segunda-feira, 20 de abril de 2020

(Pânico no Ano Zero, Ray Milland, EUA, 1962): (“Não deve haver um fim, mas um (novo) começo”):


(Pânico no Ano Zero, Ray Milland, EUA, 1962):
(“Não deve haver um fim, mas um (novo) começo”):

Frankie Avalon, Ray Milland, Richard Bakalyan, Neil Burstyn, Joan Freeman, Jean Hagen, Rex Holman, and Mary Mitchel in Panic in Year Zero (1962)

“Pânico no Ano Zero é dirigido e estrelado pelo astro Ray Milland, lançado em 1962, no auge da Guerra Fria entre EUA e URSS, trata-se de um dos primeiros filmes pós-apocalípticos a questionar como seria a Humanidade nos primeiros dias, após a queda da primeira bomba atômica.
Sem se preocupar com mirabolantes efeitos especiais, até por se tratar de um filme-B produzido pela companhia cinematográfica comandada por Roger Corman, e sem abordar o roteiro pela perspectiva governamental ou dos exércitos das grandes potências, a história tem como ponto de vista uma pequena e tradicional família de Los Angeles, que tinha ao início do filme um simples propósito de acampar.
Ao sair de LA, a família chefiada por Harry (Milland) se depara no retrovisor do carro com que parece ser um raio, a pergunta que vem é simples: será que vai chover? Até o momento posterior em que surge o tão temido cogumelo nuclear, agora resta lutar pela sobrevivência no caos que irrompe. Nos primeiros momentos, após o apocalipse atômico, a Humanidade se desespera, buscando soluções imediatistas, instintivas de sobrevivência, tais como estocar mantimentos, saquear os outros, entre outras atitudes não-civilizadas.
Outro questionamento que surge é o do isolamento social total, Harry busca se isolar com sua esposa e seus dois jovens filhos, para assim proteger sua família, dos saques que surgem, dos assassinatos e da desordem que imperam a partir de então, em uma área de camping distante e pouco movimentada. Em uma metáfora interessante se deparam com pinturas rupestres que remontam à Idade Antiga da civilização. Pois não seriam os momentos que a Humanidade está vivenciando nesta altura do filme, senão os (novos) primórdios da (nova) civilização, após a hecatombe atômica? Ou seja, a ideia não de um fim, mas de um (novo) começo? 
Destaque para mais uma atuação segura de Milland, premiado como melhor ator por Farrapo Humano, de 1945, de Billy Wilder, e destaque no hitchcockiano Disque M para Matar, 1954. O astro hollywoodiano sempre interpretou personagens decadentes e amorais, mas a partir dos anos 1960 começou a interpretar pais de família dedicados em proteger a moral e a segurança de seus familiares, é o caso deste filme em análise, em que Ray Milland vive Harry um pai obcecado em proteger os seus parentes próximos, mesmo que para isso tome atitudes que condena e odeia, que causa nele um drama de consciência.
Este drama de consciência é ampliado por sua esposa Ann, que é uma personagem que faz um contraponto às atitudes de Harry, é uma espécie de voz que tenta conscientizar o esposo para ter mais altruísmo para com o restante da sociedade e não apenas para com seus familiares mais próximos.
Pânico no Ano Zero conta ainda com uma boa trilha sonora jazzística assinada por Les Baxter, que confere dinamismo ao filme em alguns momentos de tensão do roteiro escrito por Jay Simms e John Morton, baseado em dois contos de Ward Moore. 
As reflexões se somam em um filme-B que nos surpreende positivamente. Um thriller e clássico filme de ficção-científica, que fez muito sentido para seus espectadores nos anos 1960 e ainda nos faz hoje, nesta releitura em tempos difíceis da Pandemia da Covid-19, em 2020, pois o que questionamos atualmente senão: como retornar e retomar à normalidade, após debelada a Pandemia?”

sábado, 4 de abril de 2020

(O Leito da Virgem, França, 1970, Philippe Garrel):

(O Leito da Virgem, França, 1970, Philippe Garrel):

Le lit de la vierge (1970)

