quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

À Deriva no Mundo, por Rafael Vespasiano. Livro de poemas - 2ª edição. (Link para conhecer a obra no corpo do texto).

 




Muito feliz por lançar e compartilhar com vocês a segunda edição do meu primeiro livro de poemas, À deriva no mundo. Fruto de uma experiência de escrita e rescrita, que durou prazerosos e também dificultosos longos anos (cerca de 15), desde quando escrevi o primeiro poema que dele faz parte até a versão digital que ora lanço e compartilho com o público leitor. Esta é uma edição revista e muito modificada em relação à primeira edição, corrigidos alguns erros de revisão, adicionados alguns poemas e retirados outros tantos. Enfim, deixo a cargo dos leitores e das leitoras a devida apreciação.


Rafael Vespasiano (Escritor e Poeta).

Link para conhecer a obra:

https://www.amazon.com.br/dp/B09KYJ6X5S/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=3N89RGMDDNFE1&dchild=1&keywords=%C3%A0+deriva+no+mundo&qid=1635967763&sprefix=%C3%A0+deriva+no+mundo%2Caps%2C607&sr=8-1

sábado, 29 de janeiro de 2022

Catábases – estudos sobre viagens aos infernos na Antiguidade-Eudoro de Sousa: uma descida aos Infernos para ver o futuro



 

Um dos maiores mitólogos do país (e do mundo) é Eudoro de Sousa. No livro Catábases – estudos sobre viagens aos infernos na Antiguidade, o autor tem reunido suas conferências/aulas proferidas em lendário curso ministrado por ele na UnB nos anos 1960 sobre Mitologia, em especial sobre as catábases da Antiguidade Clássica, mas como bom professor, Eudoro de Sousa amplia o escopo e trata das catábases pré-helênicas (dos plantadores primitivos, da Mesopotâmia), inclusive traduz algumas catábases/textos sumero-acadianos. O tema da descida aos infernos é definido pelo próprio escritor como escatológico, porém, essa definição vai além, pois se trata é, principalmente, de “uma visão do futuro”, como vemos por exemplo, na Odisseia (o futuro retorno de Ulisses à Ítaca), na Eneida (quando no Além, Eneias vem o futuro de Roma) e, até mesmo, nos Lusíadas, já no Renascimento (quando Gama vem o futuro do Império Colonial Português). Grande obra de referencial teórico sobre o tema. 

domingo, 16 de janeiro de 2022

Alice Munro: O cotidiano nada trivial.

 




Os contos de "Ódio, amizade, namoro, amor, casamento" (2014), de Alice Munro, uma coletânea que totaliza nove contos, é um livro marcado pelas errantes viagens e travessias de diversas personagens femininas em busca da sua ressignificação enquanto "ser feminino" no mundo contemporâneo. Temas como: amores frustrados, traições, desconstrução do mito materno e a questão das relações familiares em deterioração/ruínas são recorrentes no livro, todas marcadas pelo acaso, por um momento que define o "antes" e o "depois" na busca da personagem. O silêncio e o interdito também se fazem presentes nos contos, pois, muitas vezes, nas relações das personagens, a incomunicabilidade se faz perceptível; se percebe também a inutilidade ou a insuficiência da linguagem para expressar os sentimentos das personagens. Narrativas marcadas pelo fluxo de consciência, pela rememoração, por flashes e cortes temporais, muitas vezes bruscos, Munro capta momentos nada triviais nas histórias cotidianas das suas personagens.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

À Deriva no Mundo - Livro por Rafael Vespasiano: disponível em versão digital.




 


Muito feliz por lançar e compartilhar com vocês a segunda edição do meu primeiro livro de poemas, À deriva no mundo. Fruto de uma experiência de escrita e rescrita, que durou prazerosos e também dificultosos longos anos (cerca de 15), desde quando escrevi o primeiro poema que dele faz parte até a versão digital que ora lanço e compartilho com o público leitor. Esta é uma edição revista e muito modificada em relação à primeira edição, corrigidos alguns erros de revisão, adicionados alguns poemas e retirados outros tantos. Enfim, deixo a cargo dos leitores e das leitoras a devida apreciação.

Rafael Vespasiano (Escritor e Poeta).

Link para conhecer a obra: https://www.amazon.com.br/dp/B09KYJ6X5S/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=3N89RGMDDNFE1&dchild=1&keywords=%C3%A0+deriva+no+mundo&qid=1635967763&sprefix=%C3%A0+deriva+no+mundo%2Caps%2C607&sr=8-1

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

"Raízes do Brasil", Sérgio Buarque de Holanda: Contradições da/na formação do Brasil enquanto nação.

 


"Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda. É uma obra ensaística histórico-sociológica, que busca demonstrar alguns aspectos da formação social, cultural e histórica do país. O autor sempre se vale de uma metodologia baseada em pares de opostos complementares e paradoxais, para ressaltar nossa constituição como nação, o que por si só já revela nossas eternas contradições, enquanto um país periférico, Quanto à questão que o ensaísta levanta acerca do "homem cordial" brasileiro, ou melhor, a suposta cordialidade do brasileiro, fica evidente que o dito homem cordial do país é, na verdade, um ser que, apenas, aparenta tal feição, sempre buscando se manter no poder e com seu status quo de dominância, qual seja: homem (gênero masculino), branco, o qual baseando-se no patriarcado personalíssimo, faz de tudo para continuar nas posições de mando, inclusive se valendo da violência e da exploração. Outro ponto levantado por Holanda que merece atenção é que nossos colonizadores sempre buscaram explorar nossas riquezas, com total desleixo por parte daqueles, com seu estilo "aventureiro", que se baseando na escravidão dos indígenas e dos africanos que foram trazidos à força para cá, colonizaram o país, a partir de latifúndios de monoculturas e do plantio irresponsável, somente visando o lucro imediato e cada vez mais maior, além da posterior exploração da minas, o que leva às Entradas, outra questão bastante comentada por Holanda em sua obra. Neste ponto, o autor ressalta as contradições e paradoxos das Bandeiras no processo de formação da nação. Por outro lado, um erro evidente do ensaísta é acreditar numa suposta democracia racial no Brasil, questão que já se provou equivocada com os recentes estudos decoloniais. Afirmar que os indígenas quase nunca se rebelavam contra a escravidão ou a catequização é uma afirmação errônea. E que aqueles eram mais "dóceis" que os negros africanos escravizados, é outro equívoco. Para mim, de toda sorte, uma das mais sensatas afirmações do autor é que a democracia no país é um grande mal-entendido. Basta vermos a situação do Brasil, em pleno 2022. Um livro importantíssimo para compreendermos nosso país e sua formação, mas que devem ser feitas algumas ressalvas em virtude, especialmente, dos novos estudos sociológicos, históricos e culturais, em especial, os decolonais.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Galáxias, Haroldo de Campos: Poemas constelares - o livro enquanto viagem.




