sábado, 15 de novembro de 2014

NINHO DE COBRAS: UMA HISTÓRIA MAL CONTADA, de LÊDO IVO: “(Vargas e a Ditadura disfarçada de boas intenções.).”.

NINHO DE COBRAS: UMA HISTÓRIA MAL CONTADA, de LÊDO IVO:

“(Vargas e a Ditadura disfarçada de boas intenções.).”

(Resenha por Rafael Vespasiano).


“Lêdo Ivo é um orgulho para as Letras Alagoanas e para o Brasil, ele é um escritor contemporâneo, que se notabiliza pelos seus livros de poemas, mas “Ninho de Cobras”, na verdade, é um ótimo romance, publicado em 1973.

O romance se passa durante a Ditadura de Vargas, denominada Estado Novo, que durou de 1937-1945, contudo, na verdade, o romancista também queria comparar e criticar aquela Ditadura, com a “atual” (1973), que estava em curso no Brasil, desde 1964, a Ditadura Militar, a qual durou até 1985 - como a crítica não poderia ser feita de forma explícita, por causa da censura, Lêdo Ivo manteve o tema, mas mudou a época, voltando-se para o passado, porém sem aliviar o ataque a nenhuma das duas ditaduras.

“Ninho de Cobras” passa-se em Maceió, capital alagoana. O romancista faz um retrato fiel da capital, em termos geográficos, inclusive, conta um pouco da História Oficial de Maceió, incluindo ilustres personagens da cidade e aborda também aspectos econômicos da capital.

O livro apesar de mostrar as qualidades naturais de Alagoas, apresenta outros aspectos que as ofuscam, dado o mau-caratismo da maioria dos cidadãos alagoanos, representado por grande parte das personagens retratadas no romance. Pessoas corruptas, egoístas, egocêntricas, megalomaníacas, fúteis, adúlteras, mesquinhas, arrogantes, interesseiras, intrigueiras, ou seja, um verdadeiro “Ninho de Cobras”, que é a grande metáfora do romance.

O livro ainda toca no tema do chamado “Sindicato da Morte”, que fazia justiça com as próprias mãos, em Alagoas, decidindo quem era inocente ou culpado e, aplicando também a pena (morte), caso o sujeito fosse considerado culpado.


Uma obra-prima de Lêdo Ivo. Um clássico do romance regionalista nordestino (mas, vai além dessa mera classificação estanque, pois o romance é universal e tão atual, não é?!). Um retrato desolador de Alagoas, do nordeste, do Brasil, do mundo (do século XX e também do início do século XXI). Crítica a qualquer regime totalitário, que, segundo Ivo, é sempre opressor!”.

“HOLY MOTORS: A PÓS-MODERNIDADE NA VISÃO FANTASIOSA, DE LEOS CARAX.”.

“HOLY MOTORS: A PÓS-MODERNIDADE NA VISÃO FANTASIOSA, DE LEOS CARAX.”

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO).

"Um filme difícil de digerir, mas é imprescindível vê-lo para que possamos debater vários assuntos pós-modernos, trata-se da película "Holy Motors", de Leos Carax. Forte, ousado, surrealista, fantasioso, inaudito, são meros adjetivos para rotular o filme.

O que temos que perceber é a automação das relações humanas (trabalhadas pelo sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, como "vidas líquidas"), pois cada vez mais nossos sentimentos são meros atos mecânicos. Passamos o dia fora de casa, ao retornarmos à noite para nossos "lares", não há muito espaço e contato entre os familiares e/ou ocupantes da mesma residência; não há diálogo (tetralogia da incomunicabilidade de Antonioni tão atual); somos estranhos uns aos outros em nossas próprias casas; cada um dentro do seu quarto-casa.

Outra proposta de "Holy Motors": a questão de tudo tornar-se obsoleto de uma hora para outra, o carro, o celular, o computador que é ótimo e avançado hoje, amanhã é um atraso. Violência e fragmentação também fazem parte do universo de "Holy Motors", pois se trata de um filme que reflete essas características tão típicas da pós-modernidade.

Grotesco é a constatação a que chegamos ao fim da obra. Grotescas são as nossas vidas e relações interpessoais nesse início de século XXI. Esquizofrênicos os nossos sentimentos; máscaras sociais para cada momento do dia; múltiplas personalidades dada a fragmentação em que vivemos. O filme tem certo diálogo com o filme de Cronenberg, "Cosmópolis".


Ah, ainda trata de questões como voyeurismo, mas já falei demais, vão ver o filme! Enfim, um filme que mexe com a gente, pois a carapuça logo é vestida por todos os espectadores do filme: mea culpa, minha máxima culpa, amém!”.

domingo, 9 de novembro de 2014

DIÁRIO DO FAROL JOÃO UBALDO RIBEIRO: “(O confessável só em memórias guardadas para si.).”

DIÁRIO DO FAROL

JOÃO UBALDO RIBEIRO:

“(O confessável só em memórias guardadas para si.).”

(Breve Análise por Rafael Vespasiano Ferreira de Lima).

(Escrevi este texto em 2006, João Ubaldo ainda era vivo, revisei em 2014, quando do falecimento de Ubaldo.).


