terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

(Excitação, Brasil, 1976, Jean Garret): (Thriller claustrofóbico brasileiro)


(Excitação, Brasil, 1976, Jean Garret):
(Thriller claustrofóbico brasileiro):   



“Excitação é um filme brasileiro dos anos 1970, mais precisamente de 76, dirigido por Jean Garret e com roteiro dele em parceria com Ody Fraga. Estes dois cineastas sempre abusaram de nudez, cenas de sexo e violência, contudo realizaram até que alguns bons filmes nas décadas de 70 e 80, que foram críticas para nosso cinema, excetuando o início dos anos 1990, nos quais o cinema nacional quase não existia. Outra curiosidade sobre Garret e Fraga é que eles dirigiram também fitas pornô, às vezes sob pseudônimos.
Neste Excitação temos um bom exemplar brasileiro de um filme do gênero de terror, um thriller claustrofóbico que apesar de alguns defeitos tais como a edição bastante falha e as atuações dos atores extremamente mecânicas, com exceção da personagem interpretada por Flávio Galvão. Quanto às qualidades temos uma trilha sonora marcante e apavorante que sugestiona o terror das estranhas visões de Helena (Kate Hansen), a fotografia excepcional do também cineasta, um dos maiores do país, Carlos Reichenbach que nos presenteia com cenas em que os aparelhos domésticos e as máquinas parecem tomar vida própria, nestas cenas temos também bons efeitos especiais.
Helena e Renato (Galvão) são um casal que vai morar em uma casa de praia no litoral de São Paulo que guarda mistérios em relação ao seu passado. Helena tem problemas nervosos, com estranhas visões e delírios com máquinas domésticas que se ligam sem que ninguém as estejam usando. As cenas de closes em seus olhos dilatados e excitados pelos delírios visuais são muito bem-feitas. Já Renato é um engenheiro eletrônico (prestem atenção no nome de seu computador, que ele tem em sua empresa na capital paulista!) que confia na exatidão das máquinas, na racionalidade e perfeição que elas propiciam à sociedade. Talvez os computadores sirvam como espécies de projeções, ora de Renato, no que se refere à razão, ora como projeções de Helena, no que concerne aos delírios, à imaginação e à loucura.
O roteiro de Ody Fraga e Jean Garret apresenta certa previsibilidade em algumas reviravoltas e também certas cenas risíveis, porém, mesmo assim o filme se sustenta. Excitação, enfim, é um terror, um thriller misterioso dirigido por Jean Garret com estilo e que demonstra que o Brasil é capaz sim de fazer bons filmes em qualquer gênero e em qualquer época. ”

domingo, 16 de fevereiro de 2020

(Johanna D´Arc of Mongolia, Alemanha Ocidental, França, 1989): (Diálogo entre culturas)


(Johanna D´Arc of Mongolia, Alemanha Ocidental, França, 1989):
(Diálogo entre culturas):
  

“A cineasta alemã Ulrike Ottinger realiza este interessante Johanna D´Arc of Mongolia (Alemanha Ocidental, França, 1989), nomeado ao Leão de Ouro do Festival de Berlim, de 1989, filmado também durante o ano da Queda do Muro de Berlim, sendo talvez este fato histórico um interessante paralelo para com a obra da diretora, pois seu filme entre outras coisas trata e aborda a troca de culturas, o cosmopolitismo, sem barreiras ou fronteiras marcadas por pré-conceitos culturais.
Quatro mulheres de diferentes nacionalidades estão em um trem da Transiberiana e elas começam a interagir entre si. Uma é a especialista na cultura da região Lady Windermere (Delphine Seyrig, atriz de filmes como Muriel e O Ano Passado em Marienbad, ambos dirigidos por Alain Resnais); outra é a professora secundária alemã Mueller-Vohwinkel (Irm Hermann, que foi dirigida por Rainer Werner Fassbinder em diversos filmes tais como: O Medo do Medo e As Lágrimas Amargas de Petra von Kant); outra dessas mulheres é a mochileira francesa Giovanna (Ines Sastre) e, por último, tem-se a  personagem da cantora norte-americana da Broadway Fanny Ziegfeld (Gillian Scalici). Elas também interagem com algumas outras personagens o cantor alemão Mickey Katz, dois oficiais russos e as irmãs Kalinka, que formam um trio musical bem divertido.
Porém, todas as personagens masculinas são deixadas de lado, quando apenas as mulheres tomam o trem da Transmongol, depois de quase uma hora de filme bem marcada e em uma cena de transição aparece, finalmente, a princesa guerreira mongol Ulan Iga, a qual serve de paralelo com a Joana D´Arc da História europeia, as viajantes são a partir daí mantidas apenas em parte como reféns, mas muito mais são tomadas como hóspedes pelas mongóis nômades.
 O filme, então, passa para uma segunda parte, mudando de ambiência e também passa quase que completamente a ser filmado em externas, diferente da primeira parte que foi marcada por cenas filmadas internamente nos vagões de trens. Agora a história sem pressa e sem ser narrada muito por meio de fatos encadeados, mas apenas episódicos, começa a se desenrolar nas estepes mongóis. Procurando ressaltar a troca de experiências, a amizade inusitada que surge entre culturas diferentes, mostrando que é possível o diálogo, a interação sem pré-conceitos de culturas aparentemente inconciliáveis. ” 

