirma que num sonho que teve na noite anterior, fora obrigada nele a ver um filme de terror, mesmo sem o querer vê-lo.” Essa frase mostrou ao protagonista e também nos mostra, aos telespectadores, que mesmo em nossas existências, por mais difíceis e complicadas que sejam, e às vezes vazias que estejam momentaneamente, ou talvez nós estejamos passando por crises existenciais passageiras, mas é possível enfrentá-las.

É um terror, é angustiante, é um pesadelo, o filme mesmo do qual estamos falando, mostra muito bem essa agonia da personagem, contudo tem que ser enfrentado, mesmo que a derrota se imponha, mas você realizou a travessia, e isso é o que importa.

O filme é tão rico que tem um caráter interdiscursivo com as histórias de “Alice”, Alice no país das maravilhas e Alice no país dos espelhos. Escritas por Lewis Caroll.

Tem também um caráter metalinguístico, pois a própria história narrada pelo filme vira o artigo do jornalista, que passava por um bloqueio criativo.


Enfim, um filme genial. Que merece ser visto e revisto por todos.”

Máscara da Traição, de Roberto Pires; Pedro Diabo Ama Rosa Meia Noite, de Miguel Faria Jr.: “(DOIS FILMES DE GÊNERO FEITOS NO BRASIL, NOS ANOS 60, MUITO ANTES DE TROPA DE ELITE, E QUE SÃO EXCELENTES PELÍCULAS POLICIAIS TUPINIQUINS.).”.

Máscara da Traição, de Roberto Pires;
Pedro Diabo Ama Rosa Meia Noite, de Miguel Faria Jr.:

“(DOIS FILMES DE GÊNERO FEITOS NO BRASIL, NOS ANOS 60, MUITO ANTES DE TROPA DE ELITE, E QUE SÃO EXCELENTES PELÍCULAS POLICIAIS TUPINIQUINS.).”

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO).


“Excelente filme policial brasileiro de 1969, com direção de Roberto Pires. Este que dirigiu o primeiro longa baiano em 1958, Redenção, também um filme de teor policial/existencialista, iniciando, assim, o Ciclo Baiano de Cinema (1959-1963), junto com Glauber Rocha, Geraldo del Rey, Othon Bastos, Helena Ignez, Antônio Pintanga.

Pires foi produtor do primeiro longa-metragem de Glauber, Barravento (1961). No mesmo ano, Pires dirigiu o filme que talvez seja sua obra-prima, pelo menos a mais politizada (em tempos conflituosos no Brasil, três anos depois ocorreria o Golpe de Estado Militar), o filme é a pérola: A Grande Feira. Aqui estão todas as principais características estéticas do cineasta e algumas que viriam a ser o conjunto de ideais artísticos e políticos, do que viria a ser o Cinema Novo. Locações reais, no meio da multidão, atores amadores junto a atores profissionais, a maioria em início de carreira. Planos abertos de lugares amplos com muita gente em movimento.

Isso se repete em Máscara da traição (1969), já findo o ciclo baiano de cinema e, já filmando na cidade do Rio de Janeiro, agora Roberto Pires trabalha com um grande elenco. O casal na tela e na vida real, Tarcísio Meira e Glória Menezes, junto a Cláudio Marzo, Flávio Miglaccio, Milton Gonçalves, etc.

Os planos abertos no Maracanã em dias de jogo, o estádio lotado por anônimos, dois jogos, um no começo e outro no final do filme: o primeiro é um Vasco e Fluminense; o segundo, um Flamengo e Botafogo, os quatro clubes grandes da cidade do Rio. O vai-e-vem, as reações dos espectadores captadas pela fotografia exemplar de Afonso Beato.