“João Ubaldo Ribeiro é um escritor contemporâneo da Literatura Brasileira. Baiano. Já é Imortal da Academia Brasileira de Letras. Publicou livros que já são considerados clássicos da nossa Literatura, casos de “Sargento Getúlio” (que virou filme protagonizado por Lima Duarte) e de sua obra-prima, por enquanto, já que Ubaldo ainda é vivo, “Viva o Povo Brasileiro”. Por enquanto, li apenas um dos seus livros mais recentes (e polêmico!), publicado em 2002, “Diário do Farol”. Livro forte, pesado, mas reflexivo. O protagonista-narrador (que em nenhum momento revela seu nome verdadeiro) mora numa ilha e é o faroleiro dela. Vive sozinho e recluso, então resolve escrever, já velho, suas memórias, mas já vai assumindo e reconhecendo, que é um mau-caráter, desprovido de consideração pelas pessoas, que não presta, que é solitário (gosta da solidão, tanto que até já se acostumou com ela), é insociável, misantropo, não gosta da companhia de ninguém, é vaidoso, orgulhoso, com um ego inflado, egocêntrico, egoísta, individualista, com um grande, excessivo e doentio amor-próprio, enfim, ele é mau e amoral.

 Todos esses defeitos, ele assume e reconhece para si, mas à medida que ele escreve suas memórias, o leitor percebe as causas de tamanha ruindade numa única pessoa, o que determinou tamanho mau-caratismo.

Ele diz que o Bem e o Mal não são opostos, mas, pelo contrário, podem se complementar numa mesma pessoa, no caso, por exemplo, ele mesmo, que é mau para muitos, mas para alguns, que ele consegue iludir, com suas boas ações (mas que têm segundas intenções escondidas e que só são feitas dadas as aparências e conveniências, que ele quer manter e/ou possuir), ele é um homem bom, um verdadeiro “santo”, segundo algumas pessoas chegam a dizem para ele, iludidas pelas suas “boas ações”, o que confirma sua teoria que o Bem e o Mal coexistem no mesmo ser.

 Além dele sempre afirmar que não se deve confiar em ninguém, ele é o próprio exemplo disso, já que as pessoas pensam que ele está ajudando-lhas, mas que na verdade ele está as apunhalando pelas costas, ou senão as prejudica direta ou indiretamente, prejudica a terceiros, que são objetos de sua ojeriza e, portanto, da sua vingança também, mostrando que “não se deve confiar em ninguém” (epígrafe do romance). Vale a pena ler esse brilhante romance, que apesar de prosaico, é bastante reflexivo sobre a condição  humana, sobre os “porões” da alma.

O protagonista/narrador/escritor, de certa forma, denuncia os absurdos que ocorrem nos seminários, como por exemplo: padre tendo relações sexuais com seminaristas, ou com outros padres, ou seminaristas com colegas de seminário, sexo com animais, violência, humilhações, interesses, chantagens, promiscuidades, etc., ou seja, tudo que a Igreja condena ou tem como dogma, no caso do celibato e do homossexualidade.

Outra reflexão do romance é sobre as arbitrariedades e absurdos do Golpe de 64 e da Ditadura Militar, que se seguiu e, o protagonista se aproveita dos absurdos gerados e produzidos pela Ditadura, para viabilizar e concretizar seus planos maldosos de vingança. O protagonista também faz algumas interessantes reflexões sobre a arte de escrever e a profissão de escritor.

Bom romance da Literatura Brasileira Contemporânea! Viva Ubaldo!”.


Data da revisão do texto: 23/07/2014, às 19h25. Por Rafael Vespasiano.

sábado, 8 de novembro de 2014

CANAÃ, de Graça Aranha: “(Um embate de ideias, sem violência física: diferente de fatos recentes, não?)”:

CANAÃ, de Graça Aranha:

“(Um embate de ideias, sem violência física: diferente de fatos recentes, não?)”:

(Resenha por Rafael Vespasiano).

“Livro publicado em 1901, pelo escritor pré-modernista Graça Aranha. Canaã é um romance-ensaio, já que o aspecto ensaístico sobrepuja o fictício. Primeiro livro de ficção brasileiro a tratar de temas socialistas, que estavam ganhando força no início do século XX. Mas sem deixar o academicismo de lado, apesar do apoio que Graça daria aos modernistas do país na Semana de Arte Moderna de 1922.

Canaã trata da imigração germânica no estado do Espírito Santo, nas figuras dos imigrantes alemães, Milkau e Lentz, que buscam a terra de “Canaã” (paraíso terrestre prometido por Deus). O Simbolismo está no tema mesmo da obra, a alegoria do paraíso biblíco prometido ao homem, a terra do leite e do mel: “Canaã”.

Milkau é liberal, sonhador, socialista, ex-crítico literário num jornal de Berlim, voltado para a arte, para a natureza, amante da paz, da comunhão fraternal entre os homens. Milkau representa o apego místico ao solo tropical (ufanismo). Milkau é um ser frustrado com os fatos que se sucedem ao seu redor (encontra a mesma monotonia do seu país natal, do qual fugira, saindo em busca da terra prometida, o país da abundância e da liberdade, “Canaã”).

Já Lentz é um aristocrata, prussiano, prega a força, a guerra. Lentz é um europeu empedernido, nietzschiano, defensor de teorias de Darwin, cheio de preconceitos etnocêntricos (povo europeu representa o centro do mundo/ “a civilização não se fará jamais nas raças inferiores”/ a etnia branca, europeia, germânica, ariana “pura” é superior, para Lentz, à “raça” tropical, brasileira, miscigenada (branca/portuguesa, negra/africana e indígena/brasileira)).