sábado, 15 de fevereiro de 2020

(Dias de Outono, Japão, 1960, Yasujirô Ozu): (Contemplando o cotidiano em seus encantos)


(Dias de Outono, Japão, 1960, Yasujirô Ozu):
(Contemplando o cotidiano em seus encantos):

“Ayako – “Romance e casamento são coisas diferentes...”.
É uma das frases ditas por esta personagem em um excelente diálogo em um café, entre ela e seu “tio” Mamiya, quando ele tenta convencê-la a casar. E por aquela frase e por outros diálogos o espectador será apresentado a um dos principais debates do filme: o casamento arranjado. Por sinal o roteiro de Kôgo Noda (habitual colaborador do cineasta) e do prórpio Yasujirô Ozu, baseado no romance de Ton Satomi, é excelente e propõe ótimas oportunidades para os espectadores contemplarem e refletirem sobre questões pessoais e interpessoais envolvendo: casamento, relação mãe e filha, viuvez, amizade, memórias, entre outras. Este é o filme Dias de Outono dirigido pelo mestre japonês Ozu, de 1960, o seu antepenúltimo filme de uma carreira de 56 créditos como diretor.
Ozu em boa parte de sua filmografia se propôs a discutir as questões familiares sem se preocupar em demasia com a narrativa e a trama em si, mas as reflexões levantadas em suas obras, deixando bastante tempo para quem assiste aos filmes se concentrar na ambiência, na contemplação e nos questionamentos propostos, exemplos disso são: Os Irmãos e Irmãs Todas (1941) e Era uma Vez em Tóquio (1953). Ozu também diversas vezes trabalha os mesmos temas em obras diferentes, ou melhor realiza variações sobre a mesma temática, já que é possível estabelecer relação deste Dias de Outono com um clássico dele intitulado Pai e Filha, de 1949, com roteiro também em parceria entre Noda e Ozu. Neste a questão girava entre um pai viúvo e sua filha, que não queria casar para não abandonar seu pai sozinho, já no filme de 1969, é a vez de uma filha e sua mãe viúva em similar situação. Dessa forma, se confirma o que muitos críticos de cinema dizem dos grandes cineastas e artistas em geral, que realizam sempre obras sobre os mesmos temas, somente realizando recriações, porém sempre com um novo vigor artístico e sempre com aura de genialidade.
Yasujirô Ozu explora ainda um Japão do pós-Segunda Guerra Mundial, recuperando-se após a destruição ocasionada pela Guerra, o figurino reflete o vestuário ocidental a ser usado no país, além de costumes do Ocidente geral sendo adotados no país asiático. Além disso, o filme confronta as gerações mais velhas e mais novas.
O filme é belo e contemplativo em mostrar com cuidado e apuro na fotografia colorida a relação entre mãe e filha, de extremo companheirismo e cuidados de uma para com a outra, Akiko, a mãe (Setsuko Hara) e a filha Ayako (Yôko Tsukasa), atrizes habituais dos trabalhos de Ozu dão uma aula de atuações comedidas e serenas, das quais o cineasta se vale para com toda calma do mundo e sem presa mostrar a que a rotina e o cotidiano familiar têm os seus encantos. ”

Hotel do Norte, França, 1938, Marcel Carné: (Tragicomédia da classe trabalhadora parisiense)


Hotel do Norte, França, 1938, Marcel Carné:
(Tragicomédia da classe trabalhadora parisiense):