O tema do filme é o grande golpe, o crime perfeito idealizado por um casal de amantes, o de roubar a renda de um jogo com uma bilheteria bastante volumosa. Um crime perfeito, será? Há ainda espaço para reflexões sobre a arte x a burocracia, frustrações de artistas, que trabalham como burocratas/contadores, é o caso da personagem de Marzo, mas que são verdadeiros artistas (aspecto muito explorado na literatura brasileira dos anos 30, vide Angústia, de Graciliano Ramos, no romance do escritor alagoano, um jornalista, Luís da Silva é frustrado, pois é um grande escritor literário, mas vive de matérias jornalescas pagas; ou peguemos O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos; no romance, Belmiro é um burocrata frustrado também, mas outro excelente escritor.).

A personagem de Marzo, no caso da película, é um contador das rendas do Maracanã, mas é um artista plástico por excelência. Outra questão é o conflito entre as classes médias mais humildes e as classes da alta burguesia carioca, com seus valores e comportamentos arrogantes. Uma película pouco conhecida, mas que merece uma (re)-visão.

Outra questão é referente à edição do filme que é primorosa, mantendo o suspense até o fim sobre o desfecho do crime. Uma montagem parecida com outro filme brasileiro que vi recentemente: Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite, também um filme policial, dirigido por Miguel Faria Jr, também de 1969. Com Paulo César Pereio, Hugo Carvana (falecido recentemente), Milton Gonçalves, Suzana Magalhães, Mário Lago, Wilson Grey, etc.

As duas montagens se parecem em termos estéticos: Uly Mantel é o montador de Máscara da traição, e o editor de Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite é Gustavo Dahl. Dois estupendos profissionais, que colaboraram para o êxito desses dois excelentes filmes policiais brasileiros; só para registro a fotografia de Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite é de Mário Carneiro. (Isso tudo muito antes de Tropa de Elite, Cidade de Deus, Padilha, Meirelles, etc.).

E tem gente que tem preconceito contra a nossa cinematografia...

Para finalizar, reparem no primeiro jogo de Máscara da Traição: o escritor Nelson Rodrigues está na arquibancada (como ele mesmo, torcendo pelo seu tricolor) e no segundo jogo, a presença ilustre, nas cadeiras, da Rainha Elizabeth, para acompanhar a peleja futebolística acirradíssima.

Ah, lembrei-me de O Segredo dos seus olhos, Oscar de Melhor filme estrangeiro para a Argentina, dirigido por Campanella, e tendo como protagonista o ator Ricardo Darín, a questão é referente aos aspectos de montagem e fotografia em estádios de futebol, multidões, etc. são similares? Não sei responder. Lógico que o diretor argentino possuía mais recursos técnicos, mais modernos e mais recursos financeiros. Contudo, em 69, no Brasil, dois cineastas e dois editores fizeram milagre. Por isso o respeito que devemos ter por esses dois excelentes filmes brasileiros em todos os aspectos, inclusive, se tratando de filmes com carga dramática, que muito filme hollywoodiano da primeira década, do século XXI, não possuem.


De Miguel de Faria Jr. com Pereio, Carvana e participações especiais de Grey e Milton Gonçalves: Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite é um filme que retrata a marginalia dos anos 60/70, de um país desesperançado política, econômica e socialmente. Época de censura à liberdade de expressão, Ditadura Militar, muitos não tinham oportunidades e por serem malandros (não gostarem de “dar duro”), caíam nos assaltos, nos sequestros por dinheiro, roubos de casas, estupros, cafetinagem, assassinatos, etc. Como forma de sobreviver nesse país sem perspectiva (mudou muito comparado a hoje, século XXI, 2014?). Poucos têm muito, muitos têm pouco, essa é a revolta de Pedro Diabo - que só tem um sentido na vida agradar e amar Rosa Meia Noite, sua vida e grande amor. Sem a amada a existência de Pedro Diabo perde sentido de ser. Filme duro, mas necessário até hoje.”

OS CORUMBAS – AMANDO FONTES “(O SOCIALISMO EM SERGIPE NOS ANOS 1930.).”

OS CORUMBAS – AMANDO FONTES

“(O SOCIALISMO EM SERGIPE NOS ANOS 1930.).”