 "Galáxias", de Haroldo de Campos, é um livro que é uma "viagem", uma viagem enquanto livro. Que está sendo escrito e reescrito no próprio processo de re-escritura enquanto tona-se livro. Campos já afirma que o livro não é um livro de viagem, mas o próprio livro é uma viagem enquanto livro. O poeta em sua proposta metalinguística e intertextual nos dá um galáctico livro constelar que se pretende uma obra total, consciente de que não poderá nunca ser totalizante, apenas mais uma espetacular re-criação de uma nova constelação literária. Mallarmaico em muitos momentos, mas também rosiano, enquanto livro sendo rio-constelar de palavras re-criadas. Livro de difícil entrada? Sim. Mas, que vale a pena, a viagem por seus versos constelares, que são desafiados pelos brancos das páginas e desafiam o branco da páginas. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Torto Arado, Itamar Vieira Júnior: O Semear Torto do Brasil Enquanto Nação.

 






"Torto Arado", de Itamar Viera Júnior, é um sopro de originalidade na Literatura Brasileira Contemporânea. Trazendo questões urgentes do Brasil do passado e do presente, mas também com grande investimento estético marcado por realismo e magia. O autor nos apresenta uma narrativa, que assim como a História da nação brasileira é torta, e, por isso mesmo, são dignas de serem re-contadas. E, da mesma forma, são importantes de serem ressignificadas e reconstruídas. Justamente, por esses caminhos tortos, por esse "arado torto" e, por esse "semear torto" é que o nosso país é construído enquanto nação. Fica, assim, o sopro da vida a dizer: a resistência se faz, dessa maneira, tanto na vida, como na arte, por caminhos e linhas tortas, pelo arado torto das nossas existências, enquanto povo brasileiro.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

"Eu", Walter Hugo Khouri, Brasil, 1987: A Busca por Tudo... e pelo Nada.

 



Eu” é mais uma daquelas obras polêmicas dirigidas por Walter Hugo Khouri, lançada em 1987. Porém, muito acima da média das produções nacionais da década de 1980, apesar de possivelmente não ser seu melhor trabalho. Khouri era um exímio cineasta, introspectivo e detalhista em seus roteiros e filmes. É o caso de “Eu”. Estrelado por Tarcísio Meira, com seus olhares que demonstram o vazio e a crise existenciais da personagem Marcelo, em crise com a sua idade avançando, sentindo a chegada da morte, ou a ansiando, a crise da meia-idade. Desejando todas as mulheres, um apetite sexual voraz, mas também uma busca por tudo e por nada, com viés até mesmo de fundo niilista. Marcelo exemplifica também o predador capitalista, burguês, que usa as outras pessoas, as coisificando e as considerando todas insignificantes, o que constitui por si só em um pensamento paradoxal. Ou seja, o filme apesar de um caráter predominantemente introspectivo e existencialista, tem algumas sugestões ou reflexões sobre questões sociais e políticas nos diálogos. A galeria de personagens femininas é riquíssima: Lila (Nicole Puzzi) projeta seus desejos incestuosos em relação ao seu pai em Marcelo; Renata (Monique Lafond), junto a Lila, desenvolve um trio sexual com Marcelo e, também agencia outras garotas para Marcelo, como a explosiva e sensual Diana (Monique Evans), que desde o começo seduz Marcelo; Beatriz (Christiane Torloni) é uma psicanalista amiga da filha de Marcelo, Berenice (Bia Seidl) que é estudante de psicologia e muito admira Beatriz. Ou até mais... Beatriz desperta uma paixão tardia em Marcelo. E Marcelo e sua filha desenvolvem uma relação de muito amor, respeito e admiração entre si, mas também de repulsa e estranhamento. Marcelo toma atitudes autodestrutivas que vão minando suas relações sociais e afetivas. Os conflitos desenvolvidos em relação a toda essa quantidade de mulheres, todas reunidas em um mesmo espaço, a casa de praia da família de Marcelo, localizada em uma península isolada, demonstram um homem orgulhoso, autoconfiante, voraz, porém que demostra insegurança, infantilidade, imaturidade e até demonstra ser um homem mimado. Todas estas características de sua personalidade refletem, sobretudo, em um homem, tipicamente, burguês e playboy, mulherengo, egocêntrico, megalômano, egoísta e individualista, um destruidor de tudo, de todos e de si mesmo.  

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Os Documentos da Yakuza-Kinji Fukasaku-Japão-1973/1974: épica série de cinema sobre a máfia japonesa.

 









Os Documentos da Yakuza é uma série de cinema policial japonesa dividida em cinco filmes idealizada pelo cineasta Kinji Fukasaku, que também dirigiu os ótimos Portal do Inferno (1981), A Conspiração do Clã Yagyu (1978) e Guerra de Gangues em Okinawa (1971), além de ter dirigido as cenas japonesas do épico de guerra Tora! Tora! Tora! (1970). Os filmes da série Documentos da Yakuza chegaram aos cinemas entre os anos de 1973-1974 e retratam de forma nua, crua e dura a violência promovida pelas gangues e os diversos clãs da máfia japonesa da Yakuza desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ex-soldados japoneses da Guerra desamparados, frustrados e pobres são tragados pela máfia, para fazer parte de seus diversos clãs, atuando na jogatina, no comércio ilegal de bebidas e até no tráfico de outras drogas com o passar e a sofisticação da Yakuza, no mercado ilegal, etc. Shozo Irono é um deles. Shozo é interpretado pelo astro japonês desse gênero de filmes, Bunta Sugawara. No Japão de 1947, ele entra para um clã e até chegar aos anos 1970, em sua trajetória no crime, ele percebe que muitos jovens desiludidos saíram de uma Guerra Mundial para entrar em uma espécie de guerra civil, em que sempre que ganha são os mais poderosos e os mais fortes e os mais fracos (jovens) são apenas usados (mortos) para manter uma mínima parcela no comando da máfia Yakuza. A guerra fraticida dentro da Yakuza é deflagrada em quatro momentos de extrema violência e sanguinolência ao longo da série de filmes, até que a sociedade civil japonesa, em especial com a chegada da Tocha Olímpica em Tóquio, 1964, clama para a intervenção da polícia até então conivente e, principalmente, subornável e corrupta. Sem contar os políticos corruptos, que tinham acordos inescrupulosos e ganhavam muito com a Yakuza. Shozo testemunha um movimento nos anos 1970 em que Yakuza tenta mostra uma faceta nova para o Japão, uma faceta de partido e organização política, a Tensei, mas que não difere muita da velha Yakuza, pois Yasukas sempre serão Yakuzas e, a guerra e a violência continuam iguais, somente variando em suas facetas e roupagens. Os filmes são excelentemente regulares, de extrema violência visual, com ótimos e originais ângulos de câmera. Cenas caóticas no bom sentido. Atuações bastante forçadas, mas que é uma característica dos filmes desse gênero, com uma ampla e diversificada galeria de personagens. Kinji Fukasaku de fato é um mestre do gênero Yakuza e realizou uma monumental obra, por muitos considerados O Poderoso Chefão japonês, que influenciou diretores como Quentin Tarantino e Takashi Miike.  Os filmes são: Luta Sem Código de Honra (1973), Duelo em Hiroshima (1973), Guerra Por Procuração (1973), Estratégias Policiais (1974) e Episódio Final (1974).    

