segunda-feira, 8 de junho de 2020

(Imagens, Reino Unido, 1972, Robert Altman): (O Perigoso Terror: A Mente):


(Imagens, Reino Unido, 1972, Robert Altman):
(O Perigoso Terror: A Mente):   

Images (1972)

“Imagens é mais um ótimo filme do mestre da Sétima Arte, Robert Altman. Produzido no Reino Unido e lançado em 1972, com roteiro original do próprio cineasta, é mais uma obra ímpar da década de 1970 deste realizador, uma década mágica contemplada com diversos grandes filmes dirigidos por ele, por exemplo basta citar: M.A.S.H. (1970); Voar é Com os Pássaros (1970); Um Perigoso Adeus (1973); Nashville (1975); Oeste Selvagem (1976); Três Mulheres (1977), entre outros.    
Robert Altman teve uma carreira prolífica como cineasta, com um total de 90 créditos como diretor (segundo fontes do site IMDb), nem sempre de bons filmes, alguns muito contestados pelo público e pela crítica especializada, na maioria das vezes suas obras não foram sucessos de bilheteria, porém seus filmes estão resistindo muito bem a passagem do tempo, alguns bastante atuais e relevantes ainda, como mostrou a retrospectiva outrora feita pelos Centros Culturais do  Banco do Brasil, no ano de 2008, gerando intenso debate entre os frequentadores das sessões à época, um ano e meio após seu falecimento.
 Altman iniciou no ano de 1951 com a produção de um documentário em curta-metragem, seguindo por diversos outros curtas, entre filmes de ficção e documentário, além de dirigir episódios de séries de TV, entre segmentos do seriado de Alfred Hitchcock Apresenta e do Bonanza, também dirigindo filme televisivos. Seu primeiro longa-metragem é de 1957, Os Delinquentes. Dirigiu mais dois longas-metragens nos anos 1960, No Assombroso Mundo da Lua (1967) e Uma Mulher Diferente (1969). Sua consagração, enfim, veio em 1970 com o filme de guerra amalucado e politizado, antibelicista M.A.S.H., que inclusive originou um seriado de TV.
 Os anos 1980 foram muito irregulares para o cineasta estadunidense nascido em Kansas City, no ano de 1925, e falecido aos 81 anos de idade em 20 de novembro de 2006. Mesmo assim produziu filmes interessantes como James Dean, o Mito Sobrevive (1982), A Honra Secreta (1984) e Louco de Amor (1985). Seu grande retorno, porém, se deu na década seguinte com os filmes O Jogador e Short Cuts – Cenas da Vida, respectivamente lançados em 1992 e 1993. Seu último grande filme foi Assassinato em Gosford Park, de 2001, em que se inspira no filme de 1939, A Regra do Jogo, de Jean Renoir, para criticar as convenções e hipocrisias sociais das classes abastardas, mas também das desprovidas de riquezas, na eterna luta de classes. Seu último suspiro se deu no seu derradeiro ano de vida, em 2006, com o nostálgico, A Última Noite.
Depois deste sucinto panorama da magnífica obra de Robert Altman, voltemos a nos referir ao filme Imagens. Este é protagonizado por Susannah York que interpreta uma escritora de livros infantis, Cathryn -, a própria York escrevia à época das filmagens um livro voltado para aquele público, À Procura de Unicórnios -, que teve trechos lidos pela personagem no filme, como forma de sustentar o roteiro de Altman. E, por sinal, dando muito sentido as questões desenvolvidas no filme. Outra questão extra filmagem é que a atriz estava grávida à época e no início recusou o convite para realizar o filme, mas Altman incorporou este fato também ao roteiro.