“A Bastilha? Eu sei o que foi a Bastilha. Ela caiu e o que mudou?
Nesta frase enunciada pela personagem Raymonde (Arletty) em um diálogo com um dos seus amantes temos um exemplo de uma questão muito bem apresentada no filme Hotel do Norte (Marcel Carné, dos excelentes Os Visitantes da Noite, O Boulevard do Crime, Trágico Amanhecer, para citar alguns), de 1938, sobre a classe trabalhadora em Paris, antes da Segunda Guerra Mundial. Os trabalhadores no filme aparecem levando vidas fatalistas, meramente banais em suas desilusões diárias e sem esperanças de melhorias.
O filme começa com um casal chegando ao Hotel do Norte, em uma belíssima tomada silenciosa, eles se hospedam no hotel com o intuito do duplo suicídio. Porém, algo acontece e o roteiro a partir daí, com a condução do cineasta Carné, nos leva a conhecer os motivos que o fizeram chegar a este ponto. Somos apresentados a um outro casal, Raymonde e Edmond, ela é uma prostituta e ele é um vigarista enigmático. No Hotel do Norte, os conflitos se desenrolam entre vários trabalhadores lutando pelo pão de cada dia, entre algumas diversões, ilusões, vãs expectativas e amores frustrados, enfim a vida passa ante nossos olhos destes seres um tanto quanto marginais.
Um paralelo interessante entre este filme e outro dirigido por Marcel Carné, Trágico Amanhecer de 1939, é o uso de um quarto-apartamento específico para desenvolver seus dramas de consciências. No filme de 39, a personagem interpretada por Jean Gabin rememora fatos que o levaram a cometer um assassinato. No filme de 1938, o Hotel e arredores é o espaço para o observar dos dramas pessoais, das relações interpessoais e a tragicomédia da classe operária.  As questões trágicas, cômicas, ou seja, a própria tragicomédia acompanha quase toda a filmografia de Carné, e em Hotel do Norte é bastante evidente tal aspecto.
O último plano é também realizado com maestria pelo cineasta que o relaciona ao primeiro plano, só que agora com um diálogo e uma trilha musical. Grande filme de Carné. ”

sábado, 8 de fevereiro de 2020

(Face a Face, Ingmar Bergman, 1976): (Um tour de force pela alma humana)


(Face a Face, Ingmar Bergman, 1976):
(Um tour de force pela alma humana):

“Como em quase toda sua filmografia, o cineasta Ingmar Bergman analisa e disseca psicologicamente suas personagens, estas servem como simulacros da vida humana e das relações interpessoais. A direção de Bergman quase sempre impecável aliada aos seus roteiros coesos, universais e atemporais promovem um verdadeiro tour de force pelas profundezas da psique humana.
Face a Face, de 1976, é mais um exemplo magistral do exposto até aqui. Jenny (Liv Ullmann, estupenda em mais uma obra dirigida pelo realizador sueco) é uma pessoa que como qualquer outra vive suas contradições, a eterna dualidade dinâmica dos seres humanos: ora com traços de sensatez, ora não; em alguns momentos lúcida, em outros tantos momentos, desvairada; algumas vezes cordial, outras nem tanto; ora sã, outras tantas ensandecida. Tudo isso está cada vez mais à prova quando ela acaba por iniciar sua busca de autoconhecimento. Jenny forçosamente a inicia para tentar se encontrar consigo mesma e, posteriormente, com os outros, pois é imperioso esse re-conhecer-se, já que algumas questões em sua vida pessoal, profissional e familiar foram questionadas e colocadas à prova por outros e em especial por si mesma. Reforçando que a jornada da protagonista quase nunca a confronta com outras personagens e-ou situações, são poucas as vezes que isso acontece.
Jenny é uma psiquiatra, casada e que vai passar uns tempos na casa dos avós, quando o esposo viaja para um congresso e a filha vai para um acampamento de férias. A partir daí inicia-se sua ressignificação como pessoa, não antes de ir à beira da loucura, mas que se faz tão necessária para entender-se. Jenny sente-se solitária e abandonada por todos, devastada psicologicamente, em depressão, ela passa também a questionar a importância da família e a presença e a iminência da morte.
Todos esses questionamentos humanos e reflexões existenciais, a busca da personagem Jenny em reencontrar-se, ou seja, a sondagem psicológica será realizada através de um roteiro estupendo de Bergman e por sua direção magistral no uso das cores e da montagem. O filme tem duas partes bem distintas ou bem destacadas de 1h cada, a primeira os fatos do enredo em si e a segunda a viagem onírica em busca de si mesma. Essa questão da divisão fílmica não é marcada por capítulos ou marcas do gênero, porém pelo uso das cores, na primeira são usadas cores sóbrias (bege e marrom), na segunda cores vivas (vermelho, predominantemente); quanto à montagem, fotografia em planos mais abertos com poucos closes na primeira parte, já na segunda tem-se o  uso do close preferencialmente nas cenas, nas quais Jenny é filmada em zoom in, com a câmera bem próxima de sua face, ressaltando as expressões do rosto da personagem e todos sentimentos e sensações que está vivendo e pelas quais está passando, em seu tour de force.
O fotógrafo é mais uma vez Sven Nykvist, colaborador habitual de Bergman, ele preenche a tela com sombras, isso se reflete no cenário e na captação da face de Jenny, especialmente nos momentos de maior angústia e dor, os olhos de Ullmann estão totalmente cobertos pela escuridão. Bergman, alternando sonho e lucidez, sanidade e loucura, realidade e delírio, conduz o espectador nesta sondagem da alma humana sempre em vertigem. De tudo isso, percebe-se a universalidade, a atemporalidade dos filmes de Bergman.
Face a Face, o filme, em sua última cena, acaba mais uma vez ressaltando as nossas incertezas; nós, espectadores somos deixados à deriva em nossa maior angústia, qual seja, o nosso eterno e amargurado confrontar-se. Enfim, a “face a face” começa. ”