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A Voz da Lua - Federico Fellini - Itália/França - 1990: Ode à Loucura.

 




A Voz da Lua” é o último filme de Federico Fellini, lançado em 1990. Fellini, um dos mestres do cinema onírico e fantasioso, oferece ao espectador uma ode não só à Lua, mas, concomitantemente, à Loucura. Roberto Benigni interpreta Salvini, um sujeito lunático, louco, que vê (ou prefere ver) apenas o lado poético, lírico do mundo. Em suas razões e des-razões percebe, aos poucos que, talvez seja somente na e pela Loucura que seja possível entender as questões metafísicas do ser humano em relação às outras pessoas e, dessa forma, em relação ao próprio universo. Um roteiro que mostra momentos e situações que parecem apenas delírios, que de tão absurdas são por isso mesmo tão verossímeis. E isto é a própria essência da vida em sua dualidade, em seus opostos complementares: Razão e Loucura. Fellini é, de fato, um maestro em conduzir este louco concerto de situações inusitadas, elenco e extras em um caos (veja-se a cena da discoteca como exemplo disso), porém muito bem ordenado racionalmente e tendo um porquê: o caos da existência humana é a razão desarrazoada do prosseguir humano.     

terça-feira, 7 de setembro de 2021

"O Bandido da Luz Vermelha" - Rogério Sganzerla - Brasil - 1968: a western about the third world.

 


“O Bandido da Luz Vermelha'' is an amazing movie, released in 1968, captivating from the initial credits. So, this movie catches the viewer's attention from the beginning to end. The director is Rogério Sganzerla and the main actors are - Paulo Villaça as the outlaw and Helena Ignez as Janete Jane, a prostitute that the bandit develops a relationship. All have outstanding performances in their roles. This drama/thriller uses radio speakers as movie narrators through the plot. The movie is a criticism of a sensationalist media that has created false rumors and stories - even a very current film - from flying saucers invading the country to false police information, such as the discovery of the identity of the red light bandit. The director and screenwriter Rogério Sganzerla created a visually and aurally striking; a mix of references and metalanguages. The movie narrates typical events of urban life in which transits the thief interpreted by Paulo Villaça (freely inspired by the crimes of famous bandit João Acácio Pereira da Costa, nicknamed “red light bandit”). This movie is amazing, incredible, creative and innovative. Chaotic in the good sense of the word. Watch, review and understand why it is a true “western about the third world. ” The movie deserves a five stars rating.

O Bandido da Luz Vermelha - Rogério Sganzerla - Brasil - 1968: Um faroeste sobre o 3º Mundo.

 



O Bandido da Luz Vermelha” é um filme espetacular, de 1968, que cativa desde o começo, desde os créditos que na maioria das vezes são enfadonhos. Então, prende a atenção do espectador até o final. O diretor é Rogério Sganzerla e o filme tem como atores principais Paulo Villaça como o “Bandido” e Helena Ignez interpreta a personagem “Jante Jane”, uma prostituta com a qual o bandido se relaciona. Ambos são sólidos em suas atuações. Utilizando locutores de rádio como narradores do filme durante toda a história, esta obra é um drama/thriller que critica a mídia sensacionalista, que criava boatos e histórias falsas -, um filme, inclusive, muito atual -, desde discos voadores invadindo o país a falsas informações policiais, como a da descoberta da identidade do bandido da luz vermelha. O diretor e roteirista Rogério Sganzerla cria um cinema impactante visualmente e auditivamente; uma miscelânea de referências e metalinguagens; narra acontecimentos típicos da vida urbana em que transita o ladrão, vivido por Paulo Villaça (livremente inspirado nos crimes do famoso assaltante João Acácio Pereira da Costa, apelidado de “Bandido da Luz Vermelha”). Uma obra de cinema espetacular, incrível, criativa e inovadora. Caótica na boa acepção da palavra. Vejam e revejam e entendam porque se trata de um verdadeiro “faroeste sobre o terceiro mundo”.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

(Convite ao Prazer, BRA, 1980, Walter Hugo Khouri): (“Liberdade Vigiada e-ou Prisão Livre”):


(Convite ao Prazer, BRA, 1980, Walter Hugo Khouri):
(“Liberdade Vigiada e-ou Prisão Livre”):