O Leito da Virgem não é uma história bíblica do Novo Testamento, nem uma obra sobre Maria, Jesus ou Deus, mas um filme de Philippe Garrel sobre as origens, o tudo e o nada do ser humano, o começo e o fim da Humanidade, ou seja, o meio que é vida antes da morte que é passagem para o Nada onde Tudo se inicia...
Esta circularidade é perceptível quando o filme de Garrel começa com a cena em que Jesus nasce no leito de Maria numa ponte sobre o mar, ele já nasce assustado e horrorizado perante o caos da Humanidade envolta em guerras, destruição, ruínas e crimes, buscando ouvir a voz de seu pai, Deus, a qual ele não consegue ouvir. Maria tenta acalmá-lo e o manda em sua missão: redimir a humanidade. Porém, será que ela o ouvirá? Ou ele não está pronto para ser ouvido? Pois, o que se percebe é um movimento duplo: a Humanidade está perdida e Jesus o está tão perdido quanto, em sua insegurança, imaturidade, em seu abandono, em sua solidão, em sua depressão.
Maria (Zouzou) e Maria Madalena (também interpretada por Zouzou) são faces da mesma mulher, a mãe-virgem e a amante-prostituta -, (talvez uma proximidade com o cineasta Jean Eustache, amigo de Garrel e uma das influências para seus filmes, guardando as devidas peculiaridades de cada diretor e de cada obra, cita-se A Mãe e A Puta, dirigida por Eustache, em 1973, que tanto em aspectos temáticos quanto em aspectos técnicos, tem similaridades e particularidades com este filme garreliano e outros de sua lavra) -, faces da mesma moeda, portanto duplos do “Bem-e-do-Mal” e do Divino-e-do-Profano”.
Filmado em um preto-e-branco-scope terrivelmente e assombrosamente solitário e angustiante O Leito da Virgem sugere o caos humano, as ruínas das relações interpessoais, a alteridade em frangalhos diante e meio a crimes e guerras de todos os tipos, espalhadas junto a todos os tipos de males, quando da cena em que a Caixa de Pandora é aberta por Maria Madalena, ou será que foi aberta por Maria?
Outra cena emblemática dá-se quando Maria Madelena, ou talvez Maria, está grávida e Jesus se abandona nas profundezas do mar revolto, abandonado desta forma, sua amante ou mãe, ou as duas, e seu filho, da mesma forma que fora abandonado por seu pai, Deus. Dessa maneira o filme é circular pois começa e termia, para iniciar de novo com: nascimento, morte, abandono...
Mítico também é o espaço e o tempo em que ocorrem as ações um tanto quanto episódicas da obra garrelina, espaço e tempo indeterminados, dando um caráter parabólico, porém pessimista e solitário da Humanidade, um teor atemporal, universal destes seres humanos tão horríveis em sua beleza criadora e destrutiva ao mesmo tempo. O leito do nascimento é também o leito da morte...
A cruz de Jesus e também dos cineastas, dos artistas em geral, é saber da incompreensão de seus atos e das suas obras, o abandono e a solidão, não são somente de Jesus, porém de Garrel e de todos os artistas por consequência, e, enfim, de todos nós-humanos. ”

segunda-feira, 23 de março de 2020

(As Amorosas, Walter Hugo Khouri, Brasil, 1968):


(As Amorosas, Walter Hugo Khouri, Brasil, 1968):