Adoniran: Meu Nome é João Rubinato: (Um documentário sobre o boêmio vespertino)


Adoniran: Meu Nome é João Rubinato
(Um documentário sobre o boêmio vespertino):

“O documentário é antes de tudo um veículo para enaltecer, rememorar e até certo ponto venerar miticamente o malandro Adoniran Barbosa, o “boêmio vespertino” da megalópole paulistana. O filme, desde o início, propõe uma viagem sobre os meandros de sua vida pessoal. Porém, com excessivo didatismo e sem preocupações em analisar a obra do sambista no cenário da música nacional.
O interesse é, justamente, nos seus causos de malandro e apreciador de boas doses de álcool, nas suas personas de cantor-compositor, radialista, humorista e ator, com profundo didatismo e linearidade e com excessivo uso do “mostro e conto” do diretor Pedro Serrano e dos entrevistados.
Um ponto forte do documentário é a questão da figura mítica por trás da pessoa de João Rubinato, a sua própria persona Adoniran Barbosa, que se sobrepõe sobre aquela. Não se sabe nunca se Adoniran está contando a “verdade” sobre as origens de suas canções ou não, ficção e realidade se misturam em suas entrevistas e depoimentos. E até os entrevistados que conviveram com ele têm suas próprias versões.
Mais uma vez, ressalte-se que nenhuma reflexão o espectador terá sobre o seu fim decadente, sobre os contrates e oposições entre o samba de Rio de Janeiro e São Paulo, nem sobre as questões da música popular e erudita. Apesar de ao fim do filme ser apresentada uma narração mal desenvolvida de um depoimento do intelectual Antonio Candido.
Outra questão solta no documentário pelo diretor Pedro Serrano e mal elaborada e discutida é a questão da figura poética do “palhaço triste”, do “clown, que já vimos na história do cinema em filmes como “Ironia da Sorte”, dirigido por Victor Sjöström e estrelado por Lon Chaney, de 1924, ainda temos as figuras lendárias do Carlitos de Chaplin e do “palhaço que não ri” de Buster Keaton. Já na Literatura Brasileira temos um poema simbolista de Cruz e Sousa que ilustra metaforicamente muito bem esta questão:
ACROBATA DA DOR
“Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço. ”                  (Publicado no livro Broquéis (1893).)                                                
Enfim, o filme em que pese suas boas intenções e alguns pontos positivos apresenta falhas gritantes, mas serve como introdução para a obra deste magistral poeta-musical do Brás e do Bexiga, da São Paulo em transformação pelo progresso em des-progresso da década de 1930, do século passado, um artista feliz-triste em seu Samba poético-trágico. ”

sábado, 21 de setembro de 2019

BACURAU (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Brasil-França, 2019):


BACURAU (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Brasil-França, 2019):

