terça-feira, 18 de outubro de 2016

(""O DESESPERO DE VERONIKA VOSS", ALEMANHA OCIDENTAL, 1982, RAINER WERNER FASSBINDER, ("Die Sehnsucht der Veronika Voss”"):("TRILOGIA BDR: CONCLUSÃO TRÁGICA DA SÉRIE DE FILMES REFLEXIVOS SOBRE A ALEMANHA DOS ANOS 1950, DE R. W. FASSBINDER")

(""O DESESPERO DE VERONIKA VOSS", ALEMANHA OCIDENTAL, 1982, RAINER WERNER FASSBINDER, ("Die Sehnsucht der Veronika Voss”"):

("TRILOGIA BDR: CONCLUSÃO TRÁGICA DA SÉRIE DE FILMES REFLEXIVOS SOBRE A ALEMANHA DOS ANOS 1950, DE R. W. FASSBINDER"):

(CRÍTICA POR RAFAEL VESPASIANO):



 ““O Desespero de Veronika Voss”, Alemanha Ocidental, 1982, (“Die Sehnsucht der Veronika Voss”). Realizado e concluindo brilhantemente, a Trilogia BDR, idealizada por Rainer Werner Fassbinder, que aborda o (falso) milagre econômico da Alemanha, no Pós-2ª Guerra Mundial, durante os anos 1950. “O Desespero de Veronika Voss” é a terceira e última parte da trilogia da Alemanha Ocidental, em sua decadência moral e ética, em meio às ruínas do Pós-Segunda Grande Guerra, durante a Guerra Fria, e a existência do Muro de Berlim, o que esfacelava a Alemanha em todos os sentidos. Foi uma das propostas do Novo Cinema Alemão, e que Fassbinder tão bem retratava em vários de seus filmes, em especial, na trilogia em tela.

O primeiro filme da trilogia de Fassbinder é “O Casamento de Maria Braun”, 1979, e, o segundo é “Lola”, 1981, O milagre econômico alemão é representado pelas protagonistas de cada filme, que dão título aos mesmos; três personagens, três atrizes diferentes; o filme em questão ganhou o Urso de Ouro em Berlim – Melhor Filme; a fotografia do filme é em preto-e-branco para ressaltar e dar veracidade ao retratar os anos 1950 do século XX, mais precisamente, o ano de 1955, em toda sua dramaticidade para a Alemanha e a personagem de Voss vivida brilhantemente pela atriz Rosel Zech.

“O Desespero de Veronika Voss” é uma homenagem do diretor Fassbinder, aos filmes melodramáticos de Douglas Sirk, e, ao filme “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Blvd.), de Billy Wilder, 1950. No filme de Wilder, a sinopse é basicamente: para escapar dos cobradores das suas dívidas, Joe Gillis (William Holden) se refugia na decadente mansão de Norma Desmond (Gloria Swanson), antiga estrela do cinema mudo. Quando Norma descobre que Joe é roteirista, contrata-o para revisar o roteiro de Salomé, que marcará seu retorno às telas. O filme é insuportável, mas o pagamento é bom e como ele não tem muito o que fazer, aceita.

Wilder mostra, a partir, de então, a decadência de uma atriz, na transição do Cinema Mudo para o Sonoro; já, no filme de Fassbinder, Veronika (Zech) era sucesso do estúdio UFA, de cinema de propaganda e financiamento nazista -, com a derrota do Nazismo, entra em decadência; Veronika, portanto, também é afetada e entra em declínio/desespero, estes são motivos para o vício em morfina, esse vício deve-se, então, também a outros fatores como: a dor física insuportável, mas também motivado pela tristeza, melancolia e infelicidade. Pela separação dela e o seu marido (que era o roteirista de seus filmes), e, principalmente, por não saber lidar com a fama, ou seja, não estava preparada psicologicamente para aquela (fama) e, com a decadência de sua carreira, é que Veronika se afunda mais ainda na morfina, por puro desespero.

Este desespero e este vício são abordados melodramaticamente, a maneira de Douglas Sirk, por exemplo. E, na verdade são metáforas sugestivas, e, tipicamente, fassbinderianas para: o declínio da Alemanha Nazista e de Hitler; para a crise alemã nos anos 1950, ou seja, na década seguinte a queda do partido Nazista; seu falso milagre econômico; e a crise moral e ética da sociedade alemã do pós-Guerra, vivida durante a Guerra fria. 

Na trilogia, as personagens femininas são sempre valorizadas por Fassbinder; a atriz Rosel Zech é quem vive Veronika, ótima interpretação daquela como Ross; há a personagem de um jornalista esportivo, Robert Krohn (Hilmar Thate), que tenta ajudar Veronika, envolve-se com ela, mas, Veronika está tão desesperada, que acaba não aceitando sua ajuda; Robert iria fazer um furo de reportagem com Veronika, mas depois passa a um interesse pessoal/emocional, melodramático, que beira ao fracasso e ao trágico.

O Desespero de Veronika Voss é um drama existencialista, melodramático, contudo, em que personagens são dominados por mecanismos muito mais fortes que eles, são autômatos num mundo que os oprime, paranoicamente. Fassbinder utiliza a corrupção e o vício generalizado para metaforizar uma Alemanha corrupta, degenerada e hipócrita, sem nenhuma ética, e, ou, moral. A fotografia em branco-e-preto (morfina, sugerida) é causadora de agonia às personagens e aos espectadores, uma ambiência claustrofóbica.

A fotografia magistral, e, as imagens do diretor de fotografia Xaver Schwarzenberger apresenta a realidade confusa da trama, paranoica, por meio do uso de espelhos, de vidros enfumaçados, que dão estranheza à imagem, criando um clima ao mesmo tempo muito charmoso, mesmo com imagens diáfanas e decadentes, as mesmas cenas do diretor de fotografia são maravilhosas, criando um maneirismo simbolista-decadente, que o enredo e a temática do filme e da trilogia de Rainer Fassbinder necessita, em especial, na conclusão, da sua trilogia sobre a decadência moral alemã dos anos 1950.

Fassbinder é, em suma, um modernista, mas, acertadamente, um pós-moderno, pois, mistura, sabiamente, gêneros e subgêneros fílmicos, e, antropofagicamente, deglute influências e referências de outros cineastas e filmes (como Mabuse, de Fritz Lang, e, O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, ambos, do Expressionismo Alemão, do início do século XX, com o segundo filme, criando um estilo próprio, o Caligarismo.). Fassbinder se valia também de outras artes, para enriquecimento de sua poética cinematográfica.

O Desespero de Veronika Voss, é filiado por exemplo ao melodrama, mas está longe e muito dele, mais perto de um drama existencialista e psicológico; se utilizando tanto de formas convencionais como de formas modernas, naturalistas e antirrealistas, leva o aparente paradoxo a um grau adiante, típico do cinema pós-moderno.”.


“A próxima crítica será sobre o filme “O Machão”, 1969, “Katzelmacher”.” 

Nenhum comentário:

Postar um comentário