sábado, 4 de maio de 2019

A Morte do Caixeiro Viajante (1949) – Arthur Miller: As angústias de um caixeiro viajante


A Morte do Caixeiro Viajante (1949) – Arthur Miller: As angústias de um caixeiro viajante:

Biografia de Arthur Miller:




Arthur Miller (1915-2005) foi um dramaturgo norte-americano. Autor de "A Morte de um Caixeiro Viajante" e "As Feiticeiras de Salem". Um dos principais autores do teatro norte-americano contemporâneo.
Arthur Miller nasceu em Nova Iorque, Estados Unidos, no dia 17 de outubro de 1915. Filho de imigrantes judeus e poloneses, seu pai era empresário do ramo têxtil. Estudou jornalismo na Universidade de Michigan.
Em 1949, recebe o Prêmio Pulitzer, o prêmio dos críticos de teatro de Nova Iorque e os três prêmios Tony, com a peça A Morte de um Caixeiro Viajante. Em 1953 apresenta a peça As Bruxas de Salem, encenada no Brasil com o nome As Feiticeiras de Salem.
Em sua obra, faz uma crítica contundente à sociedade de seu país. Destaca-se também por protestar contra a falta de liberdade de expressão e a perseguição a comunistas no período do macarthismo. Em 1956, com as investigações sobre atividades subversivas promovidas pelo governo dos Estados Unidos, Miller depõe no Comitê de Atividades Antiamericanas e recusa-se a delatar intelectuais que participam de reuniões comunistas.
Em junho de 1956 casa-se com a atriz Marilyn Monroe, ao se separar de sua primeira esposa Mary Slattery, com a qual era casado desde 1940. Em 1960, escreve o roteiro do filme Os Desajustados para Marilyn. Em 1961, separa-se de Marilyn.
Os Desajustados foi dirigido por John Huston, em 1961.  
Roslyn Taber (Marilyn Monroe) é uma mulher sensível, que está se divorciando. Gay Langland (Clark Gable) é um cowboy frio, que passou a vida pegando cavalos e mulheres divorciadas. Ela não aceita a captura de cavalos selvagens para virarem comida de cachorro, enquanto que ele não vê nada demais. No meio de tudo isto nasce uma paixão entre os dois.
Arthur Miller faleceu no dia 10 de fevereiro de 2005.




Willy Loman é um caixeiro viajante, velho, mais que velho, cansado, sem ninguém para conversar, perto do fim de sua existência, que não realizou seus sonhos, nem os mais pequenos. Willy sempre foi um homem comum de classe média, por isso, como todo norte-americano do pós-Segunda Grande Guerra acreditava nas receitas do sonho americano, quais sejam: que a América é a terra das oportunidades; no poder das amizades que a profissão propiciava, e, por fim, percorrer o mesmo trajeto traçado por centenas de homens que começaram do nada, e, que por seu esforço pessoal puderam alcançar grandes posições nos escalões dos negócios e da política.
Willy tem 34 anos de profissão e passa a perceber que o sistema comercial se tornou tão impessoal, individualista, que desapareceram os antigos vínculos de estima entre vendedor e clientes. Willy solitário, agora, querendo fincar raízes, morrendo pouco a pouco, está prestes a enlouquecer.
O passado e o presente se confundem dentro de sua mente, dessa forma duas peças desenrolam-se às nossas vistas, uma é o angustiante momento atual do protagonista, e a outra que corresponde às suas reminiscências. Esta segunda peça é expressa cenicamente através de flashbacks, que permitem aos espectadores tomarem ciência dos porquês do momento presente da família Loman.
No passado: Willy era um homem vitorioso para a família, para a sociedade e para si próprio. Tinha um carro espetacular, com o qual percorria os EUA, fazendo sua clientela, para a qual não vendia apenas seus produtos, mas também segurança, simpatia, retidão. Willy tinha tudo: Linda, sua esposa, era bonita, jovial, solícita, que o adora, e absorve todas as alegrias e dores de sua família. Os filhos Biff e Happy eram um sucesso, em especial Biff porque era campeão de futebol americano do colégio. Enfim, Willy orgulhava-se de representar para a família e para a sociedade a imagem de um cidadão exemplar.
Porém, no momento presente: ele se sente ridículo, passa a perceber que as pessoas riem dele, os clientes antigos morreram, e tudo lhe parece marcado por uma melancolia, por uma secura nas relações, e não há possibilidade de se firmar uma amizade, estabelecer uma conversa. Enfim, Willy não aceita o próprio fracasso.
O que se percebe do seu comportamento é que o sonho americano de sucesso e grandes realizações se transfigurou em um grande pesadelo de solidão, de amarguras e angústias.
 A peça de Miller possui diálogos ágeis, técnicas modernas do teatro do século XX, com uso dos flashbacks, além do uso de efeitos sonoros, com temas musicais personalizados para algumas personagens, em especial para o protagonista Willy Loman.