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO.).


“Romance que poderia facilmente ser incluído meramente no chamado Romance de 30 do século XX, grupo este que surgiu na Literatura Brasileira durante o movimento modernista entre nós, na década de 30. Porém, o autor santista, mas radicado em Aracaju, capital sergipana, Amando Fontes, transforma e escreve um romance atípico a esses padrões, já que se pode afirmar que o ponto de vista da narração é do proletariado sergipano, fato singular na literatura nacional até então (1933) – O Moleque Ricardo, de José Lins do Rego viria à edição apenas dois anos depois – Os corumbas, do romancista Amando Fontes, portanto, tem seu lugar na História da Literatura Brasileira, apesar de não ser uma grande obra em termos estéticos e em termos do uso da linguagem literária.

Os corumbas é um romance social que narra a trajetória da família de retirantes chefiada por Geraldo e Sá Josefa Corumbas, que saem do engenho no interior de Sergipe e migram para a capital Aracaju, para se empregar nas fábricas têxteis da cidade. Duas filhas trabalham nelas, mais o pai Geraldo, a mãe cuida da casa e as duas filhas mais novas estudam visando um futuro melhor. Um dos dois filhos homens morreu ainda menino e o que sobreviveu, Pedro, desenvolve ideal comunista e passa a organizar o movimento sindical das fábricas de tecidos – e numa greve termina por ser preso e exilado para o Rio de Janeiro.

Essas são as desventuras da família e outras mais que são narradas no romance, que mostram a tão árdua - e até então pouco apresentada pelos nossos escritores – vida do proletariado brasileiro; sem contar que aborda também a questão dos retirantes, contudo essa abordagem não era novidade na literatura nacional. O autor Amando Fontes

levou a cabo foi uma biografia coletiva dos humildes (...). Com a vantagem de tê-lo feito sem o aborrecimento de uma atitude de partido, que por certo daria ao romance conclusões que não aquelas que vêm expressas no romance (...). Aqui deixou-se a liberdade ao leitor de ser ele a julgar e a concluir. E isso em romance social não é muito comum, ia mesmo dizer, que era raríssimo. (CÉSAR, Amâncio Apud FONTES, 2003, orelha do livro).


O mesmo crítico Amâncio César afirma, ainda, em sua obra Literatura pelo caminho – alguns romancistas brasileiros (Lisboa, 1958), que o romancista brasileiro se aproxima muito da estética neorrealista do romance português do século XX.

Quanto à linguagem da obra de Amando Fontes aquela pende para o coloquial e para o regional e para o linguajar típico dos operários das fábricas de tecidos sergipanas dos anos 30 do século passado. Uma linguagem não tão elaborada poeticamente por parte do autor, mas realística e verossímil ao que se narra no romance, tendendo para a língua que se fala no nordeste brasileiro (Sergipe), entre retirantes e proletários, uma linguagem coloquial e até muitas vezes vulgar.

Portanto, a obra não se destaca pela elaboração poética da mesma, mas pelo seu caráter inovador temático (o tema do proletariado) e, principalmente, por ser narrada sob a ótica dos operários e retirantes.

Um romance social, o qual na minha leitura particular faz com que eu pense, em alguns momentos, que o romancista Amando Fontes foi buscar nas tradições do Naturalismo científico francês do século XIX, mais especificamente no de Zola e seu romance máximo, Germinal, matéria para seu livro, porém, essa é apenas uma impressão, que pode não ser verdadeira, ou pode ser apenas uma intertextualidade forçada e indireta.

Os corumbas - embora menor em termos literários e poéticos, em relação ao romance francês citado - são um romance importante e inovador tematicamente para a Literatura Modernista Brasileira. E além do mais, como já afirmado mais acima, não pode ser meramente classificado de maneira estanque como um “Romance de 30” ou como “romance regionalista” pura e simplesmente, pois isso depõe contra suas qualidades romanescas.”.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:


FONTES, Amando. Os corumbas. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

domingo, 16 de novembro de 2014

CECÍLIA MEIRELLES - VIDA E OBRA: "(A poetisa das sutilezas.)".