“Do Nada viemos para o Nada retornaremos. Desta maneira circular dá-se também roteiro do filme de Walter Hugo Khouri, “As Amorosas”, lançado em 1968.  O roteiro escrito pelo próprio cineasta mostra a travessia de Marcelo (Paulo José) que vive uma existência em crise consigo, com os outros e coma sociedade de uma maneira geral. O filme começa como protagonista à deriva numa mata, à deriva ele percorre sua trajetória a obra toda, e ao fim e ao cabo, à deriva permanecerá como todos os seres humanos, pois a maior revelação talvez que o espectador tenha é que nossas vidas são vividas em devir. O eterno retorno ao ventre materno, a posição fetal onde o Tudo e O Nada começa é também o fim do Tudo e do Nada, que na verdade é apenas o Meio.
 Marcelo se relaciona em frangalhos com sua irmã Lena (Lilian Lemmertz), com sua namorada Marta (Jacqueline Myrna) e com sua amante Ana (Anecy Rocha). Porém, é sua vida pessoal, psicológica e existencial que está em frangalhos e em crise, por isso talvez ele tenha uma perspectiva niilista em relação à sociedade e, principalmente, para consigo, já que suas tentativas de tomar atitude são sempre tão frustradas quanto sua própria existência, sua força de vontade se esgota quanto apenas esboça uma formulação de tentar algo em sua jornada. Marcelo cursa a faculdade de Cinema, é revisor, tradutor e crítico de Artes, mas não desenvolve nada, nulifica-se sempre em si mesmo e em suas relações. Por exemplo, ao dar um depoimento para um documentário ele testemunha que não vislumbra e não deseja nada. Talvez aqui resida sua maior descoberta: ele auto-descobre inapto para o viver. ”

terça-feira, 17 de março de 2020

(O Exército das Sombras, FRA-ITA, 1969)


(O Exército das Sombras, FRA-ITA, 1969):

O Exército das Sombras é uma tensa, opressiva e claustrofóbica obra de Jean-Pierre Melville, produção franco-italiana, lançada em 1969, sobre a Resistência Francesa aos nazistas alemães que ocupavam a França durante a Segunda Guerra Mundial. O filme enfoca o período de quatro meses decorridos no final do ano de 1942 até o início de 1943, que tem como protagonistas um pequeno grupo da Resistência Francesa, que tem como um dos líderes Philippe Gerbier (Lino Ventura), um engenheiro civil, que de forma circunspecta, de poucas palavras, cético e fatalista junto aos seus camaradas enfrentam os nazistas que ocupam as cidades francesas.
Melville baseando-se no livro de Joseph Kessel ressalta no filme como o ‘Exército das Sombras’ agia, além de revelar a solidão, o medo e as angústias diárias dos seus membros, sem mirabolantes explosões típicas de muitos filmes sobre a Segunda Grande Guerra, e sem violência explícita, pelo contrário se faz valer de um brilhante roteiro para desvelar a violência ou melhor a tensão psicológica que os protagonistas do filme vivenciam e experimentam. Somada à uma fotografia em cores sombrias, frias e com aspecto que nos sugere opressão, claustrofobia e até o medo que as pessoas vivenciaram durante a Guerra. A direção da excelente fotografia é assinada por Pierre Lhomme e Walter Wottitz.
 Destaques também para as atuações de Ventura como o frio, solitário, fatalista e cético Gerbier, e a interpretação de Simone Signoret como a impactante, forte e obstinada Mathilde.
Uma das questões mais impressionantes do filme é a pressão ininterrupta do medo de errar, a tensão e a falta de diversão dos membros da Resistência. O filme é trágico, sem ilusões, nos faz perceber que Guerra é sempre triste, solitária e trágica. ”

segunda-feira, 16 de março de 2020

(XINGU-TERRA, Maurren Bisilliat, Brasil, 1981)


(XINGU-TERRA, Maurren Bisilliat, Brasil, 1981):