“O filme começa com uma epígrafe de Spinoza que reflete a questão da Liberdade e seus aspectos vantajosos e-ou desvantajosos quando é manifestada (usufruída) em demasia, ou quando se manifesta e é usufruída em graus mínimos, precários. A frase não é bem esta, mas segue a que compilei e que expressa melhor o tom reflexivo do roteiro de Khouri: “A liberdade é uma virtude e, portanto, tudo que em alguém é sinal de impotência não pode ser atribuído à sua liberdade. (…). Quanto mais livre alguém é, menos podemos dizer que esse alguém pode não usar da razão e escolher o mal em vez do bem. ” Os casamentos do filme são vistos, sob a ótica dos protagonistas masculinos, ora pela perspectiva da ‘liberdade vigiada’ para Luciano, ora pela perspectiva da ‘prisão livre’ para Marcelo.
Dessa forma, a partir da epígrafe e por um acaso, o filme começa no momento em que Marcelo (Roberto Maya) –, por causa de um repentino problema dentário -, vai ao consultório do dentista Luciano (Serafim Gonzalez), amigos de longa data, mas que não se veem a alguns anos. A inveja sempre marcou a relação dos dois: Marcelo herdou a empresa e as propriedades do pai, rico desde sempre, já Luciano é um típico profissional liberal de classe média, que luta muito para manter tal condição social.  Porém, o grande investimento estético do filme dirigido e escrito por Walter Hugo Khouri não é a questão social, mas sim a carga dramática existencialista, em especial, dos dois protagonistas masculinos.
Khouri inicia sua obra fílmica demonstrando sinais de que algumas de suas personagens possuem conceitos artísticos e formação intelectual diferenciada, é o caso da esposa de Marcelo, Ana (Sandra Bréa). Ela é conformada em sua situação de esposa traída, que vive sua solidão conjugal e sua crise existencial, estudando obras das Artes Plásticas, gosto pelas Artes que aprendeu com o esposo, Ana sobretudo gosta das pinturas surrealistas, com apreço especial para o quadro, que é apresentado no início e ao fim do filme,  e representa duas figuras -, uma masculina, outra feminina -, abraçadas, entrelaçadas e encapuzadas, simbolizando um beijo de solidão entre-e-do par, um beijo que re-vela sugestivamente uma relação marcada por máscaras , ou sugere um relacionar-se em que o beijo entre os amantes é um entrelaçar-se e um beijar-se fragmentado e frio, corrompido, incomunicável na falta de contato dos lábios e por extensão metaforiza a falta de estima que marca aquele gesto que era para ser de afeição, mas se torna um beijar-se sem compreensão, solitário.
Essa metáfora sugere o que é de fato o casamento não só de Marcelo e Ana, mas também o de Luciano e Anita (Helena Ramos). Casamentos frustrados, marcados pelas infidelidades dos esposos -, ora estas traições se dão por mera diversão e prazer sexuais -, ora por uma espécie de desafio silenciado em palavras, mas manifesto em atos, de Marcelo e de Luciano, um para com outro de quem é o ‘mais forte’, ou de quem é o ‘mais garanhão’, dada a já citada inveja que nutrem um em relação ao outro.
Muitas vezes fica evidente a aniquilação que Marcelo quer propiciar a Luciano, não somente no âmbito sexual, mas moral e conjugal também. Isso vale, inclusive, de certa forma, de maneira inversa. Uma verdadeira relação de amizade marcada pela toxicidade, que é repassada para as esposas e para as amantes deles, de fato uma masculinidade tóxica muitas vezes, com cenas de assédio e abusos a algumas mulheres que são apresentadas no filme. Contudo, aqui trata-se de um ‘drama erótico’ e não de uma ‘pornochanchada’ pura e simples, nada em “Convite ao Prazer” é gratuito e banalizado, tudo tem um porquê nas questões existenciais levantadas pelo cineasta Walter Hugo Khouri não somente neste filme, mas em sua filmografia como um todo.
Em um determinado momento do filme é dito por uma personagem que “amor é amor e casamento é casamento”, refletindo sobre conceitos e sentimentos de liberdade ou a privação desta, amor ou des-amor, carinho ou não, entre outras questões relativas aos matrimônios e as relações amorosas em geral, mas que cai como uma luva para os casais do filme e vai ao encontro da epígrafe da obra de Khouri retirada dos escritos do pensador Spinoza.
A produção de “Convite ao Prazer”, lançada em 1980, foi realizada por Antonio Polo Galante, grande produtor de filmes dos anos 1970-1980 do Cinema Brasileiro, um verdadeiro ícone do nosso cinema, para o bem e para o mal, diga-se de passagem. No elenco tem-se ainda: Kate Lyra, Aldine Muller, Nicole Puzzi, Rossana Ghessa e Patrícia Scalvi, as atrizes-modelos que compõem a parte sensual e mais erótica deste drama de Walter Hugo Khouri, que tem uma fotografia condizente com a ambiência do filme, realizada por Antonio Meliande, outro grande nome do cinema brasileiro da época. E trilha sonora de Rogerio Duprat -, que dispensa maiores apresentações, pois se trata de um grande músico não somente de trilhas musicais para filmes, mas também compositor e realizador de diversos discos clássicos da história da nossa música -, em que o jazz se sobressai em grandes melodias para acompanhar algumas cenas sexuais, conferindo sensualidade a muitas delas, e às vezes até sentimento de dor.
Já que, amor e-ou ódio (inveja), erotismo, prazer e-ou dor, sofrimento (aniquilação) são expressos simbolicamente, em grau maior ou menor, até no título do livro de Artes Plásticas lido por Marcelo, ‘Erotismo e Morte na(s) Arte(s)...’, que é (mais) uma forma de ler o filme, até por tudo que foi dito nesta crítica ora realizada. ”

segunda-feira, 8 de junho de 2020

(Imagens, Reino Unido, 1972, Robert Altman): (O Perigoso Terror: A Mente):


(Imagens, Reino Unido, 1972, Robert Altman):
(O Perigoso Terror: A Mente):   

Images (1972)