CECÍLIA MEIRELLES - VIDA E OBRA:

"(A poetisa das sutilezas.)"

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).


 Introdução:

“Cecília Meirelles é, para muitos críticos e historiadores literários, uma das maiores escritoras brasileiras. Uma brilhante poetisa. Uma das autoras mais importantes da literatura em Língua Portuguesa.

 Biografia:

Cecília nasceu no Rio de Janeio em 1901 e faleceu na mesma cidade, no ano de 1964. Passou a infância no Rio junto à avó materna, açoriana. Formando-se professora primária, dedicou-se por longos anos ao magistério, de que foi fruto o belíssimo livro para curso primário Criança, Meu Amor. No início da sua carreira literária aproximou-se do grupo de Festa dirigido por Tasso da Silveira. Anos depois, prefiriria trilhar caminhos pessoais, mais modernos. Ensinou Literatura Brasileira nas Universidades do Distrito federal (1936-38) e do Texas (1940). Viajou longamente pelos países de sua predileção, México, Índia e sobretudo Portugal, onde viu reconhecido o seu mérito antes mesmo de consagrar-se no Brasil como uma das maiores vozes poéticas da língua portuguesa contemporânea. (Trecho extraído de História Concisa da Literatura Brasileira de Alfredo Bosi, 1994).

Características Estilísticas:

Cecília é uma poetisa de cunho intimista, que produziu poemas que chegam aos limites da música abstrata. A escritora distancia-se da realidade imediata e direciona os processos imagéticos para a sombra, para o sentimento da ausência e do nada.

Mesmo Cecília ligada ao grupo Festa, no início da carreira literária, segundo Alfredo Bosi, não se deve relacioná-la ao neo-simbolismo que aquele grupo pregava, pois Cecília renegaria essa fase inicial da carreira, ao excluir os livros desse período da sua Obra Poética. Porém é inegável, que a escritora cultuava Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, e há influências nítidas deles nos primeiros versos da escritora, então na penumbra. Mas, vale ressaltar, que das propostas do grupo Festa, nada restou na temática da poetisa, salvo, talvez, certo tradicionalismo nas opções estéticas da maturidade.

Para Cecília, “a poesia é grito, mas transfigurado” e, a transfiguração faz-se no plano da expressividade, e a escritora sempre foi atenta à riqueza do léxico e dos ritmos portugueses, tendo sido talvez, nas palavras de Bosi (1994), o poeta moderno que modulou com mais felicidade os metros breves.

Cecília Meirelles preferiu algumas vezes o uso dos versos livres, porém, sempre os usando para expressar um tom de fuga e de sonho, temas fundamentais que acompanham toda sua lírica.
   
Obras:

Cecília Meirelles estreou com Espectros (1919), coleção de sonetos de cunho parnasiano, a maioria sobre nomes importantes da História.

Em 1923, publicou Nunca mais... e Poema dos poemas, livro de tom decadente, cuja primeira parte é medida e rimada; na segunda, sonha com a vinda do eleito, em versos curtos, sem rima, aparentemente livres.

Viagem (1939), premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1937, confirma sua capacidade lírica e técnica, como inovadora pelo que sua poesia ostenta de compreensão total do mundo e da vida. Seu canto que transita entre a simplicidade das trovas ao mais denso hermetismo nalgumas composições, é algo de ascético, desalentado e desesperançoso.

Como a vida da poetisa foi, em determinado momento, marcada por situações trágicas, não é de se admirar que os versos de Cecília Meirelles mostrem, por vezes, certa exaustão, certa impossibilidade de ainda alegrar-se ou entristecer-se, certo aturdimento que quase equivale a ceticismo.

Tecnicamente, a poesia de Viagem, voz grave da vida, do sentimento e do espírito, espalhando cinzas sobre o mundo, revela domínio do verso metrificado ou livre, singularizando-a, ainda, o uso frequente da assonância – processo adotado pela escritora no resto de sua carreira literária.