“XINGU-TERRA é um documentário antropológico e etnográfico sobre o cotidiano da aldeia indígena Mehinaku do Alto Xingu extremamente valioso, lançado em 1981, dirigido pela fotógrafa Maureen Bisilliat, com narração de Orlando Villas-Boas.
Mostra desde a plantação e a colheita da mandioca, passando pela pesca, pela preparação da tinta de urucum, explicando a modelagem da cerâmica da tribo. Ressalta como se dar a divisão das tarefas entre homens e mulheres; que a terra é coletiva; que o chefe é visto não como uma pessoa que dar ordenas, mas um conselheiro; o relacionamento amistoso entre pais e filhos, baseado no diálogo que os pais sempre têm com os filhos pautado pela igualdade e respeito; apresenta o sistema de valores que regem e mantém o equilíbrio entre o homem, a aldeia e a natureza, além de mostrar suscintamente alguns aspectos da cosmogonia da tribo. São apresentados e reproduzidos os rituais que relembram os tempos matriarcais, desde os preparativos, o cerimonial de casamento para o homem e a mulher, o tempo de reclusão dos jovens indígenas no tempo da puberdade, fazendo a transição da infância para a fase adulta da vida, a ritualística que que se procede no intercâmbio de uma aldeia com outra, culminado com a grande celebração da Festa do Yamuricumã. (Fonte: Guia de Filmes, extraído do site da Cinemateca Brasileira).
Importante ressaltar a sabedoria deste povo originário por exemplo no que se refere ao Tempo, que na verdade para ele só existe o Presente, o Tempo da Vida e do Viver. Além de uma noção clara de que a existência do homem se dar em devir, em ciclos em consórcio com a Natureza, fauna e flora, e com os espíritos ancestrais e dos deuses. Ressalte-se também a harmonia das suas relações sem julgar os outros membros da tribo.
Filme importantíssimo para ser redescoberto nos dias de hoje, quando no Brasil tenta-se vender uma ideia falsa de que todos os povos originários e indígenas devem obrigatoriamente se integrar à sociedade regida pelo homem branco. Não o ouvindo e entendendo sua singularidade e nem se importando com sua humanidade e menos ainda tendo relações de altruísmo e alteridade para com nossos povos originários. É dos indígenas a decisão de ou se integrar total ou parcialmente à sociedade é quem manda é o homem branco, ou permanece até em alguns casos totalmente isolados, como de fato e de direito existem ainda alguns povos no Brasil neste estado e estágio civilizatório. ”

terça-feira, 10 de março de 2020

Voar é com os Pássaros (Robert Altman, EUA, 1970):


Voar é com os Pássaros (Robert Altman, EUA, 1970):

Brewster McCloud (1970)

“Robert Altman realiza aqui uma das suas maiores excentricidades fílmicas e um de seus melhores trabalhos para o cinema, justamente nos anos 1970, quando Hollywood passou a contar com o surgimento de novos cineastas a realizar produções de baixo orçamento e obras maravilhosas, ousadas e inovadoras que são clássicas e-ou cults até hoje. É o caso de Voar é com os Pássaros, lançado em 1970, no mesmo ano de outro clássico dirigido por Altman, M*A*S*H.
Em Voar é com os Pássaros, o cineasta nos apresenta uma história de fantasia amalucada povoada por personagens excêntricos, que beiram à bizarrice. Porém, suas ações e atos servem como forma de Altman baseado no roteiro de Doran William Cannon, criticar e ironizar sarcasticamente à sociedade estadunidense da década de 1970 e, mais ainda criticar as amarras sociais às quais qualquer cidadão está submetido, em qualquer sociedade, em quaisquer tempos e em qualquer país. Ou seja, para o cineasta Robert Altman ninguém é completamente livre na Humanidade, talvez somente a liberdade plena caiba aos pássaros.
 Assim como em M*A*S*H, Voar é com os Pássaros tem uma espécie de narrador, que cria um elo entre o espectador e as personagens, neste filme é um amalucado e excêntrico professor e ornitólogo, que parece nos afirmar que de fato somente os pássaros são livres em plenitude. O filme, dessa forma, escancara ironicamente as mazelas sociais e políticas dos Estados Unidos da América, a suposta Terra da Liberdade e das Oportunidades, mostrando a hipocrisia da polícia nas diversas cenas em que esta é ridicularizada, juntamente com o próprio exército estadunidense sendo sempre ironizado.
Todas estas instituições da sociedade norte-americana são vistas pelo roteiro e pelo diretor Altman como excrescências de um sistema social opressor, ridículo e mais amalucado que as personagens bizarras do filme.
O protagonista Brewster McCloud (Bud Cort) tem uma ambição e um sonho na vida, voar com um par de asas que ele mesmo construiu. Ele é um rapaz solitário, insociável, introvertido e, quando, sai às ruas sempre é humilhado e vítima da sociedade que o repele pelo fato de ser “diferente” e “esquisitão”. Ele é perseguido pelos intolerantes e pela violência das instituições sociais norte-americanas, Brewster serve como uma personagem, da qual Robert Altman se utiliza para mostrar metaforicamente a hipocrisia social não só dos EUA, porém de uma maneira mais geral do ser humano ante o diferente, não demonstrando nenhuma espécie de alteridade para com o outro-Eu.
 Dessa maneira McCloud não seria um ser-humano, contudo, talvez um “homem-pássaro’, preso, porém, em sua forma humana, buscando uma forma de sair dessa condição tão coercitiva e humilhante de viver em sociedade, sem liberdade plena.
Enfim, Altman realiza um grande filme, uma pequena obra-prima, que merece ser redescoberta em sua extensa filmografia, às vezes preenchida por filmes irregulares. Em Voar é com os Pássaros, temos um filme marcado por humor bizarro, situações inusitadas e esdrúxulas, que servem para metaforicamente dramatizar o absurdo das amarras sociais e da falta de liberdade plena para qualquer ser humano que vive na sociedade violenta e agressiva da qual todos fazem parte. Um grande exercício fílmico, dramático e até filosófico sobre a condição e a natureza humana quando posta em confronto com o social que nos tolhe a plenitude da liberdade individual. ” 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