“Imagens é mais um ótimo filme do mestre da Sétima Arte, Robert Altman. Produzido no Reino Unido e lançado em 1972, com roteiro original do próprio cineasta, é mais uma obra ímpar da década de 1970 deste realizador, uma década mágica contemplada com diversos grandes filmes dirigidos por ele, por exemplo basta citar: M.A.S.H. (1970); Voar é Com os Pássaros (1970); Um Perigoso Adeus (1973); Nashville (1975); Oeste Selvagem (1976); Três Mulheres (1977), entre outros.    
Robert Altman teve uma carreira prolífica como cineasta, com um total de 90 créditos como diretor (segundo fontes do site IMDb), nem sempre de bons filmes, alguns muito contestados pelo público e pela crítica especializada, na maioria das vezes suas obras não foram sucessos de bilheteria, porém seus filmes estão resistindo muito bem a passagem do tempo, alguns bastante atuais e relevantes ainda, como mostrou a retrospectiva outrora feita pelos Centros Culturais do  Banco do Brasil, no ano de 2008, gerando intenso debate entre os frequentadores das sessões à época, um ano e meio após seu falecimento.
 Altman iniciou no ano de 1951 com a produção de um documentário em curta-metragem, seguindo por diversos outros curtas, entre filmes de ficção e documentário, além de dirigir episódios de séries de TV, entre segmentos do seriado de Alfred Hitchcock Apresenta e do Bonanza, também dirigindo filme televisivos. Seu primeiro longa-metragem é de 1957, Os Delinquentes. Dirigiu mais dois longas-metragens nos anos 1960, No Assombroso Mundo da Lua (1967) e Uma Mulher Diferente (1969). Sua consagração, enfim, veio em 1970 com o filme de guerra amalucado e politizado, antibelicista M.A.S.H., que inclusive originou um seriado de TV.
 Os anos 1980 foram muito irregulares para o cineasta estadunidense nascido em Kansas City, no ano de 1925, e falecido aos 81 anos de idade em 20 de novembro de 2006. Mesmo assim produziu filmes interessantes como James Dean, o Mito Sobrevive (1982), A Honra Secreta (1984) e Louco de Amor (1985). Seu grande retorno, porém, se deu na década seguinte com os filmes O Jogador e Short Cuts – Cenas da Vida, respectivamente lançados em 1992 e 1993. Seu último grande filme foi Assassinato em Gosford Park, de 2001, em que se inspira no filme de 1939, A Regra do Jogo, de Jean Renoir, para criticar as convenções e hipocrisias sociais das classes abastardas, mas também das desprovidas de riquezas, na eterna luta de classes. Seu último suspiro se deu no seu derradeiro ano de vida, em 2006, com o nostálgico, A Última Noite.
Depois deste sucinto panorama da magnífica obra de Robert Altman, voltemos a nos referir ao filme Imagens. Este é protagonizado por Susannah York que interpreta uma escritora de livros infantis, Cathryn -, a própria York escrevia à época das filmagens um livro voltado para aquele público, À Procura de Unicórnios -, que teve trechos lidos pela personagem no filme, como forma de sustentar o roteiro de Altman. E, por sinal, dando muito sentido as questões desenvolvidas no filme. Outra questão extra filmagem é que a atriz estava grávida à época e no início recusou o convite para realizar o filme, mas Altman incorporou este fato também ao roteiro.
Cathryn é uma personagem desconfiada da fidelidade do marido Hugh (Rene Auberjonois), ela possui distúrbios psiquiátricos esquizofrênicos; sua mente fragmenta-se em delírios e ela não distingue em muitos momentos o que é realidade e o que é fantasia. Cada vez mais vai se se emaranhando em ficções criadas por ela, o seu eu se divide em uma Cathryn do ‘passado’, ‘má’, ‘obscura’ e a Cathryn do ‘presente’, ‘boa’, ‘verdadeira’. Porém, esta maneira dicotômica de apresentar sua personagem é apenas uma tentativa momentânea de explicar sua personalidade dividida, pois esta divisão, tal qual o espelho do quarto, em um determinado momento, do filme reflete até três Cathyrns.
Cathryn é assombrada por si mesma, pelo fantasma de um amante Rene (Marcel Bozzuffi) e um amigo do marido que a assedia continuamente Marcel (Hugh Millais) e até pela suposta infidelidade do marido. Assim como a personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski, a personagem de Susannah York é aparentemente perturbada por traumas mnemônicos, que não são revelados ao espectador, mas são talvez uma das explicações para sua repulsão às três personagens masculinas do filme. Porém o maior medo de Cathryn, seu grande pesadelo e sua maior sombra a pairar sobre ela é ela mesma; os seus recônditos da mente e da alma a perturbá-la de uma maneira quase que perpétua.
A trilha sonora assustadora de John Williams, acentuada pelos ruídos produzidos por Stomu Yamashta, com a adição da paleta sombria do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond conferem à obra status de um verdadeiro pesadelo que se passa pela mente caótica de Cathryn. Já que não é necessário nenhum filme de terror com cenas explícitas de violência ou monstros tenebrosos para nos meter medo; nós somos nossos maiores fantasmas, o nosso maior pesadelo somos nós mesmos. Cathryn e Imagens nos sugere muito bem tal aspecto da psicologia humana. 
Uma questão interessante nesta fragmentação da protagonista é que todas as personagens têm o primeiro nome que se refere ao nome de um ator do filme: Hugh é o marido interpretado por Rene Auberjonois, Rene é o falecido amante interpretado por Marcel Bozzuffi, Marcel é o vizinho e amigo do casal vivido pelo ator Hugh Millais. O que reflete a fragmentação da realidade e da mente esquizofrênica de Cathryn. E, ainda tem a jovem Sussanah vivida por Cathryn Harrison, o que acentua ainda mais a questão e a circularidade do roteiro de Altman, a mostrar que a deterioração, as sombras que envolvem a mente da protagonista se perpetuam no conflito desequilibrado entre realidade e imaginação.     
Algumas cenas são inesquecíveis neste filme de Robert Altman, por exemplo: os telefones, quatro ao todo, em um apartamento, o que também é sintomático para mostrar a fragmentação da personalidade da personagem de York, além de início já revelar suas dúvidas quanto às traições do esposo.
E outra cena que será devolvida durante por parte do filme é a do quebra-cabeça, que é a própria mente se revelando e se esfacelando de Cathryn, que está à procura de escrever seu livro para crianças, com o título já por si só bastante imaginativo, À Procura de Unicórnios, e, principalmente, Cathryn está à procura de si mesma, como todos nós.”






Prêmios:
Nomeado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Dramática: John Williams (1973);
Nomeado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro – 1973;  
Melhor Atriz no Festival de Cannes – 1972 – Susannah York;
Concorreu à Palma de Ouro – 1972 – Festival de Cannes;
Indicado ao BAFTA de Melhor Fotografia – Vilmos Zsigmond – 1973;
Entre outras indicações.

domingo, 3 de maio de 2020

O Bebê Santo de Mâcon (Peter Greenaway, HOL, FRA, GBR, ALE, 1993):


                                                            The Baby of Mâcon (1993)