Outros livros de destaque de Cecília Meirelles são: Mar absoluto (1945), Retrato natural (1949). Amor em Leonoreta (1952) e logo depois Doze noturnos da Holanda e O aeronauta (1952) – coleção de poemas gerados por experiências de viagem e de voo. Publica o Romanceiro da Inconfidência (1953, ver box). Ainda publicou, Pequeno oratório de Santa Clara (1955), no qual narra os principais fatos da vida da santa, em virtude das comemorações do sétimo centenário de Clara. No ano de 1955, foram publicados também: Pistóia e Espelho cego, seguindo-se Canções (1956) e Romance  de Santa Cecília (1957). Obra poética (1958) traz todos os livros anteriores, exceto os três primeiros, e inclui inéditos. Metal rosicler sairia depois (1960), bem como Poemas escritos na Índia (1961). Nalgumas composições de Solombra (1963) tende tanto para o pó, que não se sabe se ela imagina a morte ou se de fato a vive em espírito.”


ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA – CECÍLIA MEIRELES:


“Romanceiro da Inconfidência” é um poema épico/lírico belíssimo, que por meio de pequenos poemas conta, resgata e louva o movimento conhecido como Inconfidência Mineira, fato importantíssimo da História Brasileira.

O eu-lírico exalta muito a figura do alferes Tiradentes, mais que as dos outros inconfidentes, já que para o eu-lírico, Tiradentes era o mais dedicado ao movimento de independência política da colônia brasileira em relação à metrópole portuguesa e, mostra muito bem que foi ele o que sofreu mais com a retaliação portuguesa, servindo, como deixa a entender o eu-lírico, como bode expiatório de todo movimento, até mesmo por ser o mais pobre dos rebeldes, recebendo uma pena severa de enforcamento, esquartejamento e tendo os “pedaços” do seu cadáver expostos em vários lugares de Vila Rica (atual Ouro Preto), onde se deu o movimento inconfidente.

Enquanto os outros revoltosos tiveram penas mais brandas, como exemplo, podem-se citar os poetas-inconfidentes Tomás Antônio Gonzaga (degredo para Moçambique), no livro, a poetisa, por meio do eu-lírico, mostra muito bem os aspectos da obra mais importante daquele poeta, “Marília de Dirceu”; outro poeta-inconfidente, Alvarenga Peixoto é preso e degredado, o eu-lírico também mostra de forma bastante expressiva, a paixão daquele (no caso, o Pastor Árcade) por Bárbara, que era sua Musa Inspiradora; outro poeta-inconfidente é Cláudio Manoel da Costa, que é preso e segundo os relatos oficiais, suicidou na prisão, mas corre também a versão de que ele foi assassinado.

Cecília mostra todo esse conteúdo histórico, de forma poética, de rara beleza na literatura brasileira, uma obra-prima e ímpar. Os versos rimam belissimamente, sem exageros e sem rimas forçadas, os versos são de uma sutileza lírica, enfim.

Cecília também mostra outros aspectos históricos da época, eis alguns: as figuras de Chica da Silva, de Chico Rei, de Maria I, a Louca, a do traidor Joaquim Silvério, entre outras. Mostra muito bem o auge e a decadência do Ciclo do Ouro (prata, diamantes e pedras preciosas, por tabela), que modificou a vida de Minas Gerais, no século XVIII.

Aborda também a figura do mítico Rio das Mortes, no qual eram minerados os metais preciosos, entre outros fatos. Mas nunca a autora cai no pedantismo dos livros e das aulas de História, o “Romanceiro da Inconfidência” é todo ele um belíssimo poema em louvor e em homenagem a todos os inconfidentes que lutaram pela liberdade do nosso país, em especial, o alferes Tiradentes!”.