Bacurau é um filme excelente, porém não perfeito, mas apesar de alguns defeitos, é uma obra muito boa e necessária para ser vista e revista. Não diria que é o melhor trabalho de um dos diretores, Kleber Mendonça Filho, pois Bacurau é dirigido também por Juliano Dornelles. Quanto aos trabalhos anteriores de Kleber Mendonça Filho destaco lógico os longas O Som ao Redor (2012), seu primeiro longa-metragem, cuja sinopse é: “A vida numa rua de classe-média na zona sul do Recife toma um rumo inesperado após a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. A presença desses homens traz tranquilidade para alguns, e tensão para outros, numa comunidade que parece temer muita coisa. Enquanto isso, Bia, casada e mãe de duas crianças, precisa achar uma maneira de lidar com os latidos constantes do cão de seu vizinho. Uma crônica brasileira, uma reflexão sobre história, violência e barulho” (retirada do site Filmow). Aquarius (2016), seu segundo longa (e para mim seu melhor trabalho até o presente momento de sua carreira), cuja sinopse é: “Clara, 65 anos de idade, é uma escritora e crítica de música aposentada. Ela é viúva, mãe de três filhos adultos, e moradora de um apartamento repleto de livros e discos no Bairro de Boa Viagem, num edifício chamado Aquarius. Interessada em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia” (sinopse do site Filmow). E também entre seus curtas-metragens destaco uma pequena obra-prima, Recife Frio (2009), sinopse “a cidade brasileira de Recife, que já foi tropical, agora é fria, chuvosa e triste, depois de passar por uma desconhecida mudança climática” (retirada a sinopse do site já citado).
Mas voltemos a Bacurau: trata-se de um filme marcado pelo realismo mágico, além de ser uma alegoria distópica de uma cidade, Bacurau, lutando contra o capitalismo nocivo e predatório, lutando contra o desenvolvimento tecnológico e capitalista, porém usando as tecnologias a sua maneira, bem própria e particular. Bacurau tenta resistir a invasão estrangeira, ao poder político local, todos dizimadores do bem-estar coletivo e comunitário da cidade de Bacurau.
Além disso temos várias metáforas, reflexões implícitas ou explícitas no roteiro: ora o confronto nordeste X sudeste-sul, interior X capital, opressores X oprimidos, maioria X minoria. O filme aborda também temáticas de preconceito e opressão contra os mais desvalidos, as minorias, enfim é uma obra que trata de vários temas que são variações de um mesmo tema geral, qual seja: a política de opressão aos já tão oprimidos e desvalidos dos meios tecnológicos capitalistas. Bacurau torna-se uma ode à luta contra qualquer forma de opressão e dominação, seja que de qual matriz opressiva seja, que visa dominar uma população, comunidade, de qualquer maneira, mesmo que isso seja feito pela própria aniquilação da comunidade ali instalada, incrustada na memória há tempos até mesmo imemoriais.
Uma das leituras para esta problemática é o “entre-lugar”, que é a cidade de Bacurau, sitiada, isolada, por forças mais “desenvolvidas” tecnologicamente falando, assim estas forças seriam o “lugar”, de qual fala o teórico Homi K. Bhabha, em seu livro O Local da Cultura, em o escritor contrapõe as forças de dominação dos colonizadores (o “lugar”) e o local dos dominados, colonizados, o “não-lugar”. Bacurau, portanto, nessa distopia que é a obra fílmica de que se trata estaria na posição de “entre-lugar”, lutando contra a dominação dos mais fortes tecnologicamente e também se contrapondo contra a barbárie.    
Um dos diálogos mais sintomáticos do filme é quando dois forasteiros chegam à cidade de Bacurau e a forasteira pergunta na vendinha local: “- quem nasce em Bacurau é o quê? ” A qual é respondida de pronto por uma criança: “ – É gente! ”. Sempre, portanto, a questão identitária é abordada, levantada pela obra, visto que esta é uma das emergências do século XXI em termos de pauta ideológica e, portanto, política, ainda mais em um país, Brasil, que está dividido política e ideologicamente.
Talvez aqui temos o maior problema de Bacurau: ou o filme é uma mera obra de faroeste violenta, visto que em algumas cenas temos violência em demasia, até mesmo desnecessariamente filmadas e colocadas na edição final? Ou o filme estaria mais para uma obra política que reflete as questões atuais de um Brasil fragmentado ideológica e politicamente? Ou as duas coisas.
Estas ambiguidades talvez só sejam resolvidas num futuro um pouco mais distante quando possamos rever este filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, com mais isenção do momento atual em que vivemos, tão caloroso nos debates, ou seja, com mais distanciamento crítico, com a passagem do tempo, que talvez nos faça refletir melhor na recepção de tal obra que se faz tão urgente e necessária, como é Bacurau, para os rumos do nosso cinema e também para nossa política, por que não?
Já que a vida imita a arte. E o cinema sempre é uma manifestação de cidadania, portanto o cinema de qualidade é sempre uma manifestação política.