“O Bebê Santo de Mâcon é mais uma extravagância fílmica de Peter Greenaway. Mas como sempre o cineasta britânico nos tem muito a mostrar, seja no âmbito estético, seja no âmbito temático.
No que tange ao primeiro quesito, o filme é deslumbrante em suas cores berrantes, em especial, o uso do vermelho, que na paleta do diretor de fotografia Sacha Vierny, significa justamente a aberração que é a sociedade retratada na obra. Além de uma direção primorosa a conduzir o espectador pelos suntuosos cenários (assinados por Bavo Defurne), que são aproveitados com maestria por Greenaway, para nos apresentar a história, de maneira teatral: até parece que estamos dentro de um teatro, aparentemente apenas, pois algumas cenas foram filmadas na Igreja Velha de Amsterdã e outras em estúdio; e tem-se até direito a uma “plateia” a presenciar as ações das personagens principais, aquela plateia devidamente caracterizada por um figurino rico e deslumbrante, assim como o de todas as personagens, figurino assinado por Ellen Lens e Dien van Straalen .
Algumas personagens possuem falas que expressam a consciência de ‘ilusão de realidade’ e, portanto, de ‘ilusão ficcional’, assim sendo tem-se uma espécie de ‘metafilme’, ou ‘meta-teatro-cinema’. O que é ressaltado pelas vidas humanas (personagens) vividas como que em uma espécie de ‘teatro de ilusões’, e também pelas ‘máscaras sociais’, que marcam toda a sociedade e, portanto, toda a humanidade, no desenrolar infinito dos tempos. Ainda no aspecto técnico, o filme conta com uma excelente edição assinada por Chris Wyatt, que nos ajuda a compreender melhor as questões suscitadas pelo roteiro.
No que se refere ao segundo aspecto, que é justamente a questão temática, tem-se o roteiro assinado pelo próprio cineasta, que parte de uma premissa básica e que em outras mãos se tornaria um lugar-comum: a corrupção de toda uma sociedade. Tem-se de partida, um prólogo ditado pela ‘Fome’, que já nos alerta para o que filme mostrará em 2h de duração e em três atos, e mais um epílogo-circular, que se liga ao já narrado no prólogo pela mesma ‘Fome’: uma sociedade corrompida em todos os seus segmentos, nobreza, clero e plebe.
Uma sociedade marcada pela miséria, aberrações, enfermidades e iniquidades de todos os tipos. Uma terra marcada pela esterilidade e pela infertilidade não em produzir novos seres\rebentos, mas em gerar seres não corruptos e\ou corrompidos. Parte de supostos milagres perpetrados por um bebê santo, filho de uma virgem, porém tudo logo é percebido e verificado como uma grande farsa, que leva a mais e mais tragédias, demonstrando a corrupção do homem e da sociedade, que não é evidenciada pelo ‘é’, contudo, pelo ‘sendo’, ou melhor seria pelo ‘é’ e pelo ‘sendo’ ao mesmo tempo, a eterna dualidade dinâmica em devir. ”

terça-feira, 21 de abril de 2020

(O Lobo do Mar, Jack London, 1904):


(O Lobo do Mar, Jack London, 1904):
“É melhor reinar no inferno do que servir no céu. ”
(Paraíso Perdido, Milton).


“O Lobo do Mar, publicado originalmente no ano de 1904, é mais do que um romance de aventura, em alguns momentos de extrema habilidade do romancista Jack London, desfilam na obra páginas de aguçada análise psicológica, em que são estudadas as condições humanas num microcosmos de embrutecimento das relações humanas.
Ghost é uma embarcação náutica de caça às focas, que desperta receio e medo àqueles que ouvem falar nela e em seu tirânico capitão Wolf Larsen; os que já fazem parte da tripulação vivem em uma ambiência de pavor e constante atrito nas relações com os companheiros de escuma, porém nunca levantam a voz para as atrocidades cometidas por Larsen. Até o momento do resgate de um náufrago, Humphrey van Weyden, um jovem intelectual, com pretensões a escritor. A partir deste momento, aos poucos, em momentos de crescente tensão psicológica, as coisas começam a tomar outros rumos.
O confronto entre as duas personagens principais é o melhor do livro. Os antagonistas Wolf Larsen e van Weyden iniciam um verdadeiro duelo em tentar convencer o outro do que falta ao outro, ou do que está escondido no outro, buscando que o outro revele a outra face de sua personalidade, até então adormecida.
Logo no primeiro momento em que um marinheiro está sendo maltratado e este estando à beira da morte, Humphrey percebe que o capitão da escuna se vale dos abusos físicos contra os seus comandados como forma de manter o controle de todos e de todas as situações em sua escuna. Larsen em nenhum momento perde o controle da situação, sua força física é enorme e entre outros atributos de caráter, seu poder de persuasão sobre os outros é gigantesco, evitando tentativas de confrontação a seu poder e nem um motim, por ora é vislumbrado.
Larsen apesar de tudo isso é uma autodidata formando intelectualmente na solidão de suas leituras de Darwin, Nietzsche, Spencer, Johnson, Poe, Shakespeare, Milton, entre outros clássicos científicos, filosóficos e literários ingleses e estadunidenses, leituras, contudo deformadas no embrutecimento e na violência cotidiana que vivenciou e vive no seu microcosmos, a escuna de caça à focas, Ghost.
Um verdadeiro lobo de seus homens, física e psicologicamente os maltrata e os domina, quer ser um demiurgo de seu microuniverso, o Diabo mandando em seu reino, daí a leitura de Milton ser tão cara para Larsen, para ele a lei do mais forte é o que vale. Até que a partir do resgate de Humphrey, a tomada de consciência de Wolf, aos poucos e de maneira trágica que seja, vai acontecendo, pois ele confrontado com os ideais humanitários e intelectuais do jovem burguês van Weyden, percebe outro lado de sua personalidade até então não manifestada.
Humphrey contudo aos poucos transforma-se em outro, o Hump da escuna Ghost, que aos poucos percebe que nem só de leituras, de estudos e da tentativa em redigir seu almejado livro, se resume a vida. Hump torna-se também forte fisicamente e capaz de proezas de coragem e ousadia, transforma-se também em um ser pragmático, cético, violento, às vezes até com rompantes para cometer o assassínio. Surge, ainda uma outra personagem, Maud Brewster, uma jovem náufraga, resgatada também pela escuna Ghost e que confere novas motivações e perspectivas à obra, torna-se interesse amoroso de Hump, e interesse intelectual deste e também de Wolf Larsen. A tensão é aumentada cada vez mais e irrompe em fatos que ninguém pode controlar humanamente, e nem deliberadamente contornar no primeiro momento em que surgiram.  
O romance é filosófico no aspecto do embate entre dois homens tão diferentes e tão semelhantes em suas idiossincrasias, os dois antagonistas aos poucos tornam-se complementares um ao outro, os dois têm bondade e maldade, ódio e simpatia, e todos os outros opostos da natureza humana, que se complementam dinamicamente. Dessa forma ao fim e ao cabo do romance tem-se a ideia do sentimento de compaixão, mesmo em meio à tragédia final. Contudo o trágico é simultaneamente o início esperançoso de duas vidas unidas pelo amor, na tessitura do próprio romance, O Lobo do Mar.