Conclusão:



“Na visão de Péricles Eugênio da Silva Ramos (em artigo reunido no volume cinco d´A Literatura no Brasil, organizada por Afrânio Coutinho e, publicada entre 1955-1968), o conjunto dos livros, e apenas alguns deles já chegariam para afirmar que: Cecília Meirelles é a mais alta figura que já surgiu na poesia feminina brasileira, e, sem distinção de sexo, um dos grandes nomes de nossa literatura.”

"OS RATOS", de DYONELIO MACHADO: “(A OPRESSÃO DO CAPITALISMO SOBRE O HOMEM: A PARANOIA EM BUSCA DO CAPITAL.)”.

OS RATOS

DYONELIO MACHADO:

“(A OPRESSÃO DO CAPITALISMO SOBRE O HOMEM: A PARANOIA EM BUSCA DO CAPITAL.)”.

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).


“Romance publicado em 1934, que apesar de cronologicamente encaixar-se na Geração Modernista de 30, esse fato não o enquadra totalmente na mesma, pois o estilo de Dyonelio Machado está à frente do seu tempo, ele é, em termos de escrita, já um escritor contemporâneo da Literatura Brasileira. E para que serve classificações estanques? Apenas para limitar o poder expressivo da obra literária, só. Então deixemos isso de lado, um pouco!

“Os Ratos” é a obra-prima mais conhecida de Dyonelio Machado. O romance já parte de uma discussão entre a personagem principal, Naziazeno e seu leiteiro, este reclamando do fato daquele não o pagar a certo tempo. A partir de então, Naziazeno passa o dia inteiro atrás do dinheiro para pagar a dívida.

O narrador em terceira pessoa mostra as andanças do protagonista pela cidade. A história se passa em apenas 24 horas, do amanhecer até a madrugada do dia seguinte, narrando, unicamente, a busca de Naziazeno em saldar a dívida.

O livro critica, irônica e simbolicamente, o capitalismo, pois em todo o romance, o capital (dinheiro) é almejado pelo protagonista, ou seja, o capital é a obsessão do enredo e das personagens, e oprime a estas, em especial, ao protagonista.

Ou seja, o escritor Dyonelio Machado buscou criticar o capitalismo e a opressão do capital (dinheiro) sobre as pessoas.


“Os Ratos” é um romance de leitura fácil e agradável e que flue naturalmente, inclusive, o romancista o escreveu em apenas 20 noites.”

sábado, 15 de novembro de 2014

QUASE-MEMÓRIA, QUASE-ROMANCE, DE CARLOS HEITOR CONY: “(MEMÓRIAS ROMANCEADAS AO BEL-PRAZER DO NARRADOR-AUTOR).”.

QUASE-MEMÓRIA, QUASE-ROMANCE, DE CARLOS HEITOR CONY:

“(MEMÓRIAS ROMANCEADAS AO BEL-PRAZER DO NARRADOR-AUTOR).”

(RESENHA POR RAFAEL VESPASIANO).

“É um dos melhores romances de Carlos Heitor Cony, por muitos críticos, considerada sua obra-prima. Um quase romance, como o próprio subtítulo expressa. Quase-memória é um romance semiautobiográfico de Cony, no qual o autor "romanceia" suas memórias do seminário e sua conflituosa relação com o pai.

Livro sensível, delicado e ponto culminante da ficção brasileira do século XX. Um romance que "cheira" sinestesicamente a resquícios e fragmentos mnemônicos, num fluxo ininterrupto de memórias, que são avivadas pela mente, pela rememoração, pelo fluxo de consciência e pelas sensações apreendidas pelos cinco sentidos, à maneira simbolista, que só a genialidade de Cony seria possível conceber.


Pois, transforma as lembranças dolorosas em confissões suaves e prazerosas, num processo de libertação e redenção do passado e da sua relação com o pai, que sempre fora conflitante - mas é redimida pelo testemunho das memórias que vêm à tona no relato semiautobiográfico do narrador-autor (persona ficta), em sentido epifânico, revelador e redentor de forma mnemônica e sinestésica.”.