quinta-feira, 30 de março de 2017

ÁLVARES DE AZEVEDO: "Macário e Noite na Taverna: a intertextualidade entre o drama e os contos do Poeta Maldito."

ÁLVARES DE AZEVEDO


(Ensaio por Rafael Vespasiano)



INTRODUÇÃO

Macário introduz o drama faústico no Romantismo Brasileiro. A obra conduz o leitor a uma realidade incerta e conturbada. Satã, personagem fascinante, tenta seduzir Macário. O Satã azevediano, segundo a Professora Claudia Labres (2002), é um ser com um quê de encanto, cujas palavras sublimes, quase divinas, tornam-se profundas e persuasivas. Sendo persuasivo, Satã passa a ser o guia de Macário, mostrando a ele um caminho: o caminho dos heróis malditos. Estes, no Romantismo, são marcados por uma vida excessivamente passional, marcada pelos vícios, crimes, violências de todos os tipos. Uma vida romântica, portanto, excessiva. Macário constitui-se, portanto, no decorrer da obra em uma personagem maldita.
Já em Noite na taverna, Satã não se apresenta personificado, mas apresentam-se personagens marcadas pelo satânico. “Ambiente caótico, a taverna, na qual os cinco rapazes se encontram, parece ser o local propício para que o maldito se instaure.” (LABRES, 2002, p.11).
Macário e Noite na taverna são obras distintas, porém uma possível leitura é aquela, que diz que entre elas há certa continuidade. Trata-se da hipótese de ler uma como sequência da outra. Macário termina na janela de uma taverna; “a fala inconclusa de Macário a Satã pressupõe uma continuidade que não se efetiva. ‘Cala-te. Ouçamos’ (AZEVEDO, 2000, p.562), diz Macário a Satã. Ouçamos o quê? Não se sabe, não há respostas.” (LABRES, 2002, p. 11). Pois, o livro acaba, mas “ouçamos as narrativas de ‘cinco homens ébrios’ (AZEVEDO, 2000, p. 562) sentados à mesa de uma sala fumacenta, podemos deduzir. Mas onde estão essas narrativas?” (LABRES, 2002, p. 11).
Em Noite na taverna, na leitura de LABRES (2002) e CANDIDO (2006). Apesar da quebra de gêneros; Macário é um drama e Noite na taverna é um livro de contos. Porém, um inicia no cenário em que o outro acaba.



Intertextualidade:
Macário = Fausto, Goethe;
Noite na taverna = Hoffmann.
As obras se passam em locais pouco definidos, num ritmo meio alucinante, com os acontecimentos se dando de forma confusa e angustiada. Os sentimentos humanos que estão expostos e funcionam como guia das personagens, são sentimentos confusos que oscilam da revolta e violência ao amor sincero e sublime (dualismo dinâmico/binomia). “Nesse mar de sentimentos que se confundem, a melancolia se torna um aspecto constante nas personagens azevedianas.” (LABRES, 2002, p. 12).
O tom melancólico predomina na obra de Álvares de Azevedo, sobretudo na “visão entediada, contestadora, violenta e transgressora das personagens, que, em geral, são pálidas, quase sem vida.” (LABRES, 2002, p. 12).
Na obra azevediana, o erotismo aparece, ainda que de forma velada ou sugerida, mas, de qualquer forma, surge como um desejo não realizado inteiramente/plenamente, decorre daí a melancolia, gerando desilusão. Esta gera a rebeldia, vista como uma forma de evasão das personagens azevedianas. O ideal frustrado (a não realização amorosa) pode levar a três tipos de evasão: a morte, a loucura e o suicídio, estes três escapismos surgem como fim último da existência.

MACÁRIO:
Inicia-se com um prólogo, no qual a autoconsciência do poeta, denominada Puff, apresenta qual seria seu protótipo teórico de drama ideal (Teatro Inglês/Shakespeare; Teatro Grego/Eurípedes e Ésquilo; Teatro Espanhol/Calderón de la Barca e Lope de Vega).Com destaque também para os alemães Goethe e Schiller.
“A vida e só a vida! mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sanguenta – eis o drama.” (AZEVEDO, 2000, p. 508). (Excessividade da vida romântica).
Mistura de gêneros (drama, comédia, dialogismo). Referências: Shakespeare, Byron, Hoffmann, Poe.
O tema da obra é o mal e como este influencia a vida e o pensamento das personagens azevedianas. Dividida em dois episódios.
No primeiro episódio, quando Satã revela-se a Macário, Satã já demonstra o seu caráter de rebelde, maldito.
Em Macário é dada voz a um Satã dotado de “beleza física e interior. Apresentando um aspecto humano, o Desconhecido se mostra a Macário sem que este perceba quem ele realmente é” (LABRES, 2002, p. 57), contudo algumas características o denunciam:
Macário (comendo) – Parece-me que não é a primeira vez que vos encontro. Quando a noite caía, ao subir a garganta da serra...
O Desconhecido – Um vulto com um ponche vermelho e preto roçou a bota por vossa perna...
Macário – Tal e qual – por sinal que era fria como o focinho de um cão.
O Desconhecido – Era eu. (AZEVEDO, 2000,  p.511-512)
O Desconhecido logo se revela um ‘mestre’ que passará a guiar Macário a um novo modo de vida. “Satã procura mostrar a seu discípulo que sua revolta não deve ser estéril, que sua melancolia não pode ser fruto de sua descrença, que sua ironia deve ir muito além do riso e que sua irreverência não pode vacilar” (LABRES, 2002, p. 58) em qualquer obstáculo.
Satã usa do próprio ceticismo para colocar em xeque a descrença e o ceticismo de Macário:
O Desconhecido – Eu sou o diabo. Boa noite, Macário.
Macário – Boa noite, Satã. (Deita-se. O desconhecido sai) O diabo! uma boa fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda! A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles... Olá, Satã! (AZEVEDO, 2000,  p. 522).
Uso da IRONIA.
O que o Satã azevediano procura mostrar a Macário, é o romantismo que este rejeita, a princípio, por ser anti-romântico (marcado pelo spleen, tédio, melancolia), contudo aos pouco vai incorporando os ensinamentos de Satã. O próprio Macário aos poucos se torna cada vez mais demoníaco, apesar de sempre “ter sido ele um indivíduo irônico, irreverente, melancólico e rebelde, esses traços se acentuam após sua proximidade com Satã.” (LABRES, 2002, p. 61).
Macário que se dizia anti-romântico (avesso ao ideal do Romantismo), torna-se, gradativamente, graças à influência de Satã, uma pessoa cada vez mais irônica, melancólica e rebelde, características do herói romântico maldito, nos moldes das personagens byronianas.
Satã oferece ao seu discípulo uma nova forma de encarar a vida, uma forma romântica, transgressora e, consequentemente, mais humana. “Dotado de uma consciência metafísica, Satã procura mostrar a Macário uma visão do absoluto, a transcendência do ser humano.” (LABRES, 2002, p. 63). Através de seu encontro com Satã é que Macário passa a conhecer melhor a si mesmo. E que o infinito e o absoluto, na verdade, estão nele mesmo. Assim, logo o pacto é firmado:
O Desconhecido – Aperta minha mão. Quero ver se tremes nesse aperto ouvindo meu nome.
Macário – Juro-te que não, ainda que fosses...
O Desconhecido – Aperta minha mão. Até sempre: na vida e na morte!
Macário – Até sempre, na vida e na morte!
O Desconhecido – E o teu nome?
Macário – Macário. Se não fosse enjeitado, dir-te-ia o nome de meu pai e de minha mãe. Era decerto alguma libertina. Meu pai, pelo que penso, era padre ou fidalgo.
O Desconhecido – Eu sou o Diabo. Boa noite, Macário.
Macário – Boa noite, Satã. (Deita-se. O Desconhecido sai.) O Diabo! Uma boa fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda! A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles... (AZEVEDO, 2000,  p. 522)

Após o pacto firmado, Macário passa por uma noite de visões, devaneios e fantasias, depois da qual acorda com uma forte sensação de horror. A partir daí a personagem passa a assumir uma atitude romântica. A partir daquilo que “sonhou durante a noite, Macário passa a dar importância ao amor, ele que até então era completamente cético e descrente” (LABRES, 2002, p. 65), em relação ao amor idealizado:
Macário – Oh! Sim! Se na vida há uma coisa real e divina é a arte – e na arte se há um raio do céu é na música. Na música que nos vibra as cordas da alma, que nos acorda da modorra da existência a alma embotada. Oh! é tão doce sentir a voz vaporosa que trina, que nos enleva – e que parece que nos faz desfalecer, amar e morrer! (AZEVEDO, 2000, p. 541).
[...]
Macário – Oh! o amor! e por que não se morre de amor! Como uma estrela que se apaga pouco a pouco entre perfumes e nuvens cor de rosa, por que a vida não desmaia e morre num beijo de mulher? Seria tão doce inanir e morrer sobre o seio da amante enlanguescida! No respirar indolente de seu colo confundir um último suspiro! (AZEVEDO, 2000,  p. 542)
Macário passa a visualizar a estética do Romantismo apenas após o acordo firmado, e gradativamente começará a incorporar o ideário do romantismo. Além do mais “o pacto com o Diabo representa um caminho para a revolta. Sendo Lúcifer um romântico em sua essência, devido ao seu caráter rebelde, nada melhor que seja no Romantismo que se encontre a ‘saída’ para os problemas da sociedade.” (LABRES, 2002, p. 65). Ou seja, o herói romântico marcado pelos signos do “maldito”, do “faústico” e do “rebelde” é uma personagem que busca enfrentar um mundo injusto e malfeito.
Satã conduz Macário a um espaço de trevas e sombras, uma espécie de inferno terreno, em que a paisagem é encoberta por uma atmosfera ao mesmo tempo mórbida e melancólica:
Satã – [...] Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada mas sombria como uma essa de enterro.
Macário – Tenho ânsia de lá chegar. É bonita?
Satã (bocej) – Ah! é divertida. (AZEVEDO, 2000,  p. 523-524).

O cenário sombrio dá aos fatos um tom de mistério. É também o espaço propício à iniciação por que Macário passará. Após a noite de angústia, o estudante tenta negar Satã, mas já é tarde demais para isso: o pacto já está firmado. E ele já é um iniciado.
Satã desaparece, mas os ensinamentos terão continuidade no segundo episódio. “Episódio esse em que se tem um salto nos acontecimentos. Macário encontra-se na Itália. Não se sabe, porém, quanto tempo depois do episódio da estalagem, como se as barreiras de tempo e espaço não fossem mais capazes de impedir seu aprendizado.” (LABRES, 2002, p. 71-72).
Macário já está em seu processo de formação, já teve seu primeiro e sofrido contato com o novo universo que se lhe apresenta. Deve ele agora desdobrar mentalmente os acontecimentos e compreender e apreender em sua profundidade os fatos.
Na primeira cena do segundo episódio se nota a transformação da personagem, que, percebendo-a, procura combate-la. “Se num primeiro momento o real desejo do estudante era viver, ainda que uma vida sem grandes ideais, cujos únicos prazeres se reduziam ao fumo, ao vinho e à mulher, tudo que deseja agora é a morte.” (LABRES, 2002, p. 72). Macário ao perceber que sonhar leva ao desejo e o desejo à ilusão e a ilusão à frustração, a personagem, então, foge da realidade, desiste de enfrentá-la, e apenas dois caminhos se mostram possíveis – a loucura ou a morte (escapismo), como formas de evadir-se da realidade que o desagrada.
No caminho de Macário, este encontra Penseroso que cisma com seus ideais românticos. Entre as duas personagens se estabelece um choque: “em um a melancolia sombria, no outro, uma melancolia angélica. Eles são opostos que se completam e o diálogo entre eles será mais um passo no aprendizado.” (LABRES, 2002, p. 72). Com Penseroso, Macário deve aprender aquilo que, entrou em conflito com suas novas descobertas e que ele ainda não assimilou direito.
Para Candido (2006), o segundo episódio “é uma espécie de friso onírico destinado a manter a tonalidade dúbia da primeira parte.” (CANDIDO, 2006, p. 16). Nela predominam dois temas, tratados de maneira dual e dinâmica: o amor sentimental e puro (Penseroso) e o amor cínico e carnal (Macário, um tanto lírico, antagônico, mas amistoso); e uma discussão sobre literatura, segundo Candido, de grande interesse crítico, mas que confere um caráter pouco teatral ao drama.
Macário é um descrente estudante, cético e que não crê no amor; anti-romântico (no que se refere ao seu desencanto sarcástico às posições nacionalistas e otimistas do Romantismo); romântico, contudo, pois é marcado pelo spleen (Byron), pelo tédio (vinho, charuto). Macário diz amar as mulheres e odiar o romantismo. Ainda no primeiro episódio, o Desconhecido (ainda Satã não se revelara a Macário) pergunta a Macário se ele é poeta, este responde que não. Macário é extremamente cético, sarcástico e marcado pelo tédio irônico. Afirma que só acredita no amor carnal/físico/erótico (fugaz/efêmero/passageiro), não acreditando no amor ideal/angelical/divino/casto. Quando firma pacto com Satã, o qual também é um romântico, dadas suas características de orgulho, de rebeldia e de maldito, que usando do seu ceticismo, faz Macário mudar e passar a tomar como atitude, uma atitude “romântica”: já que Macário passa a acreditar no amor, contudo ainda de forma irônica.
No segundo episódio, a personagem de Penseroso surge, ela é um ser “melancólico angelical”, que sonha com o amor casto/ideal; já Macário é um contraponto a Penseroso, pois aquele é um “melancólico sombrio” (LABRES, 2002). Neste segundo episódio, Macário demonstra um desejo de morrer, pois na transição do primeiro para o segundo episódio, numa atmosfera de sonhos e devaneios, Macário passou a noite junto a uma donzela pura e virgem como os anjos. Começou a amar e, a partir de então, passou a acreditar no amor puro e idealizado, além de passar a acreditar que é possível morrer de amor, ou que a não realização amorosa pode levar o indivíduo romântico à morte.
“Penseroso”, segundo Antonio Candido, “defende o sentimentalismo, o pitoresco, o otimismo social, enquanto Macário opõe a legitimidade da ironia e do ceticismo, combatendo com desencanto sarcástico as posições nacionalistas.” (CANDIDO, 2006, p. 17). Penseroso é puro, sonhador, e morre simbolicamente, para que Macário depois de um momento de revolta una-se de novo a Satã, “que é o anti-Penseroso, enquanto o próprio Macário é a frágil síntese de ambos, encarnando a suprema ‘binomia’ do bem em face do mal.” (CANDIDO, 2006, p. 17).
Após a morte de Penseroso, “ele (Satã) parece decidido a ir mais longe na instrução de Macário e o leva a uma orgia. Não para participar, mas para ver. E o drama acaba de repente, no meio de uma fala.” (CANDIDO, 2006, p. 18). Ou pelo contrário não acaba, “porque Noite na taverna, é uma sequência de Macário, cujas linhas finais são as seguintes (sendo notório o tom pedagógico de Satã)” (CANDIDO, 2006, p. 18):
Satã – Estás ébrio? Cambaleias.
Macário – Onde me levas?
Satã – A uma orgia. Vais ler uma página da vida; cheia de sangue e de vinho – que importa?
Macário – É aqui, não? Ouço vociferar a saturnal lá dentro.
Satã – Paremos aqui. Espia nessa janela.
Macário – Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas... Que noite!
 Satã – Que vida! não é assim? Pois bem! escuta, Macário. Há homens para quem essa vida é mais suave que a outra. O vinho é como o ópio, é o Letes do Esquecimento... A embriaguez é como a morte...
Macário – Cala-te. Ouçamos. (AZEVEDO, 2000, p. 561-562).

O drama termina aí e o leitor se pergunta: ouçamos o quê? Será justamente a sequência inicial e o cenário inicial de Noite na taverna, que Macário vai ver pela janela. Em Noite na taverna, o cenário é uma orgia onde estão, como anunciou Satã, “cinco homens numa mesa e outros deitados bêbados no chão, dormindo de envolta com mulheres.” (CANDIDO, 2006, p. 19). E o seu começo é também uma fala, “isto é, algo que se ouve, correspondendo ao imperativo da deixa final de Macário (“Cala-te. Ouçamos.”). (CANDIDO, 2006, p. 19):
“-Silêncio! moços! acabai com essas cantilenas horríveis. Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos?” (AZEVEDO, 2000, p. 565). É a fala inicial de Noite na taverna, Satã quer iniciar Macário nos aspectos da excessividade romântica. Apresenta-se a Macário “essa via feroz onde o homem procura conhecer o segredo de sua humanidade por meio da desmedida, na escala de um comportamento que nega todas as normas.” (CANDIDO, 2006, p. 19).
São fatos e sentimentos marcados pela tensão moral, pela crueldade, pela perversão e pelo crime, “que testam as nossas possibilidades diabólicas.” (CANDIDO, 2006, p. 20). O que confere às personagens azevedianas, tanto as de Macário, quanto as de Noite na taverna, um caráter de herói maldito (Byroniano), típico do Romantismo.
Satã conduz Macário a uma nova vida, evitando, inclusive, sua morte, que seu discípulo procurava insistentemente. Ao mesmo tempo em que a personagem faz descobertas que contradizem suas antigas convicções, falta a Macário conhecer o segredo do universo e de si mesmo.
“A angústia e a revolta da personagem continuarão, a viagem também. Na janela da taverna, Macário prosseguirá seu aprendizado. O livro acaba, mas a viagem não, posto que esta é interminável...” (LABRES, 2002, p. 68).
Macário é conduzido por Satã até essa janela da taverna, cuja vista, como já afirmado anteriormente, dá para uma sala fumacenta em que se encontram cinco homens ébrios, os quais segundo Claudia Labres (2002), talvez sejam Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann – “sentados a uma mesa. Macário pede a Satã que se cale para melhor ouvir o que lá dentro se passa. Satã que lhe prometera mostrar a vida, lhe dar amores e prazeres sexuais, (...), cala-se.” (LABRES, 2002, p. 73). Assim, permite a Macário que ouça as experiências de vida dos homens da taverna.
“O destino de Macário é incerto, dado o final em aberto que a obra apresenta. Não se sabe se seu fim é trágico como o do Fausto mítico ou não. Satã, porém, mostra a Macário um modo de esquecer aquilo que lhe faz mal” (LABRES, 2002, p. 73):
Macário – Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas... Que noite!
 Satã – Que vida! não é assim? Pois bem! escuta, Macário. Há homens para quem essa vida é mais suave que a outra. O vinho é como o ópio, é o Letes do Esquecimento... A embriaguez é como a morte... (AZEVEDO, 2000, p. 562).

“Na impossibilidade de passar pelas águas do Letes, é na bebida que se encontra o caminho do esquecimento das coisas que fazem sofrer. O fim do maldito pode ser sofrido, porém, é no caminho do mal que encontra suas realizações.” (LABRES, 2002, p. 73). Dessa forma, Macário dá voz aos homens da taverna, seguindo o ensinamento de Satã que afirmara “Vais ler uma página cheia de sangue e de vinho.” (AZEVEDO, 2000, p. 561). Aquilo que será presenciado por Macário servirá como uma experiência, será a visão de uma vida que ele não conhece, mas que, como o próprio Satã diz, talvez seja mais fácil de ser vivenciada.
O crítico Antonio Candido (2006) propõe em seu ensaio, “A educação pela noite”, que além da ligação estrutural, há também uma ligação em termos pedagógicos entre as obras Macário e Noite na taverna:
pedagogia satânica visando desenvolver o lado escuro do homem, que tanto fascinou o Romantismo e tem por correlativo manifesto a noite, cuja presença envolve as duas obras e tantas outras de Álvares de Azevedo como ambiente e signo. E estou me referindo não apenas às horas noturnas como fato externo, lugar da ação, mas à noite como fato interior, equivalente a um modo de ser lutuoso ou melancólico e à explosão dos fantasmas brotados na treva da alma. (CANDIDO, 2006, p. 21-22).

A ‘educação pela noite’ proposta por Candido, portanto, tem a seguinte conotação ao ser aplicada à obra azevediana: como o ambiente/espaço das obras de Álvares de Azevedo é noturno, a alma da personagem azevediana, paralelamente, também é marcada pelas trevas, metáfora da melancolia sombria vivenciada pelo homem que é representado por Álvares de Azevedo em suas obras, homens marcados pelo tédio, pelo spleen, pela escuridão humana, esta simbolizada pela amargura, pelos tormentos de uma alma sofrida e dolorida.


NOITE NA TAVERNA



A localidade da taverna é indeterminada, assim como o tempo em que se passam os acontecimentos e as narrativas também é indefinido. A taverna trata-se de um mundo artificial, segundo Labres (2002), em que o mal está presente, fazendo parte de sua realidade, sendo essencial para que ela se constitua da forma que se apresenta nas obras.
A continuidade entre as duas obras pode ser observada, sobretudo, pela presença da taverna à cena final de Macário. O clima fantasmagórico que a envolve acaba por exercer duas funções: “1) manter a atmosfera fantasmagórica que perpassa Macário; 2) indiciar o tipo de narrativas que se seguirão em Noite na taverna.” (LABRES, 2002, p. 75). Se Macário termina com a personagem pedindo silêncio a Satã para que se possa ouvir o que se sucede, Noite na taverna tem início com o mesmo pedido por parte de Johann.
A professora Claudia Labres (2002) sintetiza bem o enredo:
Em uma atmosfera maldita, Noite na taverna se constrói como uma série de contos narrados pelas personagens que se encontram na taverna. Ou seja, forma-se um quadro geral, a taverna em que os cinco rapazes lançam-se ao desafio de narrarem histórias sanguinolentas, e os contos apresentam-se como narrativas (até certo ponto) independentes, que seguem a proposta inicial. Desse modo, a taverna não é o ambiente em que os acontecimentos – pelo menos não todos – se sucedem, mas o espaço em que eles serão recordados e trazidos ao presente como fantasmas do passado para continuarem aquilo que ficou inconcluso. (LABRES, 2002, p. 76).

Solfieri é o primeiro dos mancebos a narrar sua história e antes de iniciar deixa claro que tudo que será contado é realidade, uma realidade passada, mas que a lembrança rememora.
-Uma história medonha, não, Archibald? – falou um moço pálido que a esse reclamo erguera a cabeça amarelenta. – Pois bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a esta, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança do passado.  (AZEVEDO, 2000, p. 567).

TAVERNA COMO AMBIENTE ORGÍACO:
·         TAVERNA (ESPAÇO INFERNAL)
·         FUMO – ALMA – VAGAR
·         VINHO – ÚLTIMA CEIA – IMORTALIDADE DA ALMA
·         ORGIA – COMUNHÃO COM A NATUREZA E O DEUS (ASPECTO SAGRADO TAMBÉM)
·         ENTÃO, o recordar transforma-se em um processo de busca da imortalidade da alma.
O que o rebelde deseja (e os cinco narradores das histórias de Noite na taverna o são) é tornar-se uma espécie de quase-deus e por isso torna-se um herói maldito. São, portanto, heróis rebeldes e malditos que habitam o espaço ficcional da taverna. “A taverna passa a funcionar como um espaço infernal em que os crimes cometidos e recordados pela orgia daquela ‘noite do século’ serão expostos pelas próprias personagens.” (LABRES, 2002, p. 79). Ao relembrar esses fatos, a morte e a perversão serão levadas para o interior da taverna. E, ainda, que em um espaço infernal, é na imortalidade da alma que os frequentadores da taverna depositam suas esperanças.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEVEDO, Álvares de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. In: A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. P. 13-26.

LABRES, Claudia. A poética do mal: A ficção de Álvares de Azevedo, Uma literatura sob o signo de Satã. (Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2002.



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