Forma-se, assim, uma dicotomia entre Milkau e Lentz, que é refletida na colônia germânica de Cachoeiro e adjacências: os colonos x nativos brasileiros, estes cindidos entre si, há aqueles aderentes aos imigrantes, e outros contra os imigrantes, xenófobos. E é estabelecido um par romântico entre Milkau e Maria, um par sentimental em guerra contra tudo e contra todos.

Com esses fatos, Graça Aranha monta sua tese, um romance-tese, que lembra os típicos romances naturalistas de Zola. Só que em vez de conceito de raça superior x raça inferior, a tese de Aranha em “Canaã” é da comunhão/fraternidade/paz/união das etnias, miscigenação para o bem da Humanidade.

Contudo, Aranha desenvolve sua tese de forma confusa, às vezes incoerente com suas próprias ideias, certa contradição devido aos diálogos entre os protagonistas de ideiais antagônicos: Milkau e Lentz.

Milkau e Maria evadem-se ao caminhar para a morte como se no rumo da terra da promissão, a “Canaã” sonhada, entrevista em Cachoeiro e arredores, dissipa-se, e em seu lugar instala-se o “Nada, a Morte”.

A paisagem idílica que os colonos elegeram dilui-se em favor da certeza niilista de não haver “Canaã” em vida (felicidade nesta), só na morte, na transcendência espiritual, típica do Simbolismo.
Tem-se, portanto, uma tese paradoxal, o livro todo é “otimista”, tom esperançoso prevalecendo, e, tem-se como conclusão a felicidade só na morte (neoromantismo também?!).

O desfecho mostra uma “Canaã” pragmática, cínica, o reino dos pessimistas, agnósticos, ao contrário do que Aranha defendeu no romance o tempo todo, “Canaã” como a terra prometida, “Canaã” como sendo  a terra dos humilhados, ofendidos, inocentes (Maria) e, visionários ou idealistas (Milkau). Mas, a tese não se confirma. Graça Aranha falha, portanto, na sua defesa.


Canaã é um romance de transição, oscilando entre o naturalismo, neoromantismo, simbolismo e correntes modernistas embrionárias, tendo de permeio notas deterministas típicas da escola naturalista. Porém, já faz parte de uma zona intervalar que estava a preparar a arrancada revolucionária dos modernistas vindouros: o Pré-Modernismo.”

“A Gangue de Hollywood – o Vazio de nossa juventude": ("The Bling Ring – A Gangue de Hollywood", de Sofia Copolla.).

“A Gangue de Hollywood – o Vazio de nossa juventude":

("The Bling Ring – A Gangue de Hollywood", de Sofia Copolla.).

(Crítica por Rafael Vespasiano.)

 ““The Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, dirigido e roteirizado  por Sofia Copolla, é um retrato desiludido e pessimista da juventude rica americana que vive em Los Angeles. Sem rumo, sem ideias, sem sentido, apenas com foco consumista, marca da pós-modernidade, no caso, do filme, baseado em fatos reais, quatro garotas e um garoto já ricos (os pais deles, no caso, que tudo dão aos seus filhos, em termos materiais, mas não em educação e orientação), roubam casas de artistas, celebridades e subcelebridades de Hollywood.

Tornando-se também subcelebridades. Uma juventude perdida, que acaba se envolvendo com drogas cada vez mais pesadas e levam uma vida vazia, marcada por falsas aspirações e conceitos de vida; mantendo (falsas) amizades, frágeis e fugazes (líquidas nos termos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman); relações fúteis e até inexistentes com os pais, sem respeito e/ou comunicação com estes.

Retrato não só da sociedade rica americana, mas da sociedade, em especial ocidental até mesmo de países subdesenvolvidos. Não tão distante de nossa realidade. A ostentação dos frutos dos roubos nas redes sociais e entre os conhecidos, como se nada fosse ocorrer em termos de punição legal, e, será que ocorre a punição como deveria ser aplicada pela Justiça?

Fica ao fim, do filme e da história narrada, lembrem-se o roteiro é baseado em fatos verídicos, um clima de vazio e incomunicabilidade e fragilidade de nossas relações interpessoais no mundo contemporâneo.

No século XXI, um século marcadamente consumista, que fazem os ricos roubarem os ricos, só para terem cada vez mais e mais; e, aquilo que o outro já tem é o almejado, já que eles ainda não o têm (se o tem querem cada vez mais e de grifes famosas, num acúmulo crescente e vazio); contudo querem ter só por ter, mesmo que seja furtado de maneira tão absurda.

Como diz a canção de Marcelo Nova: “São noventa pessoas vestidas e prontas para o jantar/Umas vieram em sonho outras chegaram de trem/Elas trocam apertos de mão e presentes tão caros/Cada uma querendo o que a outra já tem”, trecho de O Fantasma de Luís Buñuel, música do álbum O Galope do Tempo, de 2005, essa música que retrata a obra de outro grande cineasta, crítico da burguesia do século passado, Buñuel.