(Jack London). 

Trechos do romance na tradução de Daniel Galera:

"Acredito que a vida é uma confusão - ele respondeu de imediato. - É como um levedo, um fermento, uma coisa que se move e pode continuar se movendo por um minuto, uma hora, um ano ou cem anos, mas que no fim vai parar de se mover. Os grandes devoram os pequenos para que possam seguir se movendo, os fortes devoram os fracos para manter sua força. E quem tem sorte devora mais e se move por mais tempo. Isso é tudo. (...)"

"- O homem é inconstante como os ventos e as correntes marítimas. Impossível adivinhar o que ele vai fazer em seguida. Quando você começa a achar que o conhece, quando começa a vê-lo com bons olhos e põe as velas pra vento a favor, ele dá uma volta na sua frente, entra rasgando e arrebenta tudo."

"- Ele nunca filosofou sobre a vida - acrescentei.
- Não - respondeu Wolf Larsen, com um indescritível ar de tristeza. - E ele é mais feliz assim, deixando a vida em paz. Está ocupado demais vivendo a vida para pensar nela. O meu erro foi ter um dia aberto um livro."

"(...) Apesar de minha esperança e fé na humanidade terem conseguido sobreviver às críticas demolidoras de Wolf Larsen, ele tinha operado algumas transformações menores em minha pessoa. Tinha aberto para mim o mundo real, que sempre me causara receio e sobre o qual eu pouco sabia. Eu estava aprendendo a observar mais de perto a maneira como a vida era vivida, a reconhecer que existia o que se pode chamar de fatos do mundo, a emergir do reino da mente e das ideias e a atribuir certos valores às fases concretas e objetivas da existência."

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
LONDON, Jack. O lobo do mar. Tradução: Daniel Galera. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

(Pânico no Ano Zero, Ray Milland, EUA, 1962): (“Não deve haver um fim, mas um (novo) começo”):


(Pânico no Ano Zero, Ray Milland, EUA, 1962):
(“Não deve haver um fim, mas um (novo) começo”):

Frankie Avalon, Ray Milland, Richard Bakalyan, Neil Burstyn, Joan Freeman, Jean Hagen, Rex Holman, and Mary Mitchel in Panic in Year Zero (1962)

“Pânico no Ano Zero é dirigido e estrelado pelo astro Ray Milland, lançado em 1962, no auge da Guerra Fria entre EUA e URSS, trata-se de um dos primeiros filmes pós-apocalípticos a questionar como seria a Humanidade nos primeiros dias, após a queda da primeira bomba atômica.
Sem se preocupar com mirabolantes efeitos especiais, até por se tratar de um filme-B produzido pela companhia cinematográfica comandada por Roger Corman, e sem abordar o roteiro pela perspectiva governamental ou dos exércitos das grandes potências, a história tem como ponto de vista uma pequena e tradicional família de Los Angeles, que tinha ao início do filme um simples propósito de acampar.
Ao sair de LA, a família chefiada por Harry (Milland) se depara no retrovisor do carro com que parece ser um raio, a pergunta que vem é simples: será que vai chover? Até o momento posterior em que surge o tão temido cogumelo nuclear, agora resta lutar pela sobrevivência no caos que irrompe. Nos primeiros momentos, após o apocalipse atômico, a Humanidade se desespera, buscando soluções imediatistas, instintivas de sobrevivência, tais como estocar mantimentos, saquear os outros, entre outras atitudes não-civilizadas.
Outro questionamento que surge é o do isolamento social total, Harry busca se isolar com sua esposa e seus dois jovens filhos, para assim proteger sua família, dos saques que surgem, dos assassinatos e da desordem que imperam a partir de então, em uma área de camping distante e pouco movimentada. Em uma metáfora interessante se deparam com pinturas rupestres que remontam à Idade Antiga da civilização. Pois não seriam os momentos que a Humanidade está vivenciando nesta altura do filme, senão os (novos) primórdios da (nova) civilização, após a hecatombe atômica? Ou seja, a ideia não de um fim, mas de um (novo) começo? 
Destaque para mais uma atuação segura de Milland, premiado como melhor ator por Farrapo Humano, de 1945, de Billy Wilder, e destaque no hitchcockiano Disque M para Matar, 1954. O astro hollywoodiano sempre interpretou personagens decadentes e amorais, mas a partir dos anos 1960 começou a interpretar pais de família dedicados em proteger a moral e a segurança de seus familiares, é o caso deste filme em análise, em que Ray Milland vive Harry um pai obcecado em proteger os seus parentes próximos, mesmo que para isso tome atitudes que condena e odeia, que causa nele um drama de consciência.
Este drama de consciência é ampliado por sua esposa Ann, que é uma personagem que faz um contraponto às atitudes de Harry, é uma espécie de voz que tenta conscientizar o esposo para ter mais altruísmo para com o restante da sociedade e não apenas para com seus familiares mais próximos.
Pânico no Ano Zero conta ainda com uma boa trilha sonora jazzística assinada por Les Baxter, que confere dinamismo ao filme em alguns momentos de tensão do roteiro escrito por Jay Simms e John Morton, baseado em dois contos de Ward Moore. 
As reflexões se somam em um filme-B que nos surpreende positivamente. Um thriller e clássico filme de ficção-científica, que fez muito sentido para seus espectadores nos anos 1960 e ainda nos faz hoje, nesta releitura em tempos difíceis da Pandemia da Covid-19, em 2020, pois o que questionamos atualmente senão: como retornar e retomar à normalidade, após debelada a Pandemia?”

sábado, 4 de abril de 2020

(O Leito da Virgem, França, 1970, Philippe Garrel):

(O Leito da Virgem, França, 1970, Philippe Garrel):

Le lit de la vierge (1970)