sábado, 13 de abril de 2019

PANORAMA DOMINGOS OLIVEIRA


PANORAMA DOMINGOS OLIVEIRA:

(28 de setembro-1935-23 de março-2019) - 83 anos:



- Cineasta, diretor de teatro, roteirista, dramaturgo e ator; falecido no dia 23 de março, Domingos Oliveira era um homem das Artes e para as Artes. “São as obras artísticas, as obras de autor, que elevam a importância social e econômica das atividades culturais. E abrem os mercados externos”, ele afirmou. Celebrar sua memória e sua obra, é valorizar, portanto, a relevância da arte como identidade cultural e artística para qualquer sociedade e qualquer nação.
Pelas realizações de sua carreira, que os números podem ajudar a entender a dimensão de seus feitos – em mais de 60 anos de profissão é diretamente vinculado a mais de 130 títulos encenados, tendo escrito mais de 20 peças, dirigido mais de 50, tendo realizado algumas traduções e dirigido 22 longas-metragens – entre eles uma obra-prima do cinema brasileiro chamada Todas as Mulheres do Mundo (1966), filme que o lançou, assim como também sua esposa, à época, a atriz Leila Diniz. Mas, mesmo assim, Domingos continuará sendo um eterno e bom mistério, que nos cabe sempre procurar decifrá-lo por meio de suas obras.

- FILMOGRAFIA (20 filmes, 2 inéditos): como diretor:

1966 – Todas as Mulheres do Mundo
1968 – Edu Coração de Ouro
1969 – As Duas Faces da Moeda
1970 – É Simonal
1971 – A Culpa
1975 – As Deliciosas Traições do Amor
1977 – Vida Vida: “Os caseiros” (episódio)
1979 – Teu Tua
1998 – Amores
2002 – Separações
2004 – Feminices
2005 – Carreiras
2008 – Juventude
2008 – Todo Mundo tem Problemas Sexuais
2012 – Primeiro dia de Um Ano Qualquer
2012 – Paixão e Acaso
2014 – Infância
2016 – Barata Ribeiro, 716 (BR716)
2017 – Os 8 Magníficos (inédito)
2019 – Aconteceu na Quarta-Feira (inédito)
* 4 filmes televisivos; episódios para duas séries de TV;

- Todas as Mulheres do Mundo (1966):
Paulo (Paulo José) é um jornalista boa vida que passa a maior parte do tempo paquerando as belas mulheres das praias cariocas. Certo dia, esse sedutor acaba encontrando o verdadeiro amor, ao conhecer Maria Alice (Leila Diniz) uma jovem professora e noiva do amigo Leopoldo (Ivan de Albuquerque). Apaixonado por ela, ele enfrenta o dilema de desistir de todas as mulheres do mundo para viver com uma só.

-  Edu Coração de Ouro (1968):
Edu Coração de Ouro é uma comédia bastante reflexiva sobre a vida de um playboy, brilhantemente vivido por Paulo José, o Edu do título. Trata de questões como: a alienação de certa parcela da juventude dos anos 60, que se mantinha fora da discussão sobre questões políticas (à época a Ditadura Militar estava implantada no Brasil desde 1964); a vida fácil dos playboys do RJ, que vivia às custas do dinheiro da família e não ligava para os estudos ou trabalho, mas só para diversão e farras; trata também de relações amorosas, ora ‘líquidas’ (cf. Zygmunt Bauman) (no caso de Edu), ora mais “consolidadas” (no caso do amigo do protagonista).

- Amores (1998): com Priscilla Rozenbaum.
Domingos Oliveira é um intelectual por natureza e um diretor-ator-escritor completo. O filme Amores é recheado de referências a outras obras, livros, filmes, etc., mostrando seu conhecimento em várias áreas, o que deixa o filme melhor e mais atrativo, lembrando por diversas vezes os filmes de Woody Allen, Domingos segundo alguns críticos de cinema seria o “Allen Brasileiro”. Amores mostra as relações interpessoais, sentimentais, familiares, sexuais, etc. Todos (ou quase todos) os sentimentos humanos são mostrados no filme, sem o diretor se intrometer ou ser parcial quanto a eles, estes são apenas mostrados e, o espectador que tire suas conclusões.