(Imagine então a realidade dos crimes cometidos por pessoas pobres e sem acesso aos meios de emprego, educação, saúde e segurança pública? Imaginem a vida deles e os porquês de suas atitudes? Aí são outros filmes que abordam tal realidade. O debate será sem fim e eterno. Um caos social impera na Humanidade.).
Sofia Copolla está construindo uma filmografia ímpar composta por películas como: As virgens suicidas, Encontros e desencontros, Um lugar qualquer e Maria Antonieta, que mostram o vazio, a falta de sentido existencial e a juventude transviada pós-moderna do século XXI.

Outros temas a incomunicabilidade (Antonioni?), a crítica ao próprio meio artístico americano, em Hollywood, o consumismo, o feminismo, o suicídio, etc. Temas extremamente atuais (e universais!), porém cada vez mais gritantes e emergentes que exigem reflexão e atitude da sociedade civil mundial e das autoridades políticas do mundo inteiro.

Sofia Copolla, hoje, vive um mundo criativo superior ao seu pai e mestre Francis Ford Copolla (da trilogia ímpar O Poderoso Chefão, de filmes excelentes dos anos 70 e 80, como: Apocalypse Now e A conversação, mas que sofreu um declínio nos anos 90, chegando à decadência com o filme Supernova).

 Retomou a melhores momentos em sua carreira com filmes longe dos grandes estúdios estadunidenses, sempre com sua própria produtora, que também financia os projetos da filha; filmes como Tetro e Virgínia, dirigidos por Francis Ford marcam uma melhor fase da carreira de Copolla, quem sabe ele volte a produzir algo de valioso nesse novo século.

Pena que Sofia Copolla demonstrou-se uma fraca atriz em O Poderosos Chefão 3, oportunidade que seu pai lhe deu para atuar, porém fracassou. Seu destino realmente era atrás das câmeras e como roteirista. Ainda bem para nós, cinéfilos!

Destaque também para Roman Copolla que também sempre ajuda e escreve em parceria com os dois cineastas, os roteiros dos filmes de seus dois parentes; e também mantém parceria com um cineasta também genial como Wes Anderson.


Vale lembrar a amizade da família Copolla com George Lucas, que com sua produtora de efeitos especiais, sempre auxilia nessa área específica do cinema os projetos do clã Copolla.”. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

INFÂNCIA – GRACILIANO RAMOS: (memórias, agora autobiográficas).

INFÂNCIA – GRACILIANO RAMOS:

(memórias, agora autobiográficas).

(Resenha por Rafael Vespasiano).


Graciliano Ramos já era uma unanimidade como romancista, quando resolveu investir em livros de teor autobiográfico. Já que seus quatro primeiros livros foram romances mnemônicos.

Caetés, 1933, memórias da personagem-protagonista, um escritor, João Valério, que narra em primeira pessoa seu processo de criação do romance dentro do romance “Caetés”.

No seu segundo romance, São Bernardo, publicado em 1934, também em primeira pessoa, o narrador-protagonista, Paulo Honório, revisita o seu passado na busca em encontrar justificativas para o suicídio da esposa e o porquê dele, PH tem se tornado um “homem bruto”, escrevendo suas próprias memórias.

No romance Angústia, lançado em 1936, o processo mnemônico atinge seu ápice na figura do narrador também em primeira pessoa, Luís da Silva, um jornalista frustrado, que deseja ser escritor (e tem talento para isso), com seu testemunho memorialístico dos fatos de toda sua vida até chegar ao ponto culminante da sua existência, que é marcado pela tragédia, pelo assassínio e pela “angústia”, que ele tem escrito o seu “romance”.

No quarto e último romance de Graciliano Ramos, Vidas secas, de 1938, as coisas se dão pelo ponto de vista de um narrador intruso, em terceira pessoa, mas que é personativo e dá voz às personagens, por um discurso indireto livre. As personagens, em quadros narrativos, mostram sua miséria e sua vida de retirantes nordestinos, com tom mnemônico, contudo.

Depois desses quatro romances, Graciliano não escreveu mais obras romanescas, mas só memória autobiográfica, a exceção do romance em colaboração: Brandão Entre o Mar e o Amor (1942) (com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz.); literatura infanto-juvenil, correspondência, traduções, contos e crônicas. O seu primeiro livro autobiográfico já foi um clássico do gênero, lançado, em 1945.

 Trata-se das memórias intituladas Infância: um livro mnemônico de sua vida infantil – contudo, as memórias de Graciliano Ramos são trabalhadas de uma forma, que acabam também sendo ficção, romanceadas -, pois o autor mistura as confidências memoriais com certa imaginação ficcional.

Graciliano Ramos, em sua infância, mostra-se um ser solitário; os pais o proibia de brincar com os outros meninos de mesma idade. Inclusive, apanha do pai, pois este descontava nos filhos os “aperreios” que sofria, por causa da seca, que proporcionava pobreza, miséria, péssimas condições de sobrevivência e, inclusive, proporcionava a fome, então, o pai nervoso e triste com toda essa situação, batia nos filhos, incluindo, Graciliano, para extravasar, desabafar o que sentia de raiva contra a seca, esta é uma justificativa que o autor cria para entender e compreender o porquê das surras do pai nele.

Graciliano Ramos também confidencia como foi a sua aprendizagem das primeiras letras - quando errava no processo de alfabetização, levava bolos de palmatória do pai. Graciliano teve dificuldade em aprender a ler e a escrever, não entendia a utilidade e/ou servetia de tal conhecimento. Porém, aprende a ler, mas não entende o que está sendo lido.

