Máscara
da Traição, de Roberto Pires;
Pedro
Diabo Ama Rosa Meia Noite, de
Miguel Faria Jr.:
“(DOIS
FILMES DE GÊNERO FEITOS NO BRASIL, NOS ANOS 60, MUITO ANTES DE TROPA DE ELITE,
E QUE SÃO EXCELENTES PELÍCULAS POLICIAIS TUPINIQUINS.).”
(CRÍTICA POR
RAFAEL VESPASIANO).
“Excelente filme policial brasileiro de 1969, com direção
de Roberto Pires. Este que dirigiu o
primeiro longa baiano em 1958, Redenção,
também um filme de teor policial/existencialista, iniciando, assim, o Ciclo Baiano de Cinema (1959-1963),
junto com Glauber Rocha, Geraldo del Rey,
Othon Bastos, Helena Ignez, Antônio Pintanga.
Pires foi produtor do primeiro longa-metragem de Glauber, Barravento (1961). No mesmo ano, Pires dirigiu o filme que talvez seja sua obra-prima, pelo menos a
mais politizada (em tempos conflituosos no Brasil, três anos depois ocorreria o
Golpe de Estado Militar), o filme é a pérola: A Grande Feira. Aqui estão todas as principais características
estéticas do cineasta e algumas que viriam a ser o conjunto de ideais
artísticos e políticos, do que viria a ser o Cinema Novo.
Locações reais, no meio da multidão, atores amadores junto a atores
profissionais, a maioria em início de carreira. Planos abertos de lugares
amplos com muita gente em movimento.
Isso se repete em Máscara
da traição (1969), já findo o ciclo
baiano de cinema e, já filmando na cidade do Rio de Janeiro, agora Roberto Pires trabalha com um grande
elenco. O casal na tela e na vida real, Tarcísio
Meira e Glória Menezes, junto a Cláudio
Marzo, Flávio Miglaccio, Milton Gonçalves, etc.
Os planos abertos no Maracanã em dias de jogo, o estádio
lotado por anônimos, dois jogos, um no começo e outro no final do filme: o
primeiro é um Vasco e Fluminense; o segundo, um Flamengo e Botafogo, os quatro
clubes grandes da cidade do Rio. O vai-e-vem, as reações dos espectadores
captadas pela fotografia exemplar de Afonso
Beato.
O tema do filme é o grande golpe, o crime perfeito
idealizado por um casal de amantes, o de roubar a renda de um jogo com uma
bilheteria bastante volumosa. Um crime perfeito, será? Há ainda espaço para
reflexões sobre a arte x a burocracia, frustrações de artistas, que trabalham
como burocratas/contadores, é o caso da personagem de Marzo, mas que são
verdadeiros artistas (aspecto muito explorado na literatura brasileira dos anos
30, vide Angústia, de Graciliano Ramos, no romance do escritor
alagoano, um jornalista, Luís da Silva é frustrado, pois é um grande escritor
literário, mas vive de matérias jornalescas pagas; ou peguemos O
amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos; no romance, Belmiro é um burocrata frustrado também,
mas outro excelente escritor.).
A personagem de Marzo,
no caso da película, é um contador das rendas do Maracanã, mas é um artista
plástico por excelência. Outra questão é o conflito entre as classes médias
mais humildes e as classes da alta burguesia carioca, com seus valores e
comportamentos arrogantes. Uma película pouco conhecida, mas que merece uma (re)-visão.
Outra questão é referente à edição do filme que é
primorosa, mantendo o suspense até o fim sobre o desfecho do crime. Uma
montagem parecida com outro filme brasileiro que vi recentemente: Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite, também
um filme policial, dirigido por Miguel
Faria Jr, também de 1969. Com Paulo
César Pereio, Hugo Carvana (falecido recentemente), Milton Gonçalves, Suzana Magalhães, Mário Lago, Wilson Grey, etc.
As duas montagens se parecem em termos estéticos: Uly Mantel é o montador de Máscara da traição, e o editor de Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite é Gustavo Dahl. Dois estupendos
profissionais, que colaboraram para o êxito desses dois excelentes filmes
policiais brasileiros; só para registro a fotografia de Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite é de Mário Carneiro. (Isso tudo muito antes de Tropa de Elite, Cidade de Deus,
Padilha, Meirelles, etc.).
E tem gente que tem preconceito contra a nossa
cinematografia...
Para finalizar, reparem no primeiro jogo de Máscara da Traição: o escritor Nelson Rodrigues está na arquibancada (como ele mesmo,
torcendo pelo seu tricolor) e no segundo jogo, a presença ilustre, nas
cadeiras, da Rainha Elizabeth, para acompanhar a peleja futebolística
acirradíssima.
Ah, lembrei-me de O Segredo dos seus olhos, Oscar de
Melhor filme estrangeiro para a Argentina, dirigido por Campanella, e tendo como protagonista o ator Ricardo Darín, a questão é referente aos aspectos de montagem e
fotografia em estádios de futebol, multidões, etc. são similares? Não sei
responder. Lógico que o diretor argentino possuía mais recursos técnicos, mais
modernos e mais recursos financeiros. Contudo, em 69, no Brasil, dois cineastas
e dois editores fizeram milagre. Por isso o respeito que devemos ter por esses
dois excelentes filmes brasileiros em todos os aspectos, inclusive, se tratando
de filmes com carga dramática, que muito filme hollywoodiano da primeira década,
do século XXI, não possuem.
De Miguel de Faria Jr. com
Pereio, Carvana e participações especiais de Grey e Milton Gonçalves: Pedro Diabo ama Rosa Meia Noite é um
filme que retrata a marginalia dos anos 60/70, de um país desesperançado política,
econômica e socialmente. Época de censura à liberdade de expressão, Ditadura
Militar, muitos não tinham oportunidades e por serem malandros (não gostarem de
“dar duro”), caíam nos assaltos, nos sequestros por dinheiro, roubos de casas,
estupros, cafetinagem, assassinatos, etc. Como forma de sobreviver nesse país
sem perspectiva (mudou muito comparado a hoje, século XXI, 2014?). Poucos têm
muito, muitos têm pouco, essa é a revolta de Pedro Diabo - que só tem um sentido na vida agradar e amar Rosa Meia Noite, sua vida e grande amor.
Sem a amada a existência de Pedro Diabo perde
sentido de ser. Filme duro, mas necessário até hoje.”
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