- Feminices (2004): com Priscilla Rozenbaum.
O cineasta utiliza neste filme sua dose habitual de humor leve ao realizar uma crônica da mulher contemporânea, Domingos Oliveira criou o que ele mesmo chama na abertura do filme de “uma experiência, uma brincadeira, um quase-documentário”. Para o cineasta, a forma de atingir o geral é lidando com o particular, nesta infinita transição do universal para o particular, e, do particular para o geral, dessa forma, ele foca a sua história num grupo etário e social (atrizes de 40 anos) e acaba falando do universal.
* Cf. A Peça Confissões de Mulheres de 30.

- Carreiras (2005): com Priscilla Rozenbaum.
É fácil perceber a tensão, o temor e a ansiedade da atriz. A Laura de Carreiras está incrivelmente ‘arrasando’ e arrasada em cena, uma verdadeira avalanche de emoções, sentimentos e paixões. Sob a mira da lente digital do diretor de fotografia, Dib Lutfi, Priscilla Rozenbaum (viúva de Domingos) passa mais da metade dos 72 minutos de Carreiras contracenando com um telefone.

- Juventude (2008): com Domingos Oliveira, Paulo José, Aderbal Freire Filho.
Entre as lembranças de juventude está a primeira vez que estiveram juntos, quando foram selecionados para a peça A Ceia dos Cardeais, encenada na escola. Assim como no texto do português Júlio Dantas, os três amigos se reúnem e contam seus segredos amorosos mais íntimos uns aos outros. Juventude é um dos filmes mais felizes e simpáticos da safra do cinema nacional da década de 2000. Juventude é lindo, a tessitura complexa deste roteiro, de autoria de Domingos, cria diversas camadas para que estes homens assumam e ultrapassem a queda de suas muitas crenças pela vida – como diz o diretor em off no início, deixando para trás a psicanálise, o marxismo, a revolução e a razão. Só sobrou o amor, a emoção.

- Todo Mundo tem Problemas Sexuais (2008): com Priscilla Rozenbaum.
Filme que ao mesmo tempo é teatro, ou seria o contrário, de qualquer forma um continuum entre teatro-cinema; peça-roteiro (a origem é justamente uma peça teatral escrita e montada pelo próprio Domingos Oliveira). Esta é mais uma característica dominguiana o diálogo entre Teatro e Cinema, pois aparece em vários outros filmes seus.
Nenhuma outra parte do filme é tão divertida quanto a final, no epílogo em que Pedro Cardoso interpreta, nada mais, nada menos, do que o pênis, o falo: uma situação que veio do teatro e costuma, literalmente, levar a plateia às lágrimas, de tanto chorar de rir. Em várias sequências, Domingos Oliveira intercala cenas da montagem de um esquete com trechos de apresentações teatrais da mesma situação, o que dá um interessante e hilariante diálogo entre as artes, um dialogismo ímpar, um dialogismo dominguiano.

 - Infância (2014): com Fernanda Montenegro.
Infância conserva aquela que é a melhor característica do diretor, roteirista, dramaturgo: o amor por seus personagens. Mesmo quando os mostra em contradição, em atitudes pouco edificantes, ele nunca os julga nem expõe. Pelo contrário, tece em torno deles uma aura de carpintaria teatral delicada, que revela sua humanidade, sua conexão com toda a humanidade, capaz de despertar a identificação com o público, pelo humor, pela ternura, até mesmo pela compaixão.
Assim como fez Federico Fellini em Amarcord, as recordações verdadeiras se misturam com as versões poéticas do passado. E por entre os fantasmas que evocam as imagens do tio histérico, do odioso primo mais velho e da copeira tentadora sobressaem as figuras dominantes da mãe e da avó – a matriarca da família, insuportável e, ao mesmo tempo fascinante.