Graciliano Ramos, como toda criança, acha ruim estudar/ler/escrever, porém, paradoxal para uma pessoa que, futuramente, tornar-se-ia leitora assídua de obras literárias e também escritora de clássicos da Literatura Universal.

A infância de Graciliano Ramos, em suma, é narrada pelo próprio autor, por meio de memórias, mas estas o autor fazer questão de ficcionalizá-las, para que um simples livro de memórias torne-se mais do que isso: torne-se um livro atrativo e diferente dos demais livros de memórias que se faziam e ainda se fazem - objetivos e frios -, já a obra mnemônica autobiográfica Infância, de Graciliano Ramos é sugestiva, provocando emoções e sensibilizando o leitor.  


OBRAS COMPLETAS DE GRACILIANO RAMOS:

Romances: Caetés (1933) • São Bernardo (1934) • Angústia (1936) • Vidas Secas (1938) • Brandão Entre o Mar e o Amor (1942) (em colaboração com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz.);

Contos: A Terra dos Meninos Pelados (1939) • Histórias de Alexandre (1944) • Dois dedos (1945) • Histórias Incompletas (1946) • Insônia (1947) • Alexandre e Outros Heróis (1962);

Memórias: Infância (1945) • Memórias do Cárcere (1953);

Crônicas: Viagem (1954) • Linhas Tortas (1962) • Viventes das Alagoas (1962);

Correspondências: Cartas (1980) • Cartas de amor a Heloísa (1992);


Traduções: Memórias de um Negro, de Booker T. Washington (1940) • A Peste, de Albert Camus (1950). 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

MODERNISMO LITERÁRIO BRASILEIRO: (ANOS DE COMBATE: 1922-1945)

MODERNISMO LITERÁRIO BRASILEIRO:

(ANOS DE COMBATE: 1922-1945)

(Estudo por Rafael Vespasiano).

INTRODUÇÃO

(antecedentes e vanguardas artísticas surgidas antes da Semana de Arte Moderna de 1922):


“Este presente estudo pretende aprofundar o post “O popular e o erudito em Cobra norato, de Raul Bopp, postado neste blog, de minha autoria, no dia 25 de outubro do corrente ano. E fazer algumas correções do que foi dito lá.

Em primeiro lugar, veja-se que o movimento modernista no Brasil não se deu de forma instantânea, ocorreu um decurso preparatório para a eclosão do estilo: Simbolismo, Pré-Modernismo, Vanguardas Artísticas Europeias se fazendo perceber nos escritos dos autores brasileiros do final do século XIX, início do século XX. Futurismo, Dadaísmo, Expressionismo, Cubismo, Surrealismo, etc.

A Semana de Arte Moderna de 1922 é o pontapé inicial do movimento como escola ou grupo(s), ou tendências modernistas, mas todas como o valor estético de “moderno” ou “modernismo”. Realizada em São Paulo, nos dias de 11 a 18 de fevereiro de 22, no Teatro Municipal-, vale destacar, contudo, que autores modernistas que participaram ou não daquela, alguns deles já tinham publicados alguns livros com tendências modernistas e/ou revistas, artigos ou apenas travaram conhecimentos com as ideias modernistas da Europa do início do século XX, a saber: “Oswald de Andrade conheceu em Paris o Futurismo que Marinetti, em 1909, lançara pelas páginas do Fígaro no famoso Manifesto-Fundação;”. (BOSI, 2003, p. 332).

Já Manuel Bandeira, poeta do poema “Os sapos”, lido por Ronald de Carvalho, na Semana de 22, da qual Bandeira não quis participar diretamente, pois se considerava mais velho que o grupo e, de fato tinha 30 anos a mais que os jovens modernistas, e já publicara, em 1917, A cinza das horas, e, Carnaval, em 1919. Livros neo-simbolistas, penumbristas, sendo que o segundo livro de poemas, já marcado mais por características antecipadoras do modernismo.

“O termo futurismo”, segundo Alfredo Bosi, “com todas as conotações de ‘extravagância’. ‘desvario’ e ‘barbarismo’, começa a circular nos jornais brasileiros a partir de 1914 e vira ídolo polêmico na boca dos puristas.” [grifos do autor] (Ibidem, p. 332). Ainda segundo o crítico-historiador Bosi:

o fato cultural mais importante antes da Semana e que serviu de barômetro da opinião pública paulista em face das novas tendências foi a Exposição de anita Malfatti em dezembro de 1917. Quem lhe deu, paradoxalmente, certo relevo foi Monteiro Lobato que a criticou de modo injusto e virulento em um artigo intitulado “Paranoia ou Mistificação?”. Já me referi à contradição moderno-antimoderno, ou melhor, moderno-antimodernista, que dividiu a consciência de Lobato, ele próprio medíocre paisagista acadêmico e avesso a todas as correntes estéticas do século XX. Anita Malfatti trazia a novidade de elementos plásticos pós-impressionistas (cubistas e expressionistas), que assimilara em sua viagem pela Alemanha e pelos Estados Unidos. Defenderam-na, primeiro Oswald e, pouco depois, Menotti del Picchia; Mário de Andrade esteve entre os admiradores da primeira hora. (Ibidem, p. 333).


O próprio Mário de Andrade publicara, em 1917, um livro Há uma gota de sangue em cada poema, antibelicista. “Quanto à prosa inicial de Oswald de Andrade, padeceu também de um alto grau de hibridismo, patente não só em Os condenados, romance de estreia, como também nas páginas de crítica (...).”. (Ibidem, p. 333-34).