(Possuídas Pelo Pecado, Jean Garret, Brasil, 1976)


(Possuídas Pelo Pecado, Jean Garret, Brasil, 1976):

Possuidas Pelo Pecado (1976)

“Possuídas pelo Pecado é um filme de Jean Garret que além de diretor escreveu também o roteiro ao lado de Ody Fraga, assim como fizeram no thriller Excitação, também lançado em 1976. Em Possuídas pelo Pecado, tem-se uma história sobre a podridão dos capitalistas, como o Dr. Leme (Benjamin Cattan) que é um burguês alcoólatra, abusivo e dominador, que gosta de promover festas regadas a álcool e muito sexo. Inclusive a primeira cena é elucidativa para o que veremos em tela, a câmera percorre vários cômodos da sua chácara, onde está ocorrendo uma orgia, a cena é até bem filmada e divertida, ao mostrar o desbunde de várias situações engraçadas.
O Dr. Leme é casado com Raquel (Meyre Vieira), porém separados e vivendo em casas diferentes, já que ele a culpa por ela não ter dado filhos a ele para que fossem seus herdeiros, no legado de sua imensa fortuna, já ela o acusa de ser alcoólatra e só dar importância, desde o início do casamento às bebidas e de sempre a ter traído. Ela tem um caso amoroso com o fiel motorista do Dr. Leme, André (David Cardoso), sem aquele o saber. Os dois amantes têm o plano de forjar um acidente para o capitalista e assim ficarem com a herança dele destinada a Raquel.
    Na chácara o sórdido Leme humilha, usa e maltrata duas secretárias-amantes, Jussara (Zilda Sedenho) e a também alcoólatra Anita (Helena Ramos, em uma excelente atuação), que é abusada constantemente pelo Dr. Leme, inclusive em uma das cenas mais interessantes do filme é humilhada num chiqueiro, que lembrou Pocilga, de Pasolini, em retratar a sordidez e perversidade dos burgueses quanto os que estão abaixo nas hierarquias sociais. Por isso, uma reflexão importante no filme de Garret é a dança das cadeiras na sociedade, ora uns em uma posição mais privilegiada, ora outros em uma posição desfavorável.
Têm-se diálogos interessantes no roteiro de Garret e Fraga, por exemplo, quando, em outras palavras, o Dr. Leme em um diálogo é chamado de monstro por uma das suas secretárias e ele afirma sou mesmo, porém o dinheiro me dar esse direito me dar esse direito.  Em outro diálogo Jussara fala ao pintor Marcelo (Agnaldo Rayol) que pode ser uma mau-caráter, porém prefere o ser a viver em uma situação pior socialmente da que vive. Estes diálogos servem como ironia dos roteiristas às relações perversas que ocorrem na sociedade capitalista.
No filme ainda temos duas personagens importantes para a trama, Dorinha (Nicole Puzzi, em início de carreira), como a filha ambiciosa e desinibida da empregada Isaura (Ruthinea de Moraes).
Enfim, o filme retrata e ressalta realisticamente e até com boas doses de ironia a perversidade e a corruptibilidade que existem nas relações humanas em uma sociedade capitalista. ”