Cathryn é uma personagem desconfiada da fidelidade do marido Hugh (Rene Auberjonois), ela possui distúrbios psiquiátricos esquizofrênicos; sua mente fragmenta-se em delírios e ela não distingue em muitos momentos o que é realidade e o que é fantasia. Cada vez mais vai se se emaranhando em ficções criadas por ela, o seu eu se divide em uma Cathryn do ‘passado’, ‘má’, ‘obscura’ e a Cathryn do ‘presente’, ‘boa’, ‘verdadeira’. Porém, esta maneira dicotômica de apresentar sua personagem é apenas uma tentativa momentânea de explicar sua personalidade dividida, pois esta divisão, tal qual o espelho do quarto, em um determinado momento, do filme reflete até três Cathyrns.
Cathryn é assombrada por si mesma, pelo fantasma de um amante Rene (Marcel Bozzuffi) e um amigo do marido que a assedia continuamente Marcel (Hugh Millais) e até pela suposta infidelidade do marido. Assim como a personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski, a personagem de Susannah York é aparentemente perturbada por traumas mnemônicos, que não são revelados ao espectador, mas são talvez uma das explicações para sua repulsão às três personagens masculinas do filme. Porém o maior medo de Cathryn, seu grande pesadelo e sua maior sombra a pairar sobre ela é ela mesma; os seus recônditos da mente e da alma a perturbá-la de uma maneira quase que perpétua.
A trilha sonora assustadora de John Williams, acentuada pelos ruídos produzidos por Stomu Yamashta, com a adição da paleta sombria do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond conferem à obra status de um verdadeiro pesadelo que se passa pela mente caótica de Cathryn. Já que não é necessário nenhum filme de terror com cenas explícitas de violência ou monstros tenebrosos para nos meter medo; nós somos nossos maiores fantasmas, o nosso maior pesadelo somos nós mesmos. Cathryn e Imagens nos sugere muito bem tal aspecto da psicologia humana. 
Uma questão interessante nesta fragmentação da protagonista é que todas as personagens têm o primeiro nome que se refere ao nome de um ator do filme: Hugh é o marido interpretado por Rene Auberjonois, Rene é o falecido amante interpretado por Marcel Bozzuffi, Marcel é o vizinho e amigo do casal vivido pelo ator Hugh Millais. O que reflete a fragmentação da realidade e da mente esquizofrênica de Cathryn. E, ainda tem a jovem Sussanah vivida por Cathryn Harrison, o que acentua ainda mais a questão e a circularidade do roteiro de Altman, a mostrar que a deterioração, as sombras que envolvem a mente da protagonista se perpetuam no conflito desequilibrado entre realidade e imaginação.     
Algumas cenas são inesquecíveis neste filme de Robert Altman, por exemplo: os telefones, quatro ao todo, em um apartamento, o que também é sintomático para mostrar a fragmentação da personalidade da personagem de York, além de início já revelar suas dúvidas quanto às traições do esposo.
E outra cena que será devolvida durante por parte do filme é a do quebra-cabeça, que é a própria mente se revelando e se esfacelando de Cathryn, que está à procura de escrever seu livro para crianças, com o título já por si só bastante imaginativo, À Procura de Unicórnios, e, principalmente, Cathryn está à procura de si mesma, como todos nós.”