O Leito da Virgem não é uma história bíblica do Novo Testamento, nem uma obra sobre Maria, Jesus ou Deus, mas um filme de Philippe Garrel sobre as origens, o tudo e o nada do ser humano, o começo e o fim da Humanidade, ou seja, o meio que é vida antes da morte que é passagem para o Nada onde Tudo se inicia...
Esta circularidade é perceptível quando o filme de Garrel começa com a cena em que Jesus nasce no leito de Maria numa ponte sobre o mar, ele já nasce assustado e horrorizado perante o caos da Humanidade envolta em guerras, destruição, ruínas e crimes, buscando ouvir a voz de seu pai, Deus, a qual ele não consegue ouvir. Maria tenta acalmá-lo e o manda em sua missão: redimir a humanidade. Porém, será que ela o ouvirá? Ou ele não está pronto para ser ouvido? Pois, o que se percebe é um movimento duplo: a Humanidade está perdida e Jesus o está tão perdido quanto, em sua insegurança, imaturidade, em seu abandono, em sua solidão, em sua depressão.
Maria (Zouzou) e Maria Madalena (também interpretada por Zouzou) são faces da mesma mulher, a mãe-virgem e a amante-prostituta -, (talvez uma proximidade com o cineasta Jean Eustache, amigo de Garrel e uma das influências para seus filmes, guardando as devidas peculiaridades de cada diretor e de cada obra, cita-se A Mãe e A Puta, dirigida por Eustache, em 1973, que tanto em aspectos temáticos quanto em aspectos técnicos, tem similaridades e particularidades com este filme garreliano e outros de sua lavra) -, faces da mesma moeda, portanto duplos do “Bem-e-do-Mal” e do Divino-e-do-Profano”.
Filmado em um preto-e-branco-scope terrivelmente e assombrosamente solitário e angustiante O Leito da Virgem sugere o caos humano, as ruínas das relações interpessoais, a alteridade em frangalhos diante e meio a crimes e guerras de todos os tipos, espalhadas junto a todos os tipos de males, quando da cena em que a Caixa de Pandora é aberta por Maria Madalena, ou será que foi aberta por Maria?
Outra cena emblemática dá-se quando Maria Madelena, ou talvez Maria, está grávida e Jesus se abandona nas profundezas do mar revolto, abandonado desta forma, sua amante ou mãe, ou as duas, e seu filho, da mesma forma que fora abandonado por seu pai, Deus. Dessa maneira o filme é circular pois começa e termia, para iniciar de novo com: nascimento, morte, abandono...
Mítico também é o espaço e o tempo em que ocorrem as ações um tanto quanto episódicas da obra garrelina, espaço e tempo indeterminados, dando um caráter parabólico, porém pessimista e solitário da Humanidade, um teor atemporal, universal destes seres humanos tão horríveis em sua beleza criadora e destrutiva ao mesmo tempo. O leito do nascimento é também o leito da morte...
A cruz de Jesus e também dos cineastas, dos artistas em geral, é saber da incompreensão de seus atos e das suas obras, o abandono e a solidão, não são somente de Jesus, porém de Garrel e de todos os artistas por consequência, e, enfim, de todos nós-humanos. ”

segunda-feira, 23 de março de 2020

(As Amorosas, Walter Hugo Khouri, Brasil, 1968):


(As Amorosas, Walter Hugo Khouri, Brasil, 1968):


“Do Nada viemos para o Nada retornaremos. Desta maneira circular dá-se também roteiro do filme de Walter Hugo Khouri, “As Amorosas”, lançado em 1968.  O roteiro escrito pelo próprio cineasta mostra a travessia de Marcelo (Paulo José) que vive uma existência em crise consigo, com os outros e coma sociedade de uma maneira geral. O filme começa como protagonista à deriva numa mata, à deriva ele percorre sua trajetória a obra toda, e ao fim e ao cabo, à deriva permanecerá como todos os seres humanos, pois a maior revelação talvez que o espectador tenha é que nossas vidas são vividas em devir. O eterno retorno ao ventre materno, a posição fetal onde o Tudo e O Nada começa é também o fim do Tudo e do Nada, que na verdade é apenas o Meio.
 Marcelo se relaciona em frangalhos com sua irmã Lena (Lilian Lemmertz), com sua namorada Marta (Jacqueline Myrna) e com sua amante Ana (Anecy Rocha). Porém, é sua vida pessoal, psicológica e existencial que está em frangalhos e em crise, por isso talvez ele tenha uma perspectiva niilista em relação à sociedade e, principalmente, para consigo, já que suas tentativas de tomar atitude são sempre tão frustradas quanto sua própria existência, sua força de vontade se esgota quanto apenas esboça uma formulação de tentar algo em sua jornada. Marcelo cursa a faculdade de Cinema, é revisor, tradutor e crítico de Artes, mas não desenvolve nada, nulifica-se sempre em si mesmo e em suas relações. Por exemplo, ao dar um depoimento para um documentário ele testemunha que não vislumbra e não deseja nada. Talvez aqui resida sua maior descoberta: ele auto-descobre inapto para o viver. ”

terça-feira, 17 de março de 2020

(O Exército das Sombras, FRA-ITA, 1969)


(O Exército das Sombras, FRA-ITA, 1969):

O Exército das Sombras é uma tensa, opressiva e claustrofóbica obra de Jean-Pierre Melville, produção franco-italiana, lançada em 1969, sobre a Resistência Francesa aos nazistas alemães que ocupavam a França durante a Segunda Guerra Mundial. O filme enfoca o período de quatro meses decorridos no final do ano de 1942 até o início de 1943, que tem como protagonistas um pequeno grupo da Resistência Francesa, que tem como um dos líderes Philippe Gerbier (Lino Ventura), um engenheiro civil, que de forma circunspecta, de poucas palavras, cético e fatalista junto aos seus camaradas enfrentam os nazistas que ocupam as cidades francesas.
Melville baseando-se no livro de Joseph Kessel ressalta no filme como o ‘Exército das Sombras’ agia, além de revelar a solidão, o medo e as angústias diárias dos seus membros, sem mirabolantes explosões típicas de muitos filmes sobre a Segunda Grande Guerra, e sem violência explícita, pelo contrário se faz valer de um brilhante roteiro para desvelar a violência ou melhor a tensão psicológica que os protagonistas do filme vivenciam e experimentam. Somada à uma fotografia em cores sombrias, frias e com aspecto que nos sugere opressão, claustrofobia e até o medo que as pessoas vivenciaram durante a Guerra. A direção da excelente fotografia é assinada por Pierre Lhomme e Walter Wottitz.
 Destaques também para as atuações de Ventura como o frio, solitário, fatalista e cético Gerbier, e a interpretação de Simone Signoret como a impactante, forte e obstinada Mathilde.
Uma das questões mais impressionantes do filme é a pressão ininterrupta do medo de errar, a tensão e a falta de diversão dos membros da Resistência. O filme é trágico, sem ilusões, nos faz perceber que Guerra é sempre triste, solitária e trágica. ”