De Menotti del Picchia já saíra vários livros oscilando do parnasiano ao “poemeto regionalista, (...), [de] ritmo fácil e [de] (...) estofo sentimental, logo se tornou sua obra mais lida e plenamente aceita até pelos medalhões da época” (Ibidem, p. 334), que são as características principais do seu livro de maior sucesso à época junto ao público, Juca Mulato.

Em suma, “também acadêmica foi a primeira face poética de Cassiano Ricardo (Dentro da noite, 1915; Evangelho de Pã, 1917; Jardim das Hespérides, 1920), que, (...), iria renovar-se radicalmente sob a influência do Modernismo.” (Ibidem, p. 335).”      




ECLOSÃO DA SEMANA DE ARTE MODERNA (MODERNISMO):

“É de Mário de Andrade o indicativo mais persuasivo do Modernismo aflorando no Brasil, com o livro de poemas, Pauliceia desvairada, “obra conhecida pelos modernistas antes da Semana, e primeiro livro de poesia integralmente nova.” (Ibidem, p. 336). Para acontecer a Semana de Arte Moderna tudo estava preparado, a coesão paulista, os contatos de São Paulo com os intelectuais do rio de Janeiro (Manuel Bandeira, Renato de Almeida, Villa-Lobos, Ronald de Carvalho) e, até, a adesão do acadêmico pré-modernista, mas entusiasta da renovação moderna, Graça Aranha, autor de Canaã. O Modernismo como estilo estava maduro para começar...”


MACUNAÍMA, O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER – MÁRIO DE ANDRADE:

“Antes de falar da obra de Mário de Andrade, uma obra-síntese do movimento antropofágico modernista, falemos de alguns preâmbulos para entendermos melhor a importância de Macunaíma.

A Semana serviu de “plataforma que permitiu a consolidação de grupos, a publicação de livros, revistas e manifestos, numa palavra, o seu desdobrar-se em viva realidade cultural.” (Ibidem, p. 340). Em, 1922, finalmente Mário de Andrade publica Pauliceia desvairada; vêm a lume As memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, no ano seguinte. Em 1924, O ritmo dissoluto, de Bandeira. Em 1925, A escrava que não é Isaura, também de Mário; Pau-Brasil, de Oswald; Chuva de Pedra, de Menotti del Picchia. Em 1926, Losango cáqui, de Mário de Andrade; Vamos caçar papagaios, de Cassiano Ricardo; O estrangeiro, de Plínio Salgado. Em 1927, Amar verbo intransitivo e Clã do Jabuti, de Mário; Estrela de Absinto, de Oswal de Andrade. Em 1928, Macunaíma, de Mário de Andrade - síntese de tudo que ocorrera em termos literários modernistas até esse ano e, enumerados neste longo parágrafo -; Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, e “a redação inicial de Cobra Norato” (Ibidem, p. 340), de Raul Bopp, “que só o publicaria três anos mais tarde.” (Ibidem, p. 340).

Em maio de 22, surge a revista Klaxon, “mensário de arte moderna” [grifos do autor] (Ibidem, p. 340). A qual durou nove números, possuía duas linhas vanguardistas, a futurista: “a linha de experimentação de uma linguagem moderna, aderente à civilização da técnica e da velocidade”; e a outra tendência modernista vanguardista era: “a primitivista, centrada na liberação e na projeção das forças inconscientes, logo ainda visceralmente romântica, na medida em que surrealismo e expressionismo são neo-romantismos radicais do século XX.” [grifos do autor] (Ibidem, p. 340).

Contudo, a incongruência, ou melhor, a falta de direção, de uma linha-mestra da revista Klaxon quanto às diretrizes modernistas do movimento, levou à:

indefinição dos dois maiores renovadores [Mário e Oswald], porém, se de um lado revela sofrível coerência estética e incapacidade de discernir ou de escolher no turbilhão de ismos importados da Europa, terá sua explicação no próprio contexto do Modernismo brasileiro: dividido entre a ânsia de acertar o passo com a modernidade da Segunda Revolução Industrial, de que o futurismo foi testemunho vibrante, e a certeza de que as raízes brasileiras, em particular indígenas e negras, solicitavam um tratamento estético, necessariamente primitivista. O que parece apenas incongruência em Klaxon terá frutos em toda a década e se chamará Macunaíma, Pau-Brasil, Cobra Norato, Martim Cererê. [grifo meu] (Ibidem, p. 341).


Dessa forma, começam a surgir grupos, revistas e manifestos antagônicos e rivais, mas, no fundo, com a mesma proposta principal, em seus exemplares, o primitivismo, que deveria marcar o primeiro momento do modernismo literário brasileiro, na busca da renovação literária e das Artes no país; a Geração que vai de 1922-1930, a mais combativa das três gerações do Modernismo nacional; a de 1930-1945, também é combativa, mas apenas no começo; a Geração de 22, já fizera um estrago ao conservadorismo artístico e acadêmico brasileiro; a Geração de 30, apenas aprofundou a renovação literária e artística proposta pelo Modernismo para as Artes brasileiras; – já a última Geração Modernista, que se inicia em 45 e vai, até mais ou menos, 1960, (lembrando que as classificações literárias, de modo estanque, são relativas e servem apenas como parâmetro, mas não como avaliação estética e estilística das obras e dos autores de qualquer estilo literário ou artístico em geral. Pois, são reducionistas, porém servem para podermos ter uma ideia do alcance de uma teoria estética, de uma proposta artística, de quando começou, ou se originou e até onde foi forte, até se esmaecer. E iniciar outra corrente estética com outras características definidoras do estilo literário dos autores e obras que tomam conta e lugar dos antecessores, mas sem desprezá-los, nem suas contribuições e sempre recebendo suas influências); - encontra o terreno modernista consolidado e pode caminhar sem necessidade de combate árduo para provar algo que já estava amadurecido nas Letras nacionais: o Modernismo.”