- Barata Ribeiro, 716 (BR716) (2016):
Carinhoso e também contundente e mordaz, BR 716 é o retrato da juventude daquele tempo (anos 60), o panorama de um Rio de Janeiro que já não existe mais. Entre diálogos e longas divagações, outra marca registrada do estilo de Domingos Oliveira nos é apresentado caminhos que foram interrompidos por alguma coisa que estava fora da percepção daquelas personagens, sendo que todas essas personagens são o próprio Domingos Oliveira, metaforicamente.
Pois, entre festas felizes e intermináveis, com muitas bebedeiras, nas quais seus amigos passam mais tempo no tal apartamento do que em suas próprias casas, Felipe (Caio Blat) transita por entre eles num dominguiano (já  temos um adjetivo para qualificar a obra do grande artista) tom de melancolia por não conseguir terminar de escrever seu primeiro romance, ou será um roteiro de cinema, ou uma peça de teatro, nem o próprio protagonista Felipe o sabe, ou seria Domingos que ainda não sabia que estava construindo seu roteiro para o filme Barata Ribeiro, 716.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, Alemanha-Estados Unidos da América, 2018): alegoria canina.


Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, Alemanha-Estados Unidos da América, 2018): alegoria canina.



“Wes Anderson (diretor de excelentes filmes como “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), “Moonrise Kingdom” (2012), “O Grande Hotel Budapeste” (2014), entre outros) realiza mais um original, criativo e inventivo filme, a animação “Ilha dos Cachorros” que retrata um mundo em que os cachorros são perseguidos pelo clã dos Kobayashi que odeiam os cães e adoram os gatos e, que passa a promover o extermínio sistemático dos peludinhos, a começar pelo exílio deles para uma ilha inóspita, a ‘Ilha do Lixo’.
Um grande elenco de astros dá voz a várias personagens de maneira bem criativa e consistente em suas interpretações para contar esta alegoria que atravessa o Japão desde a época dos samurais até chegar a um presente de ditadura, conspiração do governo, tentativa de extermínio de uma raça-espécies, higienização forçada da sociedade, construção bélica (robótica, armas de destruição em massa), etc. Tudo isso em âmbito alegórico do mundo canino em conflito com o mundo humano, que, contudo, serve como metáfora dos conflitos humanos, entre países e nações através de guerras sem tratativas de paz e conversas diplomáticas.
 Ou seja, trata-se de uma crítica aos nossos líderes que somente em último caso pensam na diplomacia, na conversa e no diálogo preferindo o eterno guerrear, pois esta metáfora do filme do cineasta Anderson não se refere apenas aos tempos que estamos vivendo, mas à Humanidade como um todo através dos tempos.
Um roteiro literalmente original de uma animação (que não foi a primeira na carreira do cineasta, Wes Anderson também dirigiu “O Fantástico Sr. Raposo” (2009)), para todas as idades, bastante reflexiva, que pode ser interpretada em um nível de entretenimento em maior ou menor grau, porém sem desprezar seu nível mais geopolítico e filosófico, ou lógico nos dois âmbitos. ”

sexta-feira, 29 de março de 2019

Benzinho (Gustavo Pizzi, Brasil-Uruguai-Alemanha, 2018): Belo Cotidiano.


Benzinho (Gustavo Pizzi, Brasil-Uruguai-Alemanha, 2018):



“Um belíssimo filme do atual cenário do Cinema Brasileiro contemporâneo é este oportuno trabalho de Pizzi, “Benzinho” que aborda uma família de classe média brasileira, em que todos os membros são importantes para o roteiro -, que foi escrito pelo próprio diretor Gustavo Pizzi (“Riscado”, “Me Chama de Bruna”) em conjunto com a atriz que vive a protagonista da história, Karine Teles -, porém a mãe-esposa-irmã-amiga-mulher Irene se sobressai em um roteiro sensível e poético em sua poesia do cotidiano.
Irene casada com Klaus (Otávio Müller) vive a expectativa da emancipação do filho Fernando (Konstantinos Sarris); vive também com três filhos e às voltas com sua irmã vivida por uma inspirada Adriana Esteves (“Canastra Suja”), a personagem de Esteves, Sônia sofre um relacionamento amoroso conflituoso com o marido (César Troncoso, “O Banheiro do Papa”).
O roteiro não tem estripulias e o diretor consegue se atém ao essencial de poeticidade do dia-a-dia, do corriqueiro, do supostamente banal, onde residem justamente o lirismo de “Benzinho”. Com este ‘diminutivo’ o título já expressa um tom de carinho aos entes familiares mais queridos de Irene. Pode-se fazer um paralelo com a Literatura Brasileira, em especial com os poemas do pernambucano Manuel Bandeira, o escritor que tão bem conseguiu revelar poesia do cotidiano pessoal do eu-lírico e, do social do nosso país, em especial do estado de Pernambuco.
Diálogos interdiscursivos à parte -, o que ressalta, por sinal, a importância de “Benzinho” no cenário do Cinema Brasileiro contemporâneo e do mundo -, já que fez sucesso de crítica e de público por onde passou, inclusive no Festival de Sundance em 2018; sendo cotado, inclusive, para representar o país no Oscar 2019, sendo preterido pela comissão julgadora brasileira que optou pela obra “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, como nosso representante oficial.
“Benzinho” é uma obra ímpar, enfim, do cinema nacional, que merece todos os louvores, seja pela direção cuidadosa, pelo roteiro lírico do cotidiano de uma família tipicamente brasileira da classe média, pelas atuações de um elenco afinado e bem dirigido, com destaque para Karine Teles primando com uma interpretação linda, naturalista e inspirada. ”

