segunda-feira, 24 de outubro de 2016

““Berlin Alexanderplatz” (“Berlin Alexanderplatz”) (1980): As adaptações da Literatura para o Cinema: a obra-prima fassbinderiana: “Berlin Alexanderplatz” (1980)

““Berlin Alexanderplatz” (“Berlin Alexanderplatz”) (1980):

·         As adaptações da Literatura para o Cinema: a obra-prima fassbinderiana: “Berlin Alexanderplatz” (1980):



 ““Berlin Alexanderplatz” é outra grande adaptação literária de Fassbinder, baseado no romance de Alfred Döblin; assim como outra obra-prima do mesmo diretor alemão, “Effi Briest”, (1974), que seis anos de sua obra-prima máxima adaptou a obra de Fontane, “Pioneiros em Ingolstadt”, 1970, quatro anos é baseado na peça de Marieluise Fleisser; além de seu último filme, “Querelle” (Alemanha Ocidental/França), (1982), exibido pela primeira após somente a morte de Fassbinder, baseado o filme de 1982, na novela "Querelle de Brest", de Jean Genet.
A respeito de da relação de seu cinema com a literatura, escreveu Rainer Werner Fassbinder, em “Notas sobre Querelle”, de 1982, algumas palavras exemplares sobre aquela relação:
“A filmagem de obras literárias não é, como se pensa frequentemente, a tradução de um tipo de linguagem (Literária) para uma outra (cinematográfica). Os filmes baseados em obras literárias não têm que reproduzir as imagens que o leitor formou ao ler. O que também seria totalmente absurdo, pois cada leitor projeta suas próprias fantasias, e há tantas interpretações do livro quanto leitores.”
Assim como há tantas interpretações dos espectadores e interpretações destes de cada filme, seja adaptações literárias ou não, esse fato é condição sine qua non de qualquer obra de arte. “Nenhum filme sobre um tema literário deve pretender ser a visão de quem o escreveu e funcionar como modelo para a imaginação dos leitores. A tentativa de fazer com que o filme seja um substituto da obra literária resultaria em algo medíocre e vazio.”
Os filmes baseados em livros devem propor novos questionamentos e novas ‘leituras’, ‘visões’, ‘interpretações’. ‘outros olhares’, sobre as obras literárias adaptadas. “Um filme que se ocupe de literatura e da linguagem deve tornar claro e transparente esse confronto, não permitindo que a fantasia se transforme em algo vulgar. Fazendo com que se perceba que ele é mais uma possibilidade de trabalhar sobre uma forma artística já elaborada. Ele deve ter uma atitude questionadora da literatura e da linguagem, em geral, como do conteúdo e do comportamento do autor, em vez de simplesmente legitimá-lo através da linguagem.”
Enfrentamento e confronto são as palavras-chaves no projeto dialógico dual dinâmico ao qual se propõe ao adaptar obras literárias para o cinema. Por isso mesmo o monumento de 941 minutos divididos em 13 capítulos e um epílogo onírico, que é “Berlin Alexanderplatz”, tem um aspecto folhetinesco diferente das obras do cinema fassbinderiano anterior e do próprio livro de Döblin; a minissérie é o centro microcosmos da obra fassbinderiana, tudo parte deste filme para frente e para trás, do personagem Franz Biberkopf, nome de tantas outras personagens protagonistas dos filmes de R. W. Fassbinder.


Nesta minissérie exemplar vemos todos os outros gêneros que aparecem em outros filmes do diretor alemão: o gangsterismo revisionista do cinema B do primeiro cinema de Fassbinder; os melodramas influenciados por Douglas Sirk; as fábulas de crueldade dos anos 1970; a análise histórica dos filmes revisionistas da história da recente Alemanha, da segunda metade dos anos 1970; e, finalmente, no epílogo onírico e delirante referências a cenas de filmes de Fassbinder, tais como: “Como um pássaro no fio”, “Roleta Chhinesa”, “Num Ano com Treze Luas”, “Whity” e “O Desespero de Veronika Voss”.
Fassbinder em “Berlin Alexanderplatz” investiga a gênese do nazismo nos anos 1920, a burguesia ultrajada, a classe média arrogante, as relações corrompidas entre homens e mulheres, tanto nos quesitos amorosos quanto interpessoais, de amizade, por exemplo. Vê-se essa Alemanha prestes a explodir, por exemplo, na maneira como o cineasta traz a tensão da cidade para dentro das cenas internas, que se passam no quarto de Franz ou nas tabernas, há sempre um confronto de um neon ou um ruído sonoro, numa sinestesia alegórica angustiante, que nunca desligam o externo do interno, a cidade e o interior de um quarto de pensão, por exemplo, qualquer seja o espaço fechado, a impressão que se tem é que as paredes, como as personagens, estão sempre por um fio, em uma sociedade que está prestes a desmoronar.
Günter Lamprecht interpreta Franz Biberkopf, o protagonista, esse ator carismático interpreta muito bem e convicentemente, compondo muito bem uma personagem tão manipulada quanto manipuladora, ora o espectador sente pena dela, outras sente ódio da mesma personagem; vítima tanto da podridão humana, quanto de sua própria ignorância. Na verdade, “Berlin Alexanderplatz” é uma das peças cinematográficas mais complexas de todos os tempos, um brilhante estudo das relações humanas e das contradições da vida humana.
Se no livro, tem-se, claramente, dois personagens: o coletivo, que é a cidade a partir da praça Berlin Alexanderplatz, e, o indivíduo e social, também representado como coletivo, que ´Franz Biberkopf, o anti-herói decaído; no filme, contudo, a figura humana é a figura central diferente do romance de Alfred Döblin onde existe um discurso polifônico e a cidade é a protagonista -, no filme a voz central é de Franz e Fassbinder pensou em interpretar o protagonista, mas acabou desistindo, ainda que seja a voz dele que faz a narração dos episódios narrados como fluxo de consciência da personagem principal.”