QUATRO MANIFESTOS (GRUPOS) MODERNISTAS PRIMITIVISTAS:

“Retomando a questão da década de 20, do primitivismo:
assim, o Manifesto Pau-Brasil lançado por Oswald de Andrade em 1924 entra por uma linha de primitivismo anarcóide, afim às suas origens de burguês culto em perpétua disponibilidade; a Pau-Brasil contrapõe-se uma corrente de nacionalismo não menos mítico, cheio de apelos à Terra, à Raça, ao Sangue, o Verde-amarelismo (1926), de Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado. Este último iria enveredar por um ideário político direitista, já “in nuce” no grupo neo-indianista da Anta, o totem dos tupis (1927), que seria, por sua vez revidado com sarcasmo pela Revista de Antropofagia (28) de Oswald, Tarsila e Raul Bopp entre outros, cujo Manifesto exacerba as posições de Pau-Brasil, quer regredir ao matriarcado primitivo (sic) já agora sob sugestões de um Freud equívoco e mal deglutido. [Grifo meu] (Ibidem, p. 342-43).


O quê ficou desses quatro grupos? Os quatro manifestos serviram para quê? Serviram para consolidar o primitivismo literário modernista, como a primeira linha estética a ser desenvolvida pelos primeiros autores modernos do Brasil. No post de 25 de outubro de 2014, publicado neste mesmo blog, falamos de Cobra Norato, de Raul Bopp, justamente o último livro publicado do movimento primitivista do modernismo brasileiro, ligado à Revista da Antropofagia de Oswald de Andrade, o livro veio à lume em 1931. E do qual já tratamos, falemos agora de Macunaíma, de Mário de Andrade, publicado em 1928, ligado a Pau-Brasil e à Revista da Antropofagia, ambas idealizadas por Oswald de Andrade. Assim, como o livro de Bopp, Macunaíma é uma obra antropofágica na essência. Assim, afirmou o próprio escritor do Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade.

Macunaíma é uma verdadeira obra-prima, que chocou aos leitores da época, 1928, e ainda choca, pois prova que a maioria do povo brasileiro não conhece a cultura brasileira, suas lendas, seu folclore, etc., tanto a de origem africana, como a indígena e também a do homem europeu / branco que colonizou o Brasil. Essa falta de conhecimento de nossas tradições e cultura fica evidente quando não entendemos as palavras que o autor usa no livro, nomes populares de plantas, animais, termos indígenas e africanos de folclore e lendas / tradições. Mas mesmo assim é importante lê-lo, para, enfim, conhecer um pouco mais da nossa cultura, como o bumba-meu-boi, o negrinho do pastoreio, etc.

A história fica, portanto, em segundo plano, já que o mais importante é tomamos consciência de que não conhecemos nossa própria cultura e, que, a partir da leitura de tal livro, comecemos a nos informar sobre nossa cultura e, dá menos valor ao estrangeiro (EUA, ING, FRA), e valorizar mais o nosso; Evidente que tem coisas nesses países que devemos valorizar, por que são boas e importantes estéticas e artisticamente falando, mas deveríamos pegar estas e “degluti-las”, como diz Oswald de Andrade, em seu Manifesto Antropofágico, que pregava que deveríamos nos apossar do que há de melhor do estrangeiro, “devorá-lo”, e “transformá-lo”, juntando-o à nossa cultura, em algo de valor estético tão bom quanto ou superior esteticamente e literariamente/artisticamente.

Macunaíma é um exemplo forte disso, como o próprio Oswald escreveu que aquele livro é um exemplo máximo da Antropofagia e do Futurismo, o que é certo, pois o livro tem fortes influências futuristas e antropofágicas, porém, Mário de Andrade negava tudo isso, pois ele não gostava de rotular sua obra, porém não há como negar que existem tais traços.

Isso também acontece em outros livros de Mário, como: Pauliceia Desvairada, em poemas como: “Prefácio Interessantíssimo” (crítica irônica e sarcástica aos Parnasianos, estes eram combatidos pelos Modernistas); em Pauliceia Desvairada, é mostrado o dia-a-dia, o cotidiano da cidade de São Paulo, verdadeira paixão de Mário, ele mostra as máquinas (os carros), os postes de luz, as buzinas, os barulhos, etc. Estes são todos elementos Futuristas; “Ode ao Burguês” é um poema que ironiza a classe burguesa.

O Café é um livro de poemas que fala sobre a cultura cafeeira em São Paulo, sua decadência e, por final, a falência dos Barões do Café; Lira Paulistana é um livro de poemas, em que Mário de Andrade narra, detalha e valoriza o Rio Tietê, naquela época, este era ainda limpo e navegável, e servia para tomar banho e pescar, mas, Mário já alertava para a degradação iniciada sobre o Rio Tietê.