Prêmios:
Nomeado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Dramática: John Williams (1973);
Nomeado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro – 1973;  
Melhor Atriz no Festival de Cannes – 1972 – Susannah York;
Concorreu à Palma de Ouro – 1972 – Festival de Cannes;
Indicado ao BAFTA de Melhor Fotografia – Vilmos Zsigmond – 1973;
Entre outras indicações.

domingo, 3 de maio de 2020

O Bebê Santo de Mâcon (Peter Greenaway, HOL, FRA, GBR, ALE, 1993):


                                                            The Baby of Mâcon (1993)



“O Bebê Santo de Mâcon é mais uma extravagância fílmica de Peter Greenaway. Mas como sempre o cineasta britânico nos tem muito a mostrar, seja no âmbito estético, seja no âmbito temático.
No que tange ao primeiro quesito, o filme é deslumbrante em suas cores berrantes, em especial, o uso do vermelho, que na paleta do diretor de fotografia Sacha Vierny, significa justamente a aberração que é a sociedade retratada na obra. Além de uma direção primorosa a conduzir o espectador pelos suntuosos cenários (assinados por Bavo Defurne), que são aproveitados com maestria por Greenaway, para nos apresentar a história, de maneira teatral: até parece que estamos dentro de um teatro, aparentemente apenas, pois algumas cenas foram filmadas na Igreja Velha de Amsterdã e outras em estúdio; e tem-se até direito a uma “plateia” a presenciar as ações das personagens principais, aquela plateia devidamente caracterizada por um figurino rico e deslumbrante, assim como o de todas as personagens, figurino assinado por Ellen Lens e Dien van Straalen .
Algumas personagens possuem falas que expressam a consciência de ‘ilusão de realidade’ e, portanto, de ‘ilusão ficcional’, assim sendo tem-se uma espécie de ‘metafilme’, ou ‘meta-teatro-cinema’. O que é ressaltado pelas vidas humanas (personagens) vividas como que em uma espécie de ‘teatro de ilusões’, e também pelas ‘máscaras sociais’, que marcam toda a sociedade e, portanto, toda a humanidade, no desenrolar infinito dos tempos. Ainda no aspecto técnico, o filme conta com uma excelente edição assinada por Chris Wyatt, que nos ajuda a compreender melhor as questões suscitadas pelo roteiro.
No que se refere ao segundo aspecto, que é justamente a questão temática, tem-se o roteiro assinado pelo próprio cineasta, que parte de uma premissa básica e que em outras mãos se tornaria um lugar-comum: a corrupção de toda uma sociedade. Tem-se de partida, um prólogo ditado pela ‘Fome’, que já nos alerta para o que filme mostrará em 2h de duração e em três atos, e mais um epílogo-circular, que se liga ao já narrado no prólogo pela mesma ‘Fome’: uma sociedade corrompida em todos os seus segmentos, nobreza, clero e plebe.
Uma sociedade marcada pela miséria, aberrações, enfermidades e iniquidades de todos os tipos. Uma terra marcada pela esterilidade e pela infertilidade não em produzir novos seres\rebentos, mas em gerar seres não corruptos e\ou corrompidos. Parte de supostos milagres perpetrados por um bebê santo, filho de uma virgem, porém tudo logo é percebido e verificado como uma grande farsa, que leva a mais e mais tragédias, demonstrando a corrupção do homem e da sociedade, que não é evidenciada pelo ‘é’, contudo, pelo ‘sendo’, ou melhor seria pelo ‘é’ e pelo ‘sendo’ ao mesmo tempo, a eterna dualidade dinâmica em devir. ”

terça-feira, 21 de abril de 2020

(O Lobo do Mar, Jack London, 1904):


(O Lobo do Mar, Jack London, 1904):
“É melhor reinar no inferno do que servir no céu. ”
(Paraíso Perdido, Milton).


“O Lobo do Mar, publicado originalmente no ano de 1904, é mais do que um romance de aventura, em alguns momentos de extrema habilidade do romancista Jack London, desfilam na obra páginas de aguçada análise psicológica, em que são estudadas as condições humanas num microcosmos de embrutecimento das relações humanas.
Ghost é uma embarcação náutica de caça às focas, que desperta receio e medo àqueles que ouvem falar nela e em seu tirânico capitão Wolf Larsen; os que já fazem parte da tripulação vivem em uma ambiência de pavor e constante atrito nas relações com os companheiros de escuma, porém nunca levantam a voz para as atrocidades cometidas por Larsen. Até o momento do resgate de um náufrago, Humphrey van Weyden, um jovem intelectual, com pretensões a escritor. A partir deste momento, aos poucos, em momentos de crescente tensão psicológica, as coisas começam a tomar outros rumos.
O confronto entre as duas personagens principais é o melhor do livro. Os antagonistas Wolf Larsen e van Weyden iniciam um verdadeiro duelo em tentar convencer o outro do que falta ao outro, ou do que está escondido no outro, buscando que o outro revele a outra face de sua personalidade, até então adormecida.
Logo no primeiro momento em que um marinheiro está sendo maltratado e este estando à beira da morte, Humphrey percebe que o capitão da escuna se vale dos abusos físicos contra os seus comandados como forma de manter o controle de todos e de todas as situações em sua escuna. Larsen em nenhum momento perde o controle da situação, sua força física é enorme e entre outros atributos de caráter, seu poder de persuasão sobre os outros é gigantesco, evitando tentativas de confrontação a seu poder e nem um motim, por ora é vislumbrado.
Larsen apesar de tudo isso é uma autodidata formando intelectualmente na solidão de suas leituras de Darwin, Nietzsche, Spencer, Johnson, Poe, Shakespeare, Milton, entre outros clássicos científicos, filosóficos e literários ingleses e estadunidenses, leituras, contudo deformadas no embrutecimento e na violência cotidiana que vivenciou e vive no seu microcosmos, a escuna de caça à focas, Ghost.
Um verdadeiro lobo de seus homens, física e psicologicamente os maltrata e os domina, quer ser um demiurgo de seu microuniverso, o Diabo mandando em seu reino, daí a leitura de Milton ser tão cara para Larsen, para ele a lei do mais forte é o que vale. Até que a partir do resgate de Humphrey, a tomada de consciência de Wolf, aos poucos e de maneira trágica que seja, vai acontecendo, pois ele confrontado com os ideais humanitários e intelectuais do jovem burguês van Weyden, percebe outro lado de sua personalidade até então não manifestada.
Humphrey contudo aos poucos transforma-se em outro, o Hump da escuna Ghost, que aos poucos percebe que nem só de leituras, de estudos e da tentativa em redigir seu almejado livro, se resume a vida. Hump torna-se também forte fisicamente e capaz de proezas de coragem e ousadia, transforma-se também em um ser pragmático, cético, violento, às vezes até com rompantes para cometer o assassínio. Surge, ainda uma outra personagem, Maud Brewster, uma jovem náufraga, resgatada também pela escuna Ghost e que confere novas motivações e perspectivas à obra, torna-se interesse amoroso de Hump, e interesse intelectual deste e também de Wolf Larsen. A tensão é aumentada cada vez mais e irrompe em fatos que ninguém pode controlar humanamente, e nem deliberadamente contornar no primeiro momento em que surgiram.  
O romance é filosófico no aspecto do embate entre dois homens tão diferentes e tão semelhantes em suas idiossincrasias, os dois antagonistas aos poucos tornam-se complementares um ao outro, os dois têm bondade e maldade, ódio e simpatia, e todos os outros opostos da natureza humana, que se complementam dinamicamente. Dessa forma ao fim e ao cabo do romance tem-se a ideia do sentimento de compaixão, mesmo em meio à tragédia final. Contudo o trágico é simultaneamente o início esperançoso de duas vidas unidas pelo amor, na tessitura do próprio romance, O Lobo do Mar.

(Jack London). 

Trechos do romance na tradução de Daniel Galera:

"Acredito que a vida é uma confusão - ele respondeu de imediato. - É como um levedo, um fermento, uma coisa que se move e pode continuar se movendo por um minuto, uma hora, um ano ou cem anos, mas que no fim vai parar de se mover. Os grandes devoram os pequenos para que possam seguir se movendo, os fortes devoram os fracos para manter sua força. E quem tem sorte devora mais e se move por mais tempo. Isso é tudo. (...)"

"- O homem é inconstante como os ventos e as correntes marítimas. Impossível adivinhar o que ele vai fazer em seguida. Quando você começa a achar que o conhece, quando começa a vê-lo com bons olhos e põe as velas pra vento a favor, ele dá uma volta na sua frente, entra rasgando e arrebenta tudo."

"- Ele nunca filosofou sobre a vida - acrescentei.
- Não - respondeu Wolf Larsen, com um indescritível ar de tristeza. - E ele é mais feliz assim, deixando a vida em paz. Está ocupado demais vivendo a vida para pensar nela. O meu erro foi ter um dia aberto um livro."

"(...) Apesar de minha esperança e fé na humanidade terem conseguido sobreviver às críticas demolidoras de Wolf Larsen, ele tinha operado algumas transformações menores em minha pessoa. Tinha aberto para mim o mundo real, que sempre me causara receio e sobre o qual eu pouco sabia. Eu estava aprendendo a observar mais de perto a maneira como a vida era vivida, a reconhecer que existia o que se pode chamar de fatos do mundo, a emergir do reino da mente e das ideias e a atribuir certos valores às fases concretas e objetivas da existência."

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
LONDON, Jack. O lobo do mar. Tradução: Daniel Galera. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

(Pânico no Ano Zero, Ray Milland, EUA, 1962): (“Não deve haver um fim, mas um (novo) começo”):


(Pânico no Ano Zero, Ray Milland, EUA, 1962):
(“Não deve haver um fim, mas um (novo) começo”):

Frankie Avalon, Ray Milland, Richard Bakalyan, Neil Burstyn, Joan Freeman, Jean Hagen, Rex Holman, and Mary Mitchel in Panic in Year Zero (1962)

“Pânico no Ano Zero é dirigido e estrelado pelo astro Ray Milland, lançado em 1962, no auge da Guerra Fria entre EUA e URSS, trata-se de um dos primeiros filmes pós-apocalípticos a questionar como seria a Humanidade nos primeiros dias, após a queda da primeira bomba atômica.
Sem se preocupar com mirabolantes efeitos especiais, até por se tratar de um filme-B produzido pela companhia cinematográfica comandada por Roger Corman, e sem abordar o roteiro pela perspectiva governamental ou dos exércitos das grandes potências, a história tem como ponto de vista uma pequena e tradicional família de Los Angeles, que tinha ao início do filme um simples propósito de acampar.
Ao sair de LA, a família chefiada por Harry (Milland) se depara no retrovisor do carro com que parece ser um raio, a pergunta que vem é simples: será que vai chover? Até o momento posterior em que surge o tão temido cogumelo nuclear, agora resta lutar pela sobrevivência no caos que irrompe. Nos primeiros momentos, após o apocalipse atômico, a Humanidade se desespera, buscando soluções imediatistas, instintivas de sobrevivência, tais como estocar mantimentos, saquear os outros, entre outras atitudes não-civilizadas.
Outro questionamento que surge é o do isolamento social total, Harry busca se isolar com sua esposa e seus dois jovens filhos, para assim proteger sua família, dos saques que surgem, dos assassinatos e da desordem que imperam a partir de então, em uma área de camping distante e pouco movimentada. Em uma metáfora interessante se deparam com pinturas rupestres que remontam à Idade Antiga da civilização. Pois não seriam os momentos que a Humanidade está vivenciando nesta altura do filme, senão os (novos) primórdios da (nova) civilização, após a hecatombe atômica? Ou seja, a ideia não de um fim, mas de um (novo) começo? 
Destaque para mais uma atuação segura de Milland, premiado como melhor ator por Farrapo Humano, de 1945, de Billy Wilder, e destaque no hitchcockiano Disque M para Matar, 1954. O astro hollywoodiano sempre interpretou personagens decadentes e amorais, mas a partir dos anos 1960 começou a interpretar pais de família dedicados em proteger a moral e a segurança de seus familiares, é o caso deste filme em análise, em que Ray Milland vive Harry um pai obcecado em proteger os seus parentes próximos, mesmo que para isso tome atitudes que condena e odeia, que causa nele um drama de consciência.
Este drama de consciência é ampliado por sua esposa Ann, que é uma personagem que faz um contraponto às atitudes de Harry, é uma espécie de voz que tenta conscientizar o esposo para ter mais altruísmo para com o restante da sociedade e não apenas para com seus familiares mais próximos.
Pânico no Ano Zero conta ainda com uma boa trilha sonora jazzística assinada por Les Baxter, que confere dinamismo ao filme em alguns momentos de tensão do roteiro escrito por Jay Simms e John Morton, baseado em dois contos de Ward Moore. 
As reflexões se somam em um filme-B que nos surpreende positivamente. Um thriller e clássico filme de ficção-científica, que fez muito sentido para seus espectadores nos anos 1960 e ainda nos faz hoje, nesta releitura em tempos difíceis da Pandemia da Covid-19, em 2020, pois o que questionamos atualmente senão: como retornar e retomar à normalidade, após debelada a Pandemia?”

sábado, 4 de abril de 2020

(O Leito da Virgem, França, 1970, Philippe Garrel):

(O Leito da Virgem, França, 1970, Philippe Garrel):

Le lit de la vierge (1970)

O Leito da Virgem não é uma história bíblica do Novo Testamento, nem uma obra sobre Maria, Jesus ou Deus, mas um filme de Philippe Garrel sobre as origens, o tudo e o nada do ser humano, o começo e o fim da Humanidade, ou seja, o meio que é vida antes da morte que é passagem para o Nada onde Tudo se inicia...
Esta circularidade é perceptível quando o filme de Garrel começa com a cena em que Jesus nasce no leito de Maria numa ponte sobre o mar, ele já nasce assustado e horrorizado perante o caos da Humanidade envolta em guerras, destruição, ruínas e crimes, buscando ouvir a voz de seu pai, Deus, a qual ele não consegue ouvir. Maria tenta acalmá-lo e o manda em sua missão: redimir a humanidade. Porém, será que ela o ouvirá? Ou ele não está pronto para ser ouvido? Pois, o que se percebe é um movimento duplo: a Humanidade está perdida e Jesus o está tão perdido quanto, em sua insegurança, imaturidade, em seu abandono, em sua solidão, em sua depressão.
Maria (Zouzou) e Maria Madalena (também interpretada por Zouzou) são faces da mesma mulher, a mãe-virgem e a amante-prostituta -, (talvez uma proximidade com o cineasta Jean Eustache, amigo de Garrel e uma das influências para seus filmes, guardando as devidas peculiaridades de cada diretor e de cada obra, cita-se A Mãe e A Puta, dirigida por Eustache, em 1973, que tanto em aspectos temáticos quanto em aspectos técnicos, tem similaridades e particularidades com este filme garreliano e outros de sua lavra) -, faces da mesma moeda, portanto duplos do “Bem-e-do-Mal” e do Divino-e-do-Profano”.
Filmado em um preto-e-branco-scope terrivelmente e assombrosamente solitário e angustiante O Leito da Virgem sugere o caos humano, as ruínas das relações interpessoais, a alteridade em frangalhos diante e meio a crimes e guerras de todos os tipos, espalhadas junto a todos os tipos de males, quando da cena em que a Caixa de Pandora é aberta por Maria Madalena, ou será que foi aberta por Maria?
Outra cena emblemática dá-se quando Maria Madelena, ou talvez Maria, está grávida e Jesus se abandona nas profundezas do mar revolto, abandonado desta forma, sua amante ou mãe, ou as duas, e seu filho, da mesma forma que fora abandonado por seu pai, Deus. Dessa maneira o filme é circular pois começa e termia, para iniciar de novo com: nascimento, morte, abandono...
Mítico também é o espaço e o tempo em que ocorrem as ações um tanto quanto episódicas da obra garrelina, espaço e tempo indeterminados, dando um caráter parabólico, porém pessimista e solitário da Humanidade, um teor atemporal, universal destes seres humanos tão horríveis em sua beleza criadora e destrutiva ao mesmo tempo. O leito do nascimento é também o leito da morte...
A cruz de Jesus e também dos cineastas, dos artistas em geral, é saber da incompreensão de seus atos e das suas obras, o abandono e a solidão, não são somente de Jesus, porém de Garrel e de todos os artistas por consequência, e, enfim, de todos nós-humanos. ”

segunda-feira, 23 de março de 2020

(As Amorosas, Walter Hugo Khouri, Brasil, 1968):


(As Amorosas, Walter Hugo Khouri, Brasil, 1968):


“Do Nada viemos para o Nada retornaremos. Desta maneira circular dá-se também roteiro do filme de Walter Hugo Khouri, “As Amorosas”, lançado em 1968.  O roteiro escrito pelo próprio cineasta mostra a travessia de Marcelo (Paulo José) que vive uma existência em crise consigo, com os outros e coma sociedade de uma maneira geral. O filme começa como protagonista à deriva numa mata, à deriva ele percorre sua trajetória a obra toda, e ao fim e ao cabo, à deriva permanecerá como todos os seres humanos, pois a maior revelação talvez que o espectador tenha é que nossas vidas são vividas em devir. O eterno retorno ao ventre materno, a posição fetal onde o Tudo e O Nada começa é também o fim do Tudo e do Nada, que na verdade é apenas o Meio.
 Marcelo se relaciona em frangalhos com sua irmã Lena (Lilian Lemmertz), com sua namorada Marta (Jacqueline Myrna) e com sua amante Ana (Anecy Rocha). Porém, é sua vida pessoal, psicológica e existencial que está em frangalhos e em crise, por isso talvez ele tenha uma perspectiva niilista em relação à sociedade e, principalmente, para consigo, já que suas tentativas de tomar atitude são sempre tão frustradas quanto sua própria existência, sua força de vontade se esgota quanto apenas esboça uma formulação de tentar algo em sua jornada. Marcelo cursa a faculdade de Cinema, é revisor, tradutor e crítico de Artes, mas não desenvolve nada, nulifica-se sempre em si mesmo e em suas relações. Por exemplo, ao dar um depoimento para um documentário ele testemunha que não vislumbra e não deseja nada. Talvez aqui resida sua maior descoberta: ele auto-descobre inapto para o viver. ”

terça-feira, 17 de março de 2020

(O Exército das Sombras, FRA-ITA, 1969)


(O Exército das Sombras, FRA-ITA, 1969):

O Exército das Sombras é uma tensa, opressiva e claustrofóbica obra de Jean-Pierre Melville, produção franco-italiana, lançada em 1969, sobre a Resistência Francesa aos nazistas alemães que ocupavam a França durante a Segunda Guerra Mundial. O filme enfoca o período de quatro meses decorridos no final do ano de 1942 até o início de 1943, que tem como protagonistas um pequeno grupo da Resistência Francesa, que tem como um dos líderes Philippe Gerbier (Lino Ventura), um engenheiro civil, que de forma circunspecta, de poucas palavras, cético e fatalista junto aos seus camaradas enfrentam os nazistas que ocupam as cidades francesas.
Melville baseando-se no livro de Joseph Kessel ressalta no filme como o ‘Exército das Sombras’ agia, além de revelar a solidão, o medo e as angústias diárias dos seus membros, sem mirabolantes explosões típicas de muitos filmes sobre a Segunda Grande Guerra, e sem violência explícita, pelo contrário se faz valer de um brilhante roteiro para desvelar a violência ou melhor a tensão psicológica que os protagonistas do filme vivenciam e experimentam. Somada à uma fotografia em cores sombrias, frias e com aspecto que nos sugere opressão, claustrofobia e até o medo que as pessoas vivenciaram durante a Guerra. A direção da excelente fotografia é assinada por Pierre Lhomme e Walter Wottitz.
 Destaques também para as atuações de Ventura como o frio, solitário, fatalista e cético Gerbier, e a interpretação de Simone Signoret como a impactante, forte e obstinada Mathilde.
Uma das questões mais impressionantes do filme é a pressão ininterrupta do medo de errar, a tensão e a falta de diversão dos membros da Resistência. O filme é trágico, sem ilusões, nos faz perceber que Guerra é sempre triste, solitária e trágica. ”