sexta-feira, 22 de março de 2019


Um Casal Perfeito (Robert Altman, 1979)



Trata-se de um filme de miscelânea de gêneros: drama, comédia, romance, musical (trechos musicais, não um musical strictu sensu), enfim uma tragicomédia seria a melhor definição para a obra do cineasta Robert Altman.
Alex e Sheila se conhecem através de uma agência de encontros e desde o primeiro encontro somam desencontros, idas e vidas no início de um relacionamento tumultuoso, trágico e cômico, mas a relação é sempre manejada pelo roteiro com bom-humor, sarcasmo, ironia e muita música, ora ‘clássica’, ora ‘popular’ da banda do nome sugestivo “Mantendo-os fora da rua”.
Alex é membro de uma família grego-estadunidense retrógrada, principalmente na figura do patriarca retrógado; Sheila divide um apartamento com a banda em comunidade. É um choque para ambos conheceram as ‘famílias’ do outro, as duas são aberrações, bizarrices para Sheila em relação à família de origem grega de Alex, e este vê a família ‘alternativa’ de Sheila como aberração.
Ao fim do filme temos a melhor sequência-cena do filme, na qual o início do filme se une ao final em um roteiro se não perfeito, ao menos atrativo, e o ‘casal perfeito’ é imperfeito na perfeição dos acasos da vida. O ‘casal perfeito’ formado por Alex e Sheila, por fim, é reverberado em um outro casal, denominado nos créditos finais do filme como ‘um casal imperfeito’, que aparece em seis cenas e serve de espelho das relações do casal-protagonista.   



Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector: romance, 1943: epifanias.


- Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector: romance, 1943:

- Em seu romance de estreia, a autora ora desvela ao leitor o mundo interior da protagonista Joana, ora a contempla de fora, o mundo externo de Joana, alternando dessa forma dois tempos: o da infância, na qual a personagem interroga o mundo, os seres, as coisas e, um tempo atemporal, intemporal, ou fora do tempo, ou seja, a eternidade, no qual Joana vive um casamento com Otávio, com quem Joana nunca nutriu a ilusão de ser completa, pois o marido é sempre visto como um estranho.
-  A Incompletude, a Inquietude são sensações que perseguem Joana desde sua Infância, sua inadequação primordial. O “Selvagem” do título será percebido, interpretado aos poucos pelo leitor justamente como esta inquietação de Joana ante o mundo e a coisas, ou melhor ante a si mesma, o seu mundo interior, a sua personalidade interrogativa e inquisidora; esta sua visão de mundo ‘selvagem’ (metáfora) de ver o (s) mundo (s): e a própria selvageria que é viver o mundo interior e o mundo exterior. Basta para percebemos que uma de suas epifanias 'Vive-se e Morre-se' (lição do Professor), capítulo: ... O  Banho... (Primeira Parte), sugere justamente esta selvageria do nosso viver, inquieto e incompleto em Busca... Incompletude, acaba por ser uma das respostas encontradas. Pois, talvez, a protagonista nunca se descubra por completo, estando sempre perto de si descobrir, porém nunca se complete, pois, a completude é a própria incompletude.
- O momento epifânico somente ocorrendo a tal epifania (a maior) justamente na descoberta da sua inquietude, da sua incompletude,  que são de todas as mulheres e de todos nós, está aí a universalidade do romance.
- Um dos capítulos primordiais do livro são as várias descobertas da adolescência, no qual Joana descobre-se mulher, a sua feminilidade dar-se na da passagem infância para tornar-se Mulher, porém não de forma estanque, acabada, pois é uma linha tênue, um devir no romance.
- A escrita do romance é tateante, sonâmbula, não-linear, o tempo psicológico predomina marcado por epifanias, pequenas e de grandes revelações, a maior talvez é: que se vive para morrer e a incompletude humana, esta inquietude que nos é peculiar é nossa maior felicidade. Assim, é na meia-Vigília, na duração 'instante-intervalar' que o silêncio-contemplação leva às epifanias, as novidades em devir revelam que a vida é uma travessia infinita de novidades, inauditos.
- O romance nos  desvela também alegria-tristeza e vice-versa, sentimentos conflituosos e harmoniosos, opostos complementares, por exemplo, no casamento de Joana se revela esta dualidade dinâmica, em um amor incompleto, inquieto.
- Outra epifania de Joana é a dos 'círculos completos em si mesmos', mas que desta forma não revela nada, somente quando estes círculos se intercalam entre si, ou seja, não sendo mais círculos completos em si mesmos, mas quando se misturam, todos sobrepostos aos outros configura-se a epifania: que todos os momentos da vida são tão intensos em suas infinitas-finitas durações-travessias do presente, não importando passado nem futuro. 
- Esta e outras epifanias se  expressam principalmente no 'silêncio' e através das sensações,  daí se chega a mais uma das epifanias de Joana = a mulher é o devir, é o eterno tornar-se...
- A solidão, o silêncio momentos propícios das verdadeiras revelações, descobertas, epifanias de si mesma = a descoberta do verdadeiro amor, o amor a si mesmo, sua individualidade completa na incompletude (não individualismo), precisa-se encontrar a si mesma, a amar-se para amar outro numa relação amorosa homem-mulher, no caso do romance em tela.
- O Mar sempre aparece como metáfora de amplidão = imensidão – completude na incompletude do infinito – devir – o que importa é o ir – a travessia.  A importância é viver simplesmente viver o seu “Presente” – transpondo suavemente alguma coisa... ou seja a própria existência em devir.  A alegria é a Alegria de saber que se está vivendo – epifania.
- Solidão não em strictu sensu, mas em sentido epifânico de introspecção de Joana para metaforicamente perceber pelas sensações, pelas impressões que sua liberdade, sua completude está na incompletude inquieta, é por isso mesmo a incompletude que completa de maneira incompleta a Busca por si mesma.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Os Inocentes (The Innocents, Jack Clayton, 1961, GBR):


- Os Inocentes (The Innocents, Jack Clayton, 1961, GBR):





-  Baseado no conto “A Outra Volta do Parafuso”, de Henry James, 1898; roteiro adaptado por Truman Capote -, (escritor de “À Sangue Frio”, 1966, ver o filme Capote, 2005, de Bennett Miller, com Philip Seymour Hoffman) -, e William Archibald;
- Mrs. Giddens (Deborah Kerr) é filha de pastor, governanta, no começo do filme ela nos é apresentada implorando pela salvação das almas de algumas pessoas não determinadas; a história se passa na Época Vitoriana;
- A personagem Senhorita Giddens é contratada pela personagem interpretada por Michael Redgrave nomeada apenas como “O Tio” para cuidar de seus sobrinhos, Flora e Miles, duas crianças órfãs;
- Ele, “O Tio”, demonstra honestidade e pouco interesse pelos sobrinhos que vivem no campo;
- Poucas personagens completam a trama: Sra. Grose (governanta), Anna (cozinheira); o espaço é de uma mansão gigantesca cheia de quartos vazios (ou não!), a maioria das cenas se passa no interior da casa; algumas no jardim; inclusive existem algumas cenas memoráveis com diálogos expressivos quanto à carga simbólica do conteúdo proposto na história; e duas personagens misteriosas;
- Estes detalhes se entrelaçam para um roteiro enxuto e perfeito, cuja a temática gira em torno de questões como: Pecado X Pureza; opostos complementares; dinâmicos;
- As crianças sempre nos aparecem entre luz e sombra e, isto se deve a iluminação das velas, em uma ambiência claustrofóbica; a maioria das vezes as cenas se passam à noite, inclusive o clímax; fotografia em preto-e-branco não é por acaso;
-  Possessão – ponto de interrogação, talvez não seja o ponto mais relevante da trama; porém, onde está a corrupção; na imaginação e ou na realidade propriamente dita da história; o que é real, o que é ilusão-sonho-ou-pesadelo; por último, um detalhe de suma importância são os sussurros que são ouvidos ou não pela Senhorita Giddens; eis o maior enigma.