Um último detalhe sobre a figura da personagem Macunaíma, ela é a síntese do povo brasileiro, pois o seu nome e origem são indígenas, mas Macunaíma é negro e depois, magicamente, torna-se branco, portanto, de forma genial e bastante original, Mário de Andrade mostrou a formação e miscigenação do povo brasileiro, que é, justamente, a junção do branco, do índio e do negro.”

MARTIM CERERÊ - CASSIANO RICARDO:


“Cassiano Ricardo é um poeta da Primeira Geração Modernista, a de 1922, que vai até 1930. Essa Primeira Geração é de caráter essencialmente nacionalista, primitivista, como já foi afirmado mais acima o que pode ser percebido com esse livro "Martim Cererê", publicado em 1928, que apresenta o mito fundador do povo e do território brasileiros. Ligado ao grupo Verde-amarelismo, lançado em Manifesto, em 1926, por Cassiano, Plínio Salgado e Menotti del Picchia, em resposta ao Manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade. Aquele primeiro grupo prega um nacionalismo mítico, mas não tão antagônico quanto se possa imaginar ao primitivismo Pau-Brasil de Oswald.

Aqui se faz a correção ao post anteriormente publicado em que lá eu afirmava: “O livro, Cobra Norato, faz parte do movimento modernista brasileiro de (sic) tratar dos temas populares e primitivos da cultura popular do país. Geralmente, aproximo aquele livro de poemas, de Raul Bopp, às obras Martim Cererê, de Cassiano Ricardo e Macunaíma, de Mário de Andrade; os dois primeiros em verso e, Macunaíma, em prosa; três livros que deram novos rumos à Literatura Brasileira.”.

De fato, os três livros são primitivistas e nacionalistas, mas pelo que eu afirmei dar a entender que os três são ligados ao Manifesto Pau-Brasil e à Revista da Antropofagia, ambas idealizadas por Oswald de Andrade. É só ler o post inteiro e vocês, leitores perceberão que é isso que sugiro: os três livros são “antropofágicos”, na filiação a Oswald. Mas, na verdade, esta filiação é só o caso de Cobra Norato e de Macunaíma, respectivamente, de Raul Bopp e Mário de Andrade.

Martim Cererê é uma obra em versos, primitivista, também nacionalista e mítica, mas filiada a um movimento contraposto à Poesia Pau-Brasil de Oswald, Cassiano Ricardo e seu Martim Cererê, são filiados ao grupo Verde-amarelismo. Rivais, mas com as mesmas propostas estéticas, vejamos:

Martim Cererê é a figura-síntese da formação do nosso povo, ela representa a miscigenação entre brancos, negros e índios, que originou o povo brasileiro. A explicação do nome é a seguinte: os índios nativos do Brasil tinham a lenda do Saci Pererê, com a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500, o nome "Saci" foi mudado para "Martim" e, com a vinda dos escravos africanos o termo "Pererê" transformou-se em "Cererê", constituindo a figura do "Martim Cererê", uma figura fantasiosa, fabulosa e lírica, que representa o mito fundador do povo brasileiro.

Outro aspecto levantado, na obra de Cassiano, é o da constituição e estabelecimento do território brasileiro feito pelas figuras dos bandeirantes, que desbravaram o sertão e o interior do país, de norte a sul, leste a oeste, partindo da Vila de São Vicente, a atual cidade de São Paulo, capital do estado de São Paulo.

O livro valoriza muito as figuras dos bandeirantes ligados em muito à história do estado de São Paulo. Além do mais a cidade de São Paulo, à época em que o livro foi publicado, 1928, já era (e é) a capital econômica do país. Cassiano mostra isso também ressaltando o comércio e as plantações de café do estado de SP, responsáveis pela riqueza do mesmo, sendo o café paulista exportado para vários países do mundo todo. Todo esse lado "paulista" do livro serve para ressaltar a formação do território brasileiro (estabelecido em grande parte pelos desbravamentos feitos pelos bandeirantes, inclusive, Cassiano escreve que o território brasileiro é em forma de "harpa", muito poético de sua parte!) e do povo brasileiro representado pela figura-síntese-mística do "Martim Cererê" (junção das três etnias que constituem o povo brasileiro, a saber: a branca europeia, a negra africana e a indígena autóctone.).

A obra é uma aula de brasilidade e cor local, parente próximo dos livros Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade e, Cobra Norato, de Raul Bopp, ambos também da Primeira Geração Modernista Brasileira. Mas, lembrando, pela última vez, as três obras modernistas e combativas da Geração de 22 são nacionalistas, míticas e primitivistas, contudo, Martim Cererê do grupo Verde-amarelista, e Macunaíma e Cobra Norato filiadas à Poesia Pau Brasil e ao movimento Antropofágico.

Apenas para dar nomes aos bois, pois os três livros possuem o mesmo intuito e a mesma gênese: a cultura popular brasileira, a estrutura dos livros é baseada na formação mítica e primitivista do nosso povo e cultura; as quais dariam a verdadeira identidade à nossa Literatura Moderna - a cor local e a definição estética e estilística literária do Modernismo brasileiro, em seus primeiros momentos de combate ao academicismo ainda relutando em cair. Mas que caiu! (Caiu?!...)”.



REFERÊNCIA BILIOGRÁFICA:


BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2003.