·         DIVISÃO DA MINISSÉRIE EM TREZE CAPÍTULOS E UM EPÍLOGO (TÍTULOS EM PORTUGÊS):

1)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO I – O CASTIGO COMEÇA;
2)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO II – COMO VIVER QUANDO NÃO QUEREMOS MORRER?;
3)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO III – UMA MARTELADA NA CABEÇA PODE FERIR A ALMA;
4)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO IV – UM PUNHADO DE GENTE NAS PROFUNDEZAS DO SILÊNCIO;
5)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO V – UM CEIFADOR COM A VIOLÊNCIA DE NOSSO SENHOR;
6)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO VI – O AMOR TEM SEU PREÇO;
7)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO VII – LEMBRE-SE: UM JURAMENTO PODE SER AMPUTADO;
8)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO VIII – O SOL AQUECE A PELE, MAS ÀS VEZES A QUEIMA;
9)    BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO IX – DAS ETERNIDADES ENTRE OS MUITOS E OS POUCOS;
10) BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO X – A SOLIDÃO CRIA RACHADURAS DE LOUCURA ATÉ NAS PAREDES;
11) BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO XI – SABER É PODER E DEUS AJUDA A QUEM CEDO MADRUGA;
12) BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO XII – A COBRA NA ALMA DA COBRA;
13) BERLIN ALEXANDERPLATZ – EPISÓDIO XIII – O EXTERNO E O INTERNO E O SEGREDO DO MEDO DO SEGREDO;

14) BERLIN ALEXANDERPLATZ – MEU SONHO DO SONHO DE FRANZ BIBERKOPF, DE ALFRED DÖBLIN: UM EPÍLOGO.






·         “Querelle” (“Querelle”) (1982): “O canto de Cisne de Fassbinder”:



“Na cidade portuária de Brest, nada é o que parece ser. Neste cenário de sonho, sempre evidenciado por um crepúsculo onírico, avermelhado-amarelecido; o sol em constante se pôr; marcado por cenas internas acinzentadas. Toda essa cenografia e fotografia e jogo de câmera, serve para definir, Querelle, um marinho amoral que desperta sentimentos de amor e morte em homens e mulheres, planeja crimes e procura satisfazer os seus desejos, sexuais e financeiros, a qualquer custo.
Baseado livremente no romance de Jean Genet, “Querelle” é uma obra transgressora, na qual Fassbinder não faz concessões para transmitir sua visão de mundo ao espectador. Numa obra como essa, fassbinder mostra a marginalidade em que viviam os marinheiros em Brest, gays e bissexuais não assumidos; homossexuais ou bissexuais que não que querem admitir sua sexualidade.
Querelle, apesar de toda sua falta de ética e amoralidade, e, apesar de realizar todos os tipos de atrocidade criminais e ferir sentimentos, consegue sua catarse epifânica, mesmo em tom crepuscular e amoral, ao se convencer de sua bissexualidade, um alumbramento penumbrista, mas que se efetiva de maneira sugerida.
Filme póstumo de Fassbinder, morto em 10 de junho de 1982. O lançamento do filme na França só acontece em 8 de setembro. Fassbinder, antes de morrer, já preparava seu próximo projeto, uma obra fílmica épica sobre Rosa de Luxemburgo.
A música cantada por Jeanne Moreau, ao final do filme, tem como letra a famosa frase de Oscar Wilde: "Todo mundo mata aquilo que ama". É  o que Querelle faz, quem sabe em certa medida a ele mesmo, apesar de sua relativa epifania, como abordado acima, e, o próprio diretor é vítima desse processo na vida pessoal, ao fim das filmagens de “Querelle”, pois mata aquilo de que há melhor nele mesmo, o mais amável Fassbinder, ele mesmo.”



REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:
- Nestes nove posts últimos sobre 10 filmes de Rainer Werner Fassbinder e o Novo Cinema Alemão, foram utilizados para as resenhas por mim feitas, Rafael Vespasiano, críticas, das quais fiz observações, ampliações, cortes, edições, paráfrases, supressões, complementos, acréscimos de textos e opiniões próprias, pôsteres da internet, etc.:

·         “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, Kim Newman. IN: KEMP, Philip (Org.). Tudo sobre cinema. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
·         Links: www.revistainterludio.ccom.br , último acesso 22 de outubro de 2016;
Todo o “Dossiê Fassbinder” desta revista eletrônica foi publicado originalmente, em 17 de dezembro de 2013; terça-feira.
Críticas por: Bruno Cursini; Cesar Zamberlan; Gabriela Wondracek Linck; Heitor Augusto, Marcelo Miranda e Sérgio